<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090</id><updated>2011-07-07T22:58:22.234-03:00</updated><category term='http://www.myfreecopyright.com/registered_mcn/B8A64_7B8DD_D90C8'/><title type='text'>Contos de Um</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>41</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-2559562537379608995</id><published>2010-05-15T14:13:00.001-03:00</published><updated>2010-05-15T15:18:53.156-03:00</updated><title type='text'>Menino</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;A criança, pouco mais velha que um bebê, menino marrom de calça três quartos, no meio da roda de outros iguais, morde a cabeça do dinossauro verde, alheio à algazarra.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Pulos e gritarias são acompanhados pelos seus sentidos, aguçada atenção, alheia à cabeça mastigada, suplício no plástico do bicho extinto.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Velho, vejo e ouço a balbúrdia, desatento a ela, o foco está no menino mestiço, traços de índio, árabe, negro e sabe-se lá quantas outras etnias. Enfim, brasileiro. Perninhas tortas de pose parada, móveis apenas olhos e mandíbula.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Como um gato frente à gaiola de periquitos coloridos, o menino marrom observa, não participa, resume-se à expectativa silenciosa, distante na proximidade.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt; Havia um menino assim&amp;#160; ele ainda se reflete na retina de trás para a frente, esconde-se no anverso do olho e vê agora seu passado tímio equilibrando-se sobre as pernas finas, dois canudinhos de juta, joelhos proeminentes e pele marrom. Os olhos veem o passado.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Se o menino, صبي, niño, curumim, pouco mais que um bebê me mirasse, não veria o futuro, não se reconheceria no velho bobalhão que o fitava por trás da resina dos óculos.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;O que veria o guri? A regressão se faz de novo, busco no empoeirado bornal que carrega o passado a tiracolo as sensações de quando via um velho. Rebusco nos papéis amarelados em que escrevi longa história e não acho episódio. Não me lembro de ter visto velhos.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;No saco de reminiscências procuro os velhos da minha infância de pouco mais que um bebê. Seu Luizão com quem meu pai trocava bolsilivros… O Sargento Meireles, amigo do meu velho particular, mas que não era velho como me lembro dele agora, a quem chamava de “Cajueiro”, nunca soube o motivo. O Sargento Meireles não podia ser velho, já que meu pai não era. Eram amigos da mesma idade ou quase. O padre americano, grande e arroseado nas bochechas queimadas naquele sol do Equador… Dona Maria, a primeira professora. Não, a Dona Maria estava velha quando a reencontrei nas ruas de Guajará-Mirim, trinta anos depois e era essa a memória visual que eu tinha dela. De outras professoras não lembro, se eram velhas ou não, se existiram ou foram apenas obrigações de infância. Passaram em branco.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Quase não havia velhos na minha meninice. Não tive avós perto, meus pais eram jovens para conviver com velhos. O que o menino dos joelhos de duas bolas sentiria se me olhasse continua desconhecido. Talvez sentisse carinho se ele, sortudo, tivesse avô. Talvez medo se uma babá malcriada o ameaçava com a vinda do velho do saco. Talvez indiferença se, assim como eu, não houvesse velho em sua vida.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;O que eu sinto, porém, é bem claro. Sinto saudade.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;&amp;#160;&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;©Marcos Pontes&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-2559562537379608995?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/2559562537379608995/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2010/05/menino.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/2559562537379608995'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/2559562537379608995'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2010/05/menino.html' title='Menino'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-3157420439893125477</id><published>2009-06-21T16:35:00.000-03:00</published><updated>2009-06-21T16:36:28.724-03:00</updated><title type='text'>Maloca Descoberta</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Era um acontecimento festivo quando algum teco-teco ou helicóptero pousava naquela pista de piçarra cercada de mato. A molecada do povoado chegava ao campo antes do aparelho, avisada pelo barulho longínquo do motor, fácil de ser ouvido naquele silêncio espesso da floresta.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Em algumas das viagens os passageiros eram cientistas que se embrenhavam na floresta cheios de tralhas esquisitas, mochilas, redes de dormir e de pescar, fogareiros, armadilhas e uns troços que não conseguíamos identificar o que era ou pra que serviam. Vinham sempre acompanhados de um ou dois índios ou por um mateiro experiente.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Outras vezes, no lugar dos cientistas, vinham uns homens louros com suas calças pretas de tecido fino, gravatas vermelhas, camisas brancas de mangas curtas, sapatos lustrados e um livro preto que apresentavam como o livro da salvação das almas. Reuniam-se com os idosos e conversavam coisas ininteligíveis num português enrolado. As crianças os cercavam assuntando o que era dito ou gritado aos olhos fechados e seguido de aleluias e graças a Deus e outras coisas sem sentido como complementos das frases interrompidas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;De helicópteros vinham soldados e médicos, normalmente na manhã seguinte ou na seguinte à seguinte à Lua cheia. Os soldados sem fuzis ajudavam a consertar telhados e paredes, pintavam as paredes do barracão comunitário, colhiam palha para recobrir as palhoças ou ajudavam a reparar os cascos das canoas. Os médicos usavam um aparelho de três pontas e nome esquisito. Duas pontas eram enfiadas no ouvido lá dele e a terceira, com uma rodela preta, encostavam no peito das pessoas, ou nas costas, e mandavam respirar fundo. Mandavam abrir a boca e mostrar a língua dizendo “aaaaa”. Faziam umas perguntas estranhas para as mães: “como são as fezes do bebê?”, “ele tosse à noite?”, “a menina reclama de dor de cabeça?”, “quantos dedos você está vendo?”. Ser doutor é fazer isso? Coisa mais besta!&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Depois davam pílulas, vidros de beberagem azeda e obrigavam os mais velhos a nos darem outra dose à noitinha, antes de irmos para a rede. Pior quando enfiavam agulhas na bunda ou no braço e empurravam para dentro da gente uma água de dentro de tubos de vidro. Diziam que era remédio, como se já não tivéssemos remédios para tudo no meio do mato.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Mesmo sabendo que íamos sofrer a tortura de ouvir gente gritando coisas que não entendíamos ou seríamos obrigados a engolir alguma coisa amarga ou espetados por agulhas, não resistíamos à tentação de vermos aquelas máquinas&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;barulhentas descerem como se fossem se espatifar no solo, depois deslizarem levantando poeira, ou os helicópteros abrindo um redemoinho de pó vermelho no meio do mato, descer devagarzinho como se fosse um beija-flor rajado. Era diversão para quebrar a rotina.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Um dia ouvimos o barulho ainda longe, corremos para a pista. Podíamos estar enganados, mas não era dia de vir nem médico, nem louro alto e nem cientistas, se bem que os cientistas não tinham uma programação certinha. O barulho também era diferente, não parecia o barulho dos dois motores do avião dos cientistas ou o motor mais fraquinho dos homem da bíblia, muito menos o dos helicópteros.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Nós todos ladeando a pista quando vemos um avião de apenas um motor aparecer acima das árvores. Balança de um lado para o outro, embica em direção à pista, vem meio de lado como gavião na ventania. Não era azul como o dos moços louros e nem verde como o dos cientistas, tinha listras verdes no rabo e nas asas. O piloto também parecia mais estabanado. A roda bateu com força no chão, quicou, pisou de novo com força e logo começou a frear, não era aquele pouso longo e suave que a gente estava acostumado.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;O piloto não manobrou para a frente do barracão, como os outro faziam, foi lá para o fim da pista, longe da gente. Ficamos parados esperando ele voltar, mas ele não voltou. De longe vimos descerem três homens que começaram a tirar as coisas da barriga do bicho, cada um deles com uma espingarda na bandoleira. Ficamos olhando um para a cara do outro esperando que alguém tomasse a iniciativa de correr até lá e saber as novidades. Não sei quem foi o primeiro, quando vi já tinham três correndo à minha frente e eu os segui.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Já estávamos no meio da pista quando vimos o avião dar a volta, apontar o nariz na direção da gente e começar a girar as hélices com força, como faz quando vai decolar. O piloto não devia estar nos vendo, acelerou com tudo em nossa direção. Mal tivemos tempo de nos jogar de lado, gritando feito bando de macacos que vêem onça. Tirando os arranhões do peito e nos cotovelos, ninguém se machucou.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Sem entender o que havia acontecido, passamos algum tempo olhando uns para as caras abestalhadas dos outros, cada qual contando para onde correra para se livrar de ser estraçalhado pelo teco-teco. Os pais vinham correndo ao nosso encontro, as mães gritando, até uns gritos de “aleluia!” eu ouvi.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Um dos nossos jovens adultos, mais calmos os ânimos, perguntou para onde foram os três homens desembarcados. Nos viramos todos em direção ao final da pista onde os víramos pela última vez. Haviam se embrenhado.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;De volta às casas, um ar pesado, cada um especulando o que fora aquilo sem qualquer teoria definitiva, quando um dos mais velhos chamou três homens mais novos, dois solteiros e um casado, e os mandou ir atrás dos homens embrenhados na floresta para saberem o que estava acontecendo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Não havia arma de fogo na aldeia, nossos homens caçavam e pescavam com zagaia e arco e flecha, usavam facão que os soldados trouxeram de presente e não tínhamos inimigos. Os moradores das aldeias vizinhas eram nossos amigos e costumávamos trocar carne, mandioca, farinha, peles, o que a floresta nos desse a mais. Não tínhamos necessidade de espingarda ou revólver. Além do mais, não tínhamos porque desconfiar das intenções daqueles homens, talvez não tenham nos visto, talvez tivessem pressa para ajudar algum cientista perdido na mata. Nós vimos os cientistas e soldados falarem com gente longe por meio de rádios. Talvez aqueles homens tenham falado com os cientistas que estavam havia dias na floresta e eles precisassem de ajuda. Se fosse assim, nós poderíamos ajudar.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Os homens saíram depois de comer. O sol estava no alto. Fomos atrás deles, eu e mais oito garotos, até a beira da pista. Os vimos dirigirem-se para o lugar onde os três homens de espingardas e mochilas desceram do avião. Vimos Andirá se acocorar e identificar o caminho dos estrangeiros. Apontou para uma pequena abertura no mato e seguiram os três dos nossos por ali.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Ainda ficamos um tempo especulando e aguardando, mas sabíamos que poderia demorar a volta dos homens. A espera foi ficando sem graça. Voltamos para a aldeia e para as brincadeiras.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Na boca da noite, como quase todos os dias, os adultos acenderam a fogueira na praça, sentaram-se em troncos e puseram-se a conversar. Estavam todos lá, entre nós os pais dos dois rapazes solteiros e a mulher do casado que foram atrás de notícias dos estrangeiros. Naquela noite não ouvimos estórias engraçadas e nem planos para o dia seguinte. Era muito silêncio só quebrado muito raramente por uma ou outra especulação sobre a demora do trio. Para nós, crianças, a noite não estava agradável. Naquele silêncio, o sono não demorou, fomos nos retirando aos poucos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Acordei na manhã seguinte com o alvoroço vindo do barracão. O vozerio dos homens assustava mesmo sem entender o que diziam à distância. Saltei da rede num salto e corri até lá. O Sol ainda nem havia se levantado. Fui parado no caminho pela minha mãe. Ninguém pode entrar lá, me disse, é reunião só para os homens. Me virando, reparei que todas as mulheres estavam à porta de suas palhoças, algumas com bebês no colo, outras com ar de preocupação nos olhos, as mães de Andirá, Iraputã e Xambré formavam um grupo separado, conversando agitadas, tensas. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;O vozerio dos homens e as conversas das mulheres eram em nossa língua nativa, que nós, crianças, sabíamos muito pouco. Não sei por que, mas de uns tempos para cá os adultos nos obrigavam a falar &lt;st1:personname productid="em português. Nossa" st="on"&gt;em  português. Nossa&lt;/st1:personname&gt; língua se tornara um segredo só conhecido pelos mais velhos. Só entendíamos uma ou outra palavra, “floresta”, “armas”, “perigo”, “forasteiros”, perdidas no meio de expressões inteiras.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;De repente o silêncio e uma cantoria masculina, solene, séria, &lt;st1:personname productid="em nheengatu. Uma" st="on"&gt;em nheengatu. Uma&lt;/st1:personname&gt; cantiga antiga, dos tempos de nossos ancestrais, que falava de coragem e apoio que cada um de nós tem que dar ao outro.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Não demorou muito a cantoria. Cessou num ato, seguindo o silêncio, a saída de Mariú, Kaloré e Irajá, caras pintadas, borduna, arco, flecha e facão, à frente dos demais homens. O cortejo seguiu em direção à pista de pouso, nenhuma palavra, apenas o roçar de seus pés na terra nua. Tentei acompanhá-los, mas fui detido novamente pelas mãos da minha mãe. Os homens sumiram por trás da última casa para reaparecerem pouco depois sem os três paramentados.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;O dia foi todo de tensão. Pouco se falava, apenas o essencial. As mulheres faziam suas tarefas de preparar a comida, serviam às famílias, depois sumiam para se reunirem com as mulheres das famílias dos seis homens que se encontravam &lt;st1:personname productid="em missão. Os" st="on"&gt;em missão. Os&lt;/st1:personname&gt; homens comiam e voltavam para o barracão onde pitavam cachimbo e conversavam em voz baixa.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Mesmo as crianças que pouco entendiam o que se passava, entendiam que não era dia de brincar. Até tentamos nadar ou pegar algum peixe com as mãos, mas o espírito desanimador dos adultos nos contagiou. Preferimos compartilhar com eles a apreensão e a preocupação pelo sumiço dos seis homens.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Já o sol começava a despejar-se sobre as copas quando ouvimos um grito longínquo, depois outro e mais outro. Era Kaloré avisando da chegada. Aqueles gritos tiveram o efeito de um raio no meio da praça. Corremos todos, crianças e jovens, mais rápidos, à frente, seguidos dos homens, mulheres e velhos. Não sabíamos se ficávamos alegres ou mais nervosos, não havia certeza de quem voltava. O grito de Kaloré anunciava apenas sua chegada e de novidades.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Na luz vermelha do Sol filtrada pelas folhas víamos apenas um amontoado de corpos e pernas caminhando para cá. Paramos à beira da pista de pouso e esperamos o grupo se aproximar. Com as mãos amarradas por cipós, uns aos outros, no meio vinham os três estrangeiros. Não apresentavam ferimento aparente, apenas a vermelhidão do que poderia ser um tabefe na face esquerda de cada um, roupas rasgadas, um deles com bota em apenas um dos pés, e muito suados. Ladeando-os vinham Kaloré, Mariú e Irajá.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;A um sinal do homem mais velho de nós, os estrangeiros foram levados ao centro da praça. As crianças gritando insultos e as mulheres pedidos para que devolvessem nossos homens. Os homens da aldeia emitiam ordem graves, curtas e que não admitiam desobediência para que os prisioneiros andassem, parassem, calassem.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Nosso homem mais idoso, borduna na mão apontada para o peito do homem mais velho deles, perguntou onde estavam Iraputã, Andirá e Xapré. O homem disse que não sabia quem eram. Nosso velho insistiu, o homem continuou negando. As vozes foram se exaltando, nosso velho inquiria e o homem negava, os outros dois calados, olhos arregalados.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Os velhos se afastaram do grupo, confabularam em sussurros em nossa língua nativa, voltaram para o grupo sob nossos olhares curiosos, excitados e nervosos. O mais velho mandou que separassem os homens, cada um deveria ser levado para trás de uma das palhoças, uma afastada da outra, de forma que nenhum poderia ver ou ouvir os outros, a não ser que gritassem.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;A noite caiu e nós, crianças e mulheres, das portas de nossas palhoças, víamos os velhos indo e voltando de um prisioneiro a outro por toda a noite. Atravessavam a praça, conversavam com um dos três homens, voltavam a atravessar a praça e iam onde estava o segundo e isso se repetia incontáveis vezes.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Um dos homens estava sendo vigiado por três dos nossos rapazes bem atrás de nossa choça. Quando os idosos vinham para cá, eu entrava em casa e ia lá para o fundo, encostava o ouvido numa das frestas entre as tábuas da parede e tentava diminuir até o som do coração para ouvir melhor o que diziam.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;O velho perguntava sempre a mesma coisa, onde estavam nossos rapazes, e o homem negava, chorava, dizia “juro por Deus”, pedia água que lhe era negada, pedia comida que também não era dada. Depois de três ou quatro insistências, os velhos o abandonavam com os vigias e iam em direção a outro grupo escondido atrás de outra casa.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Talvez para deixar os prisioneiros famintos e sedentos ainda mais vulneráveis, os velho&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;inquisidores passaram a fazer as perguntas enquanto comiam uma capivara dourada no fogo, carne assada cheirosa, em plena madrugada, mesmo assim os homens não falavam. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;O céu já começava a mesclar seu azul com o amarelo do Sol nascente, quando os homens foram trazidos para o centro da praça. Os idosos discutiam a um canto, só víamos seus gestos, nem murmúrios chegavam aos nossos ouvidos. De repente o grupo desfez-se e todos se aproximaram dos três homens do avião. Foi ordenado para que os cipós que os amarravam fossem cortados. Mulheres trouxeram caldo de capivara em cuias e beiju enrolados &lt;st1:personname productid="em folhas. Outra" st="on"&gt;em folhas.  Outra&lt;/st1:personname&gt; trouxe uma panela de barro com água.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Comida e bebida foram oferecidas aos prisioneiros que estavam deixando de ser prisioneiros. Comeram meio tímidos a princípio e vorazes depois de perceberem que era uma oferta franca.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Saciadas fome e sede, os homens foram libertados. Não houve pedido de desculpas, apenas a admissão de que fora cometido um erro de julgamento dos nossos homens que acharam que os três primeiros rapazes a se embrenharem haviam sido presos ou mortos pelos estrangeiros. Como jamais alguém resistira a interrogatório tão demorado e cruel, nossos velhos acreditaram na inocência dos três homens e os libertaram alimentados e com carne, farinha, mandioca e beiju. Esse era nosso pedido de desculpas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Ficava, porém, a pergunta inicial: Onde estavam Xambré, Andirá e Iraputã? Eram jovens, mas experientes, conheciam cada pedaço da mata e seus segredos. Teriam sido encantados por Iara ou engolidos por Boiúna?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Logo se formaram grupos de voluntários para irem em busca dos rapazes. Cada um queria demonstrar sua solidariedade e coragem. Os velhos conselheiros tiveram alguma dificuldade em organizar os grupos de três que se revezariam nas buscas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Mal os homens sumiram depois das casas, quase correndo para saírem logo dali, os três primeiros rapazes seguiram o mesmo curso. Foram muitos dias de buscas. Os trabalhos de plantar e caçar estavam comprometidos, sempre faltavam seis homens para o serviço. Ou estavam no mato ou descansando depois de dois dias de missão.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Os relatos eram sempre os mesmos, não havia rastro, nenhum sinal sequer das penas da pulseira que Xambré carregava ou das pinturas de urucum de Andirá em algum pedaço de pau. Havia uma ou outra pista de que eles haviam pisado numa beira de água, mas esses sinais iam sumindo dia após dia, já desaparecidos de vez, e acabavam no nada, numa clareira sem mato, pouco mais de três metros de diâmetro.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Os velhos determinaram o fim das buscas, algum bicho maior e mais feroz que eles havia comido os três e sumido para sempre. Melhor ninguém mais ir para aqueles lados. As caçadas só aconteceriam para o outro lado, a pesca no rio mirim do lado do Sol nascente, não mais para os lados da lagoa. Se os três homens fossem comidos para lá, problema deles.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Passaram-se alguns dias e os três homens reapareceram lá no final da pista de pouso. Não traziam suas tralhas, apenas as espingardas. Não se aproximaram. Eu e mais os meninos que brincavam com os macacos nas árvores da margem da pista, nos escondemos no mato e ficamos espiando. Tínhamos medo daqueles homens que poderiam ter sumido com nossos rapazes e tinham armas. Eles poderiam querer vingança depois do que passaram. Um de nós deveria ir avisar o pessoal da aldeia, mas estávamos tão temerosos, que ninguém arriscou se mostrar.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Nós escondidos no mato de olho neles e eles sentados no fim da pista fumando e olhando o céu. Não demorou para que entendêssemos porque. O som começou como um zumbido, longe e se aproximando. Parece que ouvimos antes deles a chegada do avião. Só quando o aparelho já se mostrava no alto do início da pista é que eles se levantaram e colocaram-se à espera.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;O piloto vez exatamente igual ao que fizera da primeira vez, um pouso duro com o avião quicando na piçarra, depois indo até o final da pista, dando meia volta e parando. Desceram três homens que conversaram rapidamente com os outros três. Os que vieram do mato entraram no avião e os que chegaram agora se meteram na floresta.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Como chegou, o avião se foi, rápido e barulhento. A poeira logo assentou, sinal de que vinha chuva, e tudo voltou à calma de antes.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Quando saímos do mato, os homens e mulheres da aldeia começavam a chegar. Não viram o que havia acontecido, apenas o rabo do avião sumindo na primeira nuvem baixa.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Na aldeia os velhos nos pediram que contássemos o que acontecera em volta do fogo no barracão. Nas palhas os primeiros pingos grossos da chuva que demorou três dias e três noites.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Na manhã do quarto dia chegaram os dois helicópteros verdes com soldados e médicos. Nos traziam remédios amargos e a alegria da barulheira dos motores.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Na hora de comer, dois médicos e um outro homem que trazia umas estrelas douradas na camisa comeram com nossos velhos, como sempre faziam, enquanto os soldados e outros médicos se reuniam numa barraca de pano que eles montavam à beira da pista e com uma cozinha com panelas de ferro e lenha. Tiravam a comida de latas e vidros que depois deixavam jogados por ali. Nós recolhíamos tudo e enterrávamos desde o dia em que eu e mais dois meninos nos ferimos enquanto brincávamos com aquilo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Na palhoça onde os velhos comiam todos os dias, a conversa não foi tão solta e divertida como sempre. Percebíamos que nossos idosos contavam aos militares sobre a chegada dos estrangeiros e o sumiço dos nossos rapazes. Os homens do Exército assumiram um ar sério e disseram que comunicariam os seus chefes daquilo. Prometiam mandar gente e fazer uma busca.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Não adiantou a recomendação de que poderia haver boiúna do lado de lá, que soldados poderiam também ser engolidos. O homem de verde e estrelas douradas disse que não se preocupassem, os soldados estariam preparados.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Terminado o dia, os helicópteros de volta ao seu lugar, tudo voltou ao normal, até que depois do almoço do dia seguinte ouvimos de novo o barulho do avião dos homens do meio do mato. Corremos para nosso esconderijo sob as árvores e esperamos a aterrissagem, mas isso não aconteceu. O avião passou baixinho sobre a pista, só que de atravessado, e sumiu sobre as árvores na direção em que os homens haviam entrado na floresta. Não demorou, novo sobrevoo na mesma direção. De primeira nós achamos que era outro avião seguindo o primeiro, depois vimos que era o mesmo que deveria ter dado a volta na mata e voltado pelo mesmo canto, só que voando mais alto. Antes dele sumir na lonjura, ainda vimos cair alguma coisa de dentro dele. Será que algum homem tinha se jogado do avião em voo?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Dessa vez os adultos chegaram a tempo e viram o ocorrido. Um deles disse que os homens de dentro do avião haviam jogado comida ou redes para os que estavam no chão. Kaloré confirmou que era justamente daqueles lados que estava o acampamento dos homens, às margens do igarapé, onde eles haviam construído um tapiri e faziam canoa. A curiosidade de ir lá ver o que estava acontecendo era grande, mas o alerta para a possibilidade de cobra-grande e a proibição dos idosos, além do medo inconfessável, eram freio. Talvez os soldados com suas espingardas de muitos tiros, quando viessem, conseguissem matar a cobra grande e contar o que está havendo da tapera dos estrangeiros.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;No segundo dia chegaram três helicópteros cheios de soldados amados. Não vinham em visita de cortesia e nem adentraram a aldeia. Dirigiram-se apressados em duas filas para a picada aberta pelos homens do teco-teco. Aos poucos, em silêncio, comunicando-se por gestos, os soldados eram engolidos pela escuridão do verde. Ficaram dois homens em cada helicóptero, os pilotos. Um daqueles homens louros que vinham de vez em quando me ensinou a contar até vinte. Eu contei vinte soldados, aí comecei a contar de novo e contei mais seis soldados e mais os seis pilotos. Nunca tinham vindo tantos de uma vez.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Nossos homens, mulheres, velhos e crianças ficaram amontoados na saída da aldeia, os trabalhos parados, caça moqueando sozinha, mandioca azedando, bananas sem vigias para os macacos. Todos esperando o resultado daquela ação. O silêncio cortado apenas pelo farfalhar que vinha da matas, um piado ou outro ou o grito de macaco afoito. Mas esse silêncio foi rompido pelo leve zunido, longínquo. Nossos ouvidos diziam que era o avião dos homens da floresta. Os pilotos vistoriavam suas máquinas sob os capacetes enormes e não ouviam o que nós ouvíamos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Olhávamos alternadamente para os pilotos e para o céu na esperança que eles vissem ou ouvissem o que já ouvíamos, mas eles não demonstravam qualquer reação ao zunido. Não agüentando a surdez dos pilotos, Itaji saiu correndo e gritando “eles vêm chegando! Eles vêm chegando!”. O piloto mais próximo, pego de surpresa, virou-se assustado já sacando a pistola. Itaji, que tinha certeza que os primeiros homens do avião haviam matado seu filho Andirá, mesmo que os idosos dissessem que não, via nos soldados a oportunidade de matar os invasores e saber que fim deram ao seu filho.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Vendo tratar-se de uma mulher desarmada, o piloto guardou a arma, os outros cinco já se aproximavam. Antes que perguntassem a Itaji quem vinha vindo, o avião despontou sobre nossas cabeças, vindo da mesma direção dos dois últimos voos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;O piloto soltou Itaji e correu para seu helicóptero, um segundo piloto sentou na frente junto com ele e um terceiro sentou no banco de trás, segurando a espingarda de muitos tiros fixa por um pé de ferro. A hélice de cima foi ligada, Itaji voltou com medo de ser cortada, gritando “peguem eles! Peguem eles! Eles mataram Andirá!”. Diferentemente das outras vezes, o helicóptero levantou rápido, não na vertical, mas já na direção de por onde sumira o aviãozinho. Desapareceram os dois, deixando o ruído que se afastava rápido.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Apagou-se o som dos motores, surgiram sons de estalos lá no meio do mato. Sons estranhos como troncos quebrando... Não. Como estalar de dentes de anta... Não exatamente. Sons rápidos, tum, tum, tum, como batidas compassadas &lt;st1:personname productid="em tambor. Muitos" st="on"&gt;em tambor. Muitos&lt;/st1:personname&gt; tambores, muitos barulhos numa sequência que lembrava o matraquear de macacos no cio.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Assustados, nos enfiamos nos matos, subimos em árvores, escondemos as mulheres e os velhos na vegetação. Desaparecemos como queixada ao ver pintada, rápido, sem ruído e sem rastro. Ficamos imóveis em nossos esconderijos esperando o matraquear parar.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Parou, mas não nos movemos. Os pilotos voltaram para seus lugares atrás dos vidros, tão apreensivos quanto nós, olhos fixos na entrada da picada. Falavam-se por meio dos rádios em seus capacetes, como o Holanda, soldado que sempre vinha com os médicos, havia me mostrado. De longe víamos seus lábios movendo-se. Suas mãos estavam segurando aquelas marchas como eles sempre seguravam para dirigir o helicóptero. Nos perguntávamos se eles voariam deixando os outros na mata como fizera o teco-teco com os outros homens, mas eles não ligavam os motores.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;O tempo passava e nada acontecia. Os pilotos, lentamente, largavam os comandos, desamarravam-se das cadeiras, desciam dos helicópteros, mostravam tranquilidade, faziam uma rodinha de conversa, acendiam seus cigarros. A tranquilidade deles nos deu tranquilidade. Aos poucos fomos saindo de nossas locas. Mas não voltamos para a aldeia entregue às mutucas. Nos reagrupamos à sombra das árvores à margem da pista.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Foi muito tempo ali vendo o nada passar diante de nós. Já começávamos a nos inquietas e pensar em voltar a nossos afazeres, talvez nos banhar no rio, quando surgiram os primeiros soldados saindo do caminho. Os da frente traziam as mochilas dos estrangeiros, os outros vinham trazendo outras bugingangas: espingardas, fogareiro, terçados, sacos, panelas... Doze soldados, dispostos quatro a quatro, traziam sacos pretos enormes, com algo dentro, parecia caça. Pelo tamanho talvez fosse sucuri, ou onça, talvez anta ou capivara... Não tinha como saber.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Contei os soldados, nenhum ficara por lá. Os quatro últimos traziam uma espécie de rede com paus do lado. Tinha alguém deitado naquela rede de pano branco que, à distância, não distinguíamos quem era. Do meio do nosso grupo saiu Juacema gritando o nome do filho “Iraputã! Iraputã!”, corria com os braços abertos em direção ao homem deitado na rede.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Os soldados reuniram entre os helicópteros o que trouxeram do acampamento dos três homens. Nossos velhos se aproximaram para saber do que se tratava. Aquele que parecia ser o chefe dos soldados abria os sacos e mostrava outros sacos, só que de uma espécie de vidro que dava pra dobrar, cheio de farinha. Mas não era farinha, dizia o chefe dos soldados, era uma farinha feita de folha de epadú que matava e que era proibida. Aqueles homens recebiam aquela farinha do avião que atirava em pacotes na mata, depois transportavam de canoa rio Uapés abaixo até Barcelos, uma aldeia lá deles, os soldados e os estrangeiros.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Depois o homem abriu os sacos pretos. Dentro estavam os três homens que desceram por último do teco-teco, mas que os adultos não haviam visto, por isso fomos chamados, as crianças, para confirmarmos se eram eles mesmos. Eram. Estavam mortos com os olhos abertos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Os soldados foram subindo no helicóptero e colocando as coisas catadas no acampamento dos homens da farinha que mata. Arrumaram os sacos com os homens dentro, um em cima do outro, em um dos helicópteros. Já carregado de tralhas e soldados, o helicóptero foi embora. Os demais homens ficaram esperando voltar o helicóptero que saíra atrás do aviãozinho.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;As atenções nossas estavam divididas. Mulheres e velhos foram cuidar de Iraputã e assuntar sobre o paradeiro de&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;Andirá e Xambré; os jovens e crianças espiavam a arrumação dos soldados. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Já era tarde, quase noite, quando o terceiro helicóptero voltou. O piloto desceu e nós o ouvimos falar para o chefe deles que não tinha combustível para seguir ainda hoje, que ficaria ali aguardando ajuda. Não foi embora e nenhum mais foi. Ficaram todos. Montaram suas cabanas de pano verde, improvisaram uma cozinha e acamparam ali.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Nós fomos levados à força por nossas mães para também dormirmos, não tinha porque ficarmos acordados a noite inteira.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Porque fomos dormir tarde, não consegui acordar cedo. Despertei com o barulho do motor dos helicópteros se preparando para irem embora. Saltei da rede já correndo e disparei pelo caminho até a pista de pouso. Por pouco não perdi o espetáculo da decolagem. Os soldados subiam, alguns acenavam com a mão, outros faziam cara de mau. Levavam suas barracas e deixavam suas latas e garrafas para enterrarmos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Eles sumiram no horizonte e oito dos nossos rapazes se internavam na floresta pelo caminho que levava ao esconderijo dos bandidos. Iraputã, mesmo com poucas forças por ter ficado amarrado por tanto tempo e fazendo trabalho pesado enquanto recebia açoites, acompanhava o grupo, os guiaria até o local onde foram enterrados os dois companheiros de aventura.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Marcos Pontes&lt;/div&gt;&lt;left&gt;&lt;a href="http://www.myfreecopyright.com/registered_mcn/B8A64_7B8DD_D90C8" title="MyFreeCopyright.com Registered &amp;amp; Protected"&gt;&lt;img src="http://storage.myfreecopyright.com/mfc_protected.png" alt="MyFreeCopyright.com Registered &amp;amp; Protected" title="MyFreeCopyright.com Registered &amp;amp; Protected" width="145px" height="38px" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/left&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-3157420439893125477?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/3157420439893125477/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/06/maloca-descoberta.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/3157420439893125477'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/3157420439893125477'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/06/maloca-descoberta.html' title='Maloca Descoberta'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-8637994898617376501</id><published>2009-04-05T19:58:00.002-03:00</published><updated>2009-04-05T19:59:17.331-03:00</updated><title type='text'>Comércio no Pelô</title><content type='html'>Bându e Bêngue nasceram no mesmo dia no mesmo cortiço na ladeira do Pelourinho.Os pais de Bându, Leôndia e Lucivaldo, eram lavadeira e guarda noturno; os pais de Bêngue, Carmêndia e Clodimir, eram empregada doméstica e apontador do jogo do bicho.Infância feliz tanto quanto a pobreza permitia. Baba nas ladeiras, um ou outro dólar de turista desavisado que arriscava um passeio pelo sítio histórico.Os serviços da casa saiam de graça ou na base do escambo. O eletricista, o encanador, o carpinteiro, a costureira... Todos vizinhos, compadres e amigos, quando não, irmãos. Se não havia perspectiva de riqueza, havia o conforto da casa própria e a solidariedade entre pobres iguais.Bêngue e Bându desde pequenos freqüentavam o Colégio Central com suas calças curtas de tergal e a camisa branca sempre engomadinha por mãinha Leôndia.Rapazinhos, carregavam caixas e mercadorias no Mercado Modelo e estudavam à noite no Central cada vez mais decaído.O governo, de olho grande nos visitantes estrangeiros, desapropriou os casarões e casinhas, expulsou os moradores para o subúrbio longínquo e rifou os imóveis entre seus amigos. A vendedora de acarajé, amiga de artistas famosos, ganhou um restaurante e virou estrela nacional; o sobrinho do deputado da situação que morava na Barra, ganhou o sobrado e montou um bar; o sapateiro, sem padrinhos importantes, foi afastado para um casebre na Federação.Lucivaldo e Clodimir, sem amigos influentes, preferiram voltar para Feira de Santana. Bându e Bêngue, já maiores de idade, ganhando seu próprio sustento, embora pouco, suficiente, viraram garçom e guia turístico no próprio Pelourinho.Iluminaram as ruas, pintaram as fachadas, fizeram propaganda na tevê e no exterior e os turistas apareceram em hordas. O policiamento eficaz inibiu os roubos e assaltos. Mais seguro cobrar caro no coco, no abará e na cerveja.Insatisfeitos com seus salários no lugar onde corriam euros a rodo, Bêngue e Bându partiram para o comércio seguro e protegido pela lei, o tráfico de drogas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="MyFreeCopyright.com Registered &amp;amp; Protected" href="http://www.myfreecopyright.com/registered_mcn/B8A64_7B8DD_D90C8"&gt;&lt;img title="MyFreeCopyright.com Registered &amp;amp; Protected" height="38" alt="MyFreeCopyright.com Registered &amp;amp; Protected" src="http://storage.myfreecopyright.com/mfc_protected.png" width="145" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/left&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-8637994898617376501?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/8637994898617376501/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/04/comercio-no-pelo.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8637994898617376501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8637994898617376501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/04/comercio-no-pelo.html' title='Comércio no Pelô'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-3043505625919386672</id><published>2009-02-18T19:39:00.002-03:00</published><updated>2009-02-26T16:59:16.252-03:00</updated><title type='text'>Ermitão</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Acordava à hora que lhe conviesse, tomava banho ou não dependendo de o tempo estar quente ou frio e sua disposição permitir que o fizesse; podia comer um desjejum ou almoçar uma feijoada, o apetite e a vontade determinavam o cardápio fosse a hora que fosse. Desde adolescente Demerval desejava viver assim e seu sonho pôde tornar-se real com a morte dos pais durante uma pescaria no Pantanal. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Refeito da surpresa e dar dor da perda, permitiu-se conviver com a saudade na solidão e na liberdade com que sempre sonhara. A fortuna herdada foi aplicada em vários fundos e ações que ele administrava pela internet. Por meio da rede, fazia compras e pagava contas, estudava, passeava, mas evitava se comunicar com quem fosse e não lia jornais, assistia a filmes ou ouvia músicas. Tentava comprovar sua teoria de que poderiam haver ermitões urbanos no século 21. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Não saber o que acontecia no mundo, não ouvir as melodias e suas letras que já condenava pela pobreza poética antes do isolamento, não se preocupar com as modas e suas mortes aceleradas em nome da modernização social e da fortuna de quem diz o que cada cidadão tem que vestir, ouvir e pensar era o princípio de seu afastamento e a dita liberdade. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Trancou-se no apartamento depois de fazer um isolamento acústico para evitar os ruídos da metrópole. Na porta da frente, uma portinhola por onde seriam passadas as compras que faria à distância, além das contas de consumo de água, luz, gás, internet e condomínio, todas pagas em débito automático. Havia se livrado de qualquer contato direto com qualquer ser humano. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Não havia relógios, mesmo no computador. Nunca sabia se era dia ou noite, isso o permitia dormir, acordar e comer quando bem entendesse, sem os compromissos cronológicos incutidos em seu relógio biológico desde a mais primeira idade, quando lhe diziam a hora em que deveria mamar ou dormir. Ele ditava suas regras e a única era não ter regras. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Bem tentou desprender-se de outros hábitos oriundos da educação tradicional que tivera e que questionara na juventude. Barbear-se, aparar as unhas, cortar cabelos, tomar banho, lavar louça... O homem não precisava dessas coisas em seus primórdios, não eram, portanto, funções naturais, mas invencionices em nome do progresso, do bem estar e outras baboseiras que negava. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Por algum tempo – ainda tinha incutida nos instintos a noção de tempo -, algo em torno de dois meses, manteve-se sujo, barba crescendo e o apartamento transformando-se num chiqueiro humano. Entendeu na prática as necessidades da higiene. Não estava se suportando ou ao local, percebeu que adoeceria ou os entulhos tomariam o espaço que deveria ser seu. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Faxinou-se e ao apartamento, dezenas de sacos e caixas despejados no corredor pela portinhola e muitos produtos de higiene pessoal e ambiental no sentido inverso, trazidos pelos entregadores do supermercado. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Gripou. Remédios deixados na portinhola pelo entregador da farmácia.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Recebeu pela portinhola cartões de Natal e aniversário e o comunicado da morte da tia Enalva. Respondeu a todos com flores on-line. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Dedicava-se a estudar filosofia. Escarafunchava sites e comprava livros. Aos poucos foi criando coragem de escrever os próprios textos aplaudindo ou desancando pensadores antigos e modernos. Veio a necessidade de mostrá-los e criou seu blog, sem sistema de comentários. Lia, escrevia e blogava. Tornara-se um produtor em grande escala de textos sobre a natureza humana como a vira antes e da qual se esquecia aos poucos. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Escrever sobre algo que não mais conhecia tornava-se um incômodo gradativo. Ele próprio não era mais referência de ser humano, tornara-se exemplar descartado. Seu nome, Demerval, já não fazia sentido. Se o nome é o primeiro diferencial de um ser humano dos outros seres humanos, de quem ele se diferenciava se era único? O que poderia falar de desejos, frustrações, perdas, amores, ódios se, sabe-se lá há quantos anos, não sentia nada disso? Seria válido escrever sobre o luto ou a alegria do parto se era apenas um teórico afastado de seu objeto? &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Doloroso reconhecer que estava enganado desde os quatorze anos, embora pudesse ser reconhecida sua grandeza de espírito justamente por admitir o erro. Esteve tangenciando a depressão. Nenhum alento lhe traziam Sartre, Platão, Kant, Demócrito.&lt;sup&gt; &lt;/sup&gt;Prazer algum lhe traziam Berkeley, Rousseau, Spinoza, Hegel e Schelling. Não conseguia criar, especular sobre a alma ou sua ausência, se achava o mais desautorizado homem a falar dos homens. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;As janelas antirruídos e as paredes acolchoadas não evitavam a entrada dos trovões repetidos e fortes. As paredes e os móveis tremiam seguindo o ribombar que soava após outro e outro e mais um. Demerval lembrava-se vagamente do cheiro da chuva, seu tato tinha vaga memória da lama sob os pés, os olhos guardavam algo do brilho das gotas iguais e diferentes das que viam no chuveiro. Algo lhe recordava serem aqueles ruídos os sinais de temporal. Por dentro ele era tempestade. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Veio a vontade de rever as águas caírem e o medo de rever o mundo. Olhava os cabelos brancos no espelho que a mãe um dia fixara na parede oposta à Última Ceia e se perguntava como envelhecera sem perceber. Suas certezas foram pelo ralo com o último banho, não havia mais razão para esconder-se do mundo do qual, agora não tinha como negar, jamais estivera ausente. Engolia o orgulho que já não tinha razão de ser e só agora percebia ter sido o autor da sandice de jogar a vida fora em troca de filosofia barata produzida mais por teimosia do que por curiosidade científica ou comprovação indubitável de suas teses. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Assumiria diante do mundo que o desconhecia a derrota que se lhe dera. Vestiu-se com o esmero que suas roupas descoloridas permitiam, empertigou-se com o resto de amor próprio, abriu a porta do apartamento. Encontrou o corredor escuro. Nenhum ruído além dos trovões e pingos nas vidraças. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Apertou o botão do elevador, mas esse não acendeu. Estava morto. Talvez a tempestade tenha provocado um black-out. Desceria os doze andares pela escada. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;A cada andar, o silêncio se repetia. Aquelas crianças que costumavam correr pelos corredores hoje seriam adultos e adultos não gritam por brincadeiras sérias, só por bobagens de adultos. Não perdera o vício de analisar os homens, mesmo sabendo-se errado em suas conclusões. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Descia imaginando quem encontraria dos velhos conhecidos, como a cidade havia crescido, embora já fosse gigantesca, como seria recebido pelo mundo que crescera sem ele. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;A cada andar, mais escuro. Mais silêncio. Menos trovões. Quase nenhum ruído de chuva. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;No térreo respirou fundo, abriu a porta que dava para o saguão do edifício e entrou tentando esconder o medo. Ninguém. Nenhum ruído humano, nenhuma luz. Apenas escuro e frio. Dirigiu-se à rua. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Na escuridão que se espalhava junto com a água e os relâmpagos, pôde ver o perfil dos edifícios onde antes haviam casas. Os postes apagados, nenhum carro, nenhuma alma viva ou mesmo fantasma. Estava só no deserto escondido pelo cobertor negro. Tentava rememorar os caminhos do bairro. Se não se enganava, na segunda esquina à direita veria a praça. A praça estava ali, mas não as árvores. Nos flashs da tempestade via troncos nus. Se a memória estava certa, do outro lado da praça estava o hospital público sempre com filas enormes, gente chorando, gemendo, reclamando, sofrendo, mas gente. O hospital estava lá, mas sem macas ocupadas, atendentes, pacientes, choros, gemidos ou gritos. Silêncio e frio. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;No meio da praça o relógio marcava 6. Se fosse dia, estaria escurecendo, se fosse noite estaria clareando, mas era tudo escuro e o relógio funcionava. Estaria certo? &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Onde mais ir? Ao metrô! &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;A escada rolante não rolava e o elevador não elevava nem baixava. Desceu as escadas tateando e onde sempre havia luz, nada havia, nem mesmo a luz. Silêncio e um ou outro pedaço de luz de relâmpago de vez em quando. Silêncio absoluto daqueles de doer os ouvidos e enlouquecer quem o ouve. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Andou por toda a noite que não acabava. Em uma lanchonete escancarada encontrou água e saquinhos de salgados. Na farmácia deserta, remédio para aliviar a cabeça que doía confusa. Na sapataria, tênis mais confortáveis e secos. Andou no frio breu até encontrar um hotel com camas limpas e postas, sem usuários. Descansou por horas, acordou ainda escuro e chuvoso, andou mais e mais. O tempo passava e o sol não vinha. Comia o que encontrava pelos bares, bebia, descansava e caminhava. Gritava pelas ruas, quebrava vitrines na esperança de ver policiais, só o eco respondia, quando havia eco. &lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Tornara-se o ermitão que sonhara poder ser sem ter com quem discutir suas teorias.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;©Marcos Pontes&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;/div&gt;  &lt;left&gt;&lt;a href="http://www.myfreecopyright.com/registered_mcn/B8A64_7B8DD_D90C8" title="MyFreeCopyright.com Registered &amp; Protected"&gt;&lt;img border="0" alt="MyFreeCopyright.com Registered &amp; Protected" width="145px" src="http://storage.myfreecopyright.com/mfc_protected.png" height="38px" title="MyFreeCopyright.com Registered &amp; Protected" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/left&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-3043505625919386672?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/3043505625919386672/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/02/ermitao_18.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/3043505625919386672'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/3043505625919386672'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/02/ermitao_18.html' title='Ermitão'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-5169052655361335870</id><published>2009-01-19T19:46:00.002-03:00</published><updated>2009-02-26T17:37:12.082-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='http://www.myfreecopyright.com/registered_mcn/B8A64_7B8DD_D90C8'/><title type='text'>Passado é Coisa do Passado</title><content type='html'>- Amor, olha essa foto.   &lt;br /&gt;- Onde foi isso?   &lt;br /&gt;- Não lembra?   &lt;br /&gt;- Não.   &lt;br /&gt;- Amor! Foi naquela excursão à serra gaúcha!   &lt;br /&gt;- Ah... Quando foi isso?   &lt;br /&gt;- Não acredito! Tá tirando com minha cara?   &lt;br /&gt;- Que é isso, meu bem? Eu não lembro, só isso.   &lt;br /&gt;- Nosso primeiro ano de casamento, Astrogildo. Como pode esquecer isso?   &lt;br /&gt;- Se estamos no sétimo, é lógico que tivemos o primeiro, mas também tivemos mais seis. E foram muito bons, não foram?   &lt;br /&gt;- Vai me dizer que não se lembra disso também...   &lt;br /&gt;- Ora, amor...   &lt;br /&gt;- Lembra onde comemoramos o segundo?   &lt;br /&gt;- Fortaleza?   &lt;br /&gt;- Fortaleza? Esse foi o quarto!   &lt;br /&gt;- Chapada Diamantina.   &lt;br /&gt;- Nunca fomos à Chapada Diamantina! Tá louco?   &lt;br /&gt;- Ih! Então, não lembro.   &lt;br /&gt;- Manaus, Astrogildo! Manaus!   &lt;br /&gt;- Ah, foi...   &lt;br /&gt;- Vai dizer que não lembra...   &lt;br /&gt;- Lembro de um calor de sauna e muita água.   &lt;br /&gt;- E fomos com quem?   &lt;br /&gt;- Com o Clodoaldo?   &lt;br /&gt;- Clodoaldo? Que mané Clodoaldo?   &lt;br /&gt;- Ah, é! Não te apresentei o Clodoaldo.   &lt;br /&gt;- Quem é Clodoaldo?   &lt;br /&gt;- Quem é Clodoaldo?   &lt;br /&gt;- Sei lá! Você que falou nesse tal Clodoaldo.   &lt;br /&gt;- Quem é Clodoaldo?   &lt;br /&gt;- Você tá bêbado, Astrogildo? Quem é Clodoaldo?   &lt;br /&gt;- Sabedeus. Não conheço nenhum Clodoaldo, Suméria.   &lt;br /&gt;- E como é que você perguntou se fomos a Manaus com o Clodoaldo?   &lt;br /&gt;- Chutei, ué.   &lt;br /&gt;- Eu tô casada há sete anos com um maluco e não sabia.   &lt;br /&gt;- Com quem fomos a Manaus em nosso terceiro aniversário?   &lt;br /&gt;- Segundo!   &lt;br /&gt;- Segundo? Quem é segundo?   &lt;br /&gt;- Segundo aniversário, desgraçado!   &lt;br /&gt;- O que tem o segundo aniversário?   &lt;br /&gt;- Nós fomos a Manaus com o Clécio e a Vilda em nosso segundo aniversário de casamento, seu beócio.   &lt;br /&gt;- Ah, foi!   &lt;br /&gt;- “Ah, foi!”, “ah!, foi”... Você não lembra, confessa.   &lt;br /&gt;- Não lembro mesmo.   &lt;br /&gt;- Como é que você não lembra coisas tão importantes que nos aconteceram, seu maldito?   &lt;br /&gt;- Porque eu penso nos muitos anos que ainda vamos viver felizes. Porque vejo nosso amor em perspectiva e não em retrospectiva.   &lt;div class="&amp;lt;a href=" title="MyFreeCopyright.com Registered &amp;amp; Protected" registered_mcn="registered_mcn" www.myfreecopyright.com="www.myfreecopyright.com" http:="http:" b8a64_7b8dd_d90c8?="B8A64_7B8DD_D90C8?"&gt;&lt;img title="MyFreeCopyright.com Registered &amp;amp; Protected" border="0" alt="MyFreeCopyright.com Registered &amp;amp; Protected" src="http://storage.myfreecopyright.com/mfc_protected.png" width="145" height="38" /&gt;&lt;/a&gt;&amp;#160; &lt;p&gt;&lt;/p&gt; &lt;/div&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-5169052655361335870?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/5169052655361335870/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/passado-coisa-do-passado.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/5169052655361335870'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/5169052655361335870'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/passado-coisa-do-passado.html' title='Passado é Coisa do Passado'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-4610683396532556922</id><published>2009-01-19T19:46:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:46:43.595-03:00</updated><title type='text'>Como Era Bom</title><content type='html'>Como era bom o tempo em que tudo rescindia a jasmim, em que , para tudo, o amor bastava, que o leve toque das mãos afagava a alma e consolava o espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia problema que a troca de olhares cúmplices não resolvesse. Nós tínhamos um ao outro e planos para ambos, para os chicos que se chamariam Cleoneide e Cleovaldo, para nossa casinha na COHAB, para nosso casamento na Igreja Petangular do Saquinho de Trinta Moedas de Judas, para nossa lua-de-mel em Cabrobó... Tínhamos todos os sonhos passeando sobre nossas cabeças, sonhos tão fortes que eram quase palpáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eram lindos aqueles tempos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você e eu passeando à tardinha na praça da matriz, mãos dadas, sorrisos abertos, causando inveja aos outros casais, tão felizes nós éramos. A gente acordando cedinho no sábado para encontrarmos as frutas e verduras fresquinhas na feira. O caldo de cana com pastel de queijo com gostinho de bom dia e, depois, o dia inteiro juntinhos, fazendo tudo a dois, sonhando e vivendo em comunhão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu bem disse que essa coisa de micareta é coisa do Cramunhão, mas você insistiu em ir e eu cedi. Não deveria ter cedido. Deveríamos ter ido para o retiro da igreja, mas você teimou tanto e eu não conseguia não fazer seus gostos, era meu maior prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio de tanta gente seus olhos tinham que encontrar os olhos verdes do Satanás daquela piranha da Doricélia, né, cachorro? Suas mãos descaradas tinham que roçar nas coxas da Doricélia, né, safado? A vagabunda da Doricélia tinha que ficar esfregando aquele bundão dela nas tuas coisas, né safado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois você fique com a Doricélia, filho de uma vaca de três tetas! Amanhã mesmo vou procurar um advogado e vou te deixar sem nada! Ou você acha que eu vou sustentar os dois moleques sozinha? E nem adianta me pedir arrego que eu não dou. Vá para a feira agora com a biscate da Doricélia, se quiser, seu garanhão de brega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fique sempre muito mal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fartileide.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-4610683396532556922?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/4610683396532556922/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/como-era-bom.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4610683396532556922'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4610683396532556922'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/como-era-bom.html' title='Como Era Bom'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-693728030698948106</id><published>2009-01-19T19:45:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:45:55.943-03:00</updated><title type='text'>Rapel</title><content type='html'>Atanagildo havia aceitado o convite de Siderlene, sua musa das noites mal dormidas, para fazer rapel. Domingo, cedinho, a garota o pegou em casa e partiram para o campo. No carro de Siderlene iam mais duas amigas e todas aquelas tralhas de cordas e mosquetões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos, enquanto despertava de vez, Atanagildo começa a tomar consciência da besteira que fizera. Para impressionar a garota, amante da vida ao ar livre e de esportes radicais, e sob o efeito de duas doses de uísque aceitara o convite sem ter-se questionado se seria capaz de realizar tal tarefa. Estava percebendo sua acrofobia adormecida acordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Garoto do interior, onde os prédios mais altos não passavam de sobrados de dois andares, Atanagildo lembrava agora do dia em que fora visitar o primo, morador do décimo primeiro andar de um prédio na Barra, em Salvador. Impressionado com a vista que se tinha do mar, saiu para a varanda. Lembrava agora como se agora estivesse vivendo aquilo, do frio que sentiu percorrer o espinhaço, da vertigem, da sudorese quando olhou para baixo e viu a avenida com seus carrinhos de brinquedo, de como teve que segurar-se com força no parapeito da varanda para não desmaiar, de como gritava histérico e de como o primo teve que conduzi-lo de volta para dentro do apartamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta à realidade, perguntava-se por que fora tão covarde a ponto de não admitir seu medo de altura. Ela entenderia, saberia que não é uma coisa consciente, mas, não, o bobão tinha que topar o convite e se via dentro de um carro, com três lindas e aventureiras garotas, tendo a certeza que estaria sendo motivo de piedade e chacota dentro de uma hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meia hora de subida por uma estrada de terra sinuosa, por entre árvores e pastos, chegaram ao platô onde já havia uma pequena multidão os esperando. Naquele ambiente em que se era possível sentir não só o cheiro, mas uma névoa de adrenalina, a adrenalina de Atanagildo empestava o ambiente e sua cueca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um bonitão com cara de super-herói de quadrinhos convocou os novatos para as instruções sobre o uso do equipamento e as medidas de segurança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atanagildo ficou um pouquinho aliviado ao perceber que, além dele, haviam mais doze novatos. Entre tantos poderia se esconder melhor e, talvez, passar desapercebido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo ia bem enquanto as instruções não passavam de nós, cordas, grampos, posição, como segurar a corda, o que evitar fazer e coisas tais. O instrutor instruía e Atanagildo fazia caras e bocas, demonstrando que entendia tudinho, que não teria dificuldade em praticar. Uma segurança de faz de conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos começaram as descidas numa seqüência acordada entre os veteranos. Descia um antigo, depois um novato e assim se sucederiam. Um veterano, um novato, um veterano, um novato... Cavalheirescamente, Atanagildo ofereceu-se para ser o último. Para os outros foi uma atitude simpática, para ele foi um tempo a mais para pensar o que fazer para não descer. Chegar à beira do precipício estava totalmente fora de cogitação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Siderlene foi a quarta veterana. Vendo-se sem os olhares de simpatia e admiração da amiga, sem ter pensado em nenhuma saída honrosa, Atanagildo embrenhou-se na mata e levou três dias de caminhada para cobrir os sessenta quilômetros, evitando estradas e humanos, até sua casa, de onde não sai há um mês.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-693728030698948106?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/693728030698948106/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/rapel.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/693728030698948106'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/693728030698948106'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/rapel.html' title='Rapel'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-9052679573727207081</id><published>2009-01-19T19:39:00.002-03:00</published><updated>2009-02-26T17:08:21.883-03:00</updated><title type='text'>Quase Pai</title><content type='html'>O bebê nasceria a qualquer momento. Adanálio alertou os colegas de trabalho e os chefes que, assim que a esposa telefonasse dando o alarme, deixaria tudo como estivesse e partiria correndo, não perderia por nada o parto de seu primeiro filho.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Precavido, durante toda a semana voltava para casa pelas ruas que denominava rota de fuga, ruas laterais onde o trânsito era bem menor que o das grandes vias. O trajeto ficava um pouco mais longo, mas poderia ser percorrido em vinte minutos, enquanto que pelas vias principais poderia levar quarenta minutos ou mais. Familiarizava-se com cada buraco, esquina, semáforo.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;O expediente matutino estava no meio quando o celular tocou.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;- Amor, vai ser agora.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;A mensagem curta sequer foi ouvida até o final. Pulou da cadeira gritando &amp;quot;tá na hora!&amp;quot;. Estabanado saiu correndo do escritório em direção aos elevadores antes dos colegas recuperarem-se do susto com o grito que quebrara a calma habitual.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;- O elevador! Segura o elevador!, bradava durante a corrida. Para sua sorte a porta abria-se no justo momento. Entrou, a porta fechou-se. Estava subindo. Droga!  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Apertou o botão 6 do andar imediatamente superior. A porta abriu-se mais lenta que sempre. Saltou. As escadas. Desceu como um atleta de cem metros rasos. Passou a toda pelo saguão, pela portaria, pela porta rumo ao estacionamento.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;O carro na vaga 1. As chaves! Esquecera-as no bolso do paletó pendurado na cadeira. Cérebro rápido como um ladrão, pega o celular e liga para o escritório. Os dois toques antes do atendimento pareciam um ano.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;- Sanderléia, rápido, esqueci a chave no bolso do paletó. Rápido! Joga pela janela.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Sanderléia prestativa, mas com um raciocínio lento, esbaforida abre a janela, vê Adanálio na calçada fazendo gestos como um operador de taxiagem, não entende o que sinalizava o quase pai, atira o paletó com a chave no bolso.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Aberta ao vento, a roupa faz acrobacias e cai sobre a marquise, lenta como um pára-quedas. Xingava enquanto corria para a portaria, &amp;quot;mulher burra!&amp;quot;.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;O porteiro não entendia nada pela segunda vez em poucos minutos ao vê-lo passar como um raio. Nada de elevadores. Escadas subidas de dois em dois degraus. Corredor. Abre a porta da sala de espera do escritório do advogado num supetão. A secretária solta um grito, atira os papéis que segurava para o alto, tropeça no bebedouro derrubando o garrafão quase cheio que se arrebenta no chão. Cachoeira mineral que alaga o carpete e os documentos.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Em sua carreira irrompe no escritório. O advogado, em choque, vê sua peruca voar enquanto despenca da cadeira aos gritinhos. A cliente idosa reage apenas com o esbugalhar dos olhos e a cara de pânico. A janela travada por causa do ar condicionado. Pega a cadeira vazia do advogado, agora encolhido no canto da sala em posição fetal, e a arremessa contra o vidro, lançando cacos em todas as direções e o barulho de um trovão seguido da sirene do alarme.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Salta para a marquise, pega o paletó. Tem vontade de se jogar dali direto para a rua, mas, sensato, percebe que altura não recomenda. Salta de volta para o escritório. Na porta já coalhavam curiosos. A secretária histérica grita &amp;quot;pega! Pega!&amp;quot;. O contador tenta segurá-lo, a dentista, o office-boy, a pequena multidão. Com os braços agitados como um nadador frenético, tentava se desvencilhar enquanto berrava &amp;quot;sai! Meu filho vai nascer!&amp;quot;. O cotovelo acertou um nariz, o dedo entrou num olho, a palma da mão acertou uma orelha, viu uma dentadura voando.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Sob impropérios e palavrões a escada que desceu voando. Portaria. Uma peitada no moto-boy jogando cada um para um lado aos tropeções, reequilibra-se como Pelé e vê um capacete no ar seguido por dois envelopes. Calçada. Estacionamento.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;- Moto-boy filho de uma égua!  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Xingava não pela trombada, mas pela moto estacionada fechando seu carro. Tentou arrastá-la. Não conseguiu, as rodas travadas. Atirou a moto no chão e, com uma força que não sabia ter, afastou-a para longe do caminho dos pneus. Abriu a porta, atirou o paletó no banco do carona e partiu a mil. Ainda pôde ver a turba saindo pela portaria à sua caça.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Viraria à direita no primeiro semáforo. Fechado! Um ano para abrir e os carros da frente impedindo que cometesse uma infração. Abriu. Vira. Acelera.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Como previra, o trânsito era tranqüilo naquelas ruas. Poderia aumentar a velocidade, na maioria vias preferenciais. E se houvessem crianças brincando na rua? Um cachorro? Um velhinho atravessando? Corria apertando a buzina com força desejando que fosse uma sirene.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Voava pelo asfalto liso. Ao passar por uma esquina, teve a impressão de ter visto um policial numa moto na transversal à direita. Estava certo, era um policial que se apresentava à sua retaguarda, sirene e luzes ligadas.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;A cidade estava muito violenta, a polícia muito tensa. Melhor parar para não correr o risco de receber um tiro de um policial afoito que já se comunicava pelo rádio, provavelmente pedindo reforço, via pelo retrovisor. Seta para a direita, reduz a velocidade e encosta no meio-fio. O policial pára alguns metros atrás, saca a arma, agacha-se atrás da moto.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;- Rápido, seu guarda, rápido. Multa logo e me libera, falava entre dentes.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;- Abra a porta devagar e saia do carro, gritava o policial.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Pombas! Tem que ser devagar?. Obedeceu, mãos para o alto.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Ele não queria sair devagar, desejava apressar as coisas, mas não faria nada impensado que pudesse fazer seu filho nascer órfão de pai.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;O policial com a pose de autoridade que é peculiar à função, talvez esperando uma oferta de propina que não viria jamais do correto Adanálio, ou apenas exercitando o poder, dava sermão e multa. Inquieto o quase novo pai ousou interromper e explicar que a esposa o aguardava para que a levasse à maternidade, daí tanta pressa.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;- Por que o senhor não disse antes? A minha também está grávida e eu imagino seu desespero. Não se desespere, cidadão! Siga-me que lhe farei a escolta, falava de peito inchado o policial do alto do seu coturno e importância.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Agora eram dois sem freio pelas ruas do bairro: o policial, sua moto e sua sirene, e Adanálio com seu desespero e a camisa empapada de suor.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Oitenta, cem quilômetros por hora pelas ruas estreitas. Os poucos carros que vinham à frente encostavam ao som e luzes da polícia. Agora as coisas estavam quase perfeitas.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Malditos vândalos! Roubaram a tampa do bueiro!  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;O policial viu a tempo de reduzir a velocidade, mas não de evitar a queda. Saiu catando cavaco pelo asfalto, moto estraçalhada quicando sem rumo, a freada brusca de Adanálio que mal espera o carro parar e já salta correndo em direção ao policial deitado que mantinha a pose de herói:  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;- Vá, cidadão, sua esposa precisa mais do senhor do que eu nesse momento.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Com o celular na mão e ligando para o serviço de ambulância, Adanálio sabia que não poderia abandonar o soldado sozinho sobre o asfalto fervente e sob o sol escaldante.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Já juntava gente. Turba, burburinho, os moleques depenando a moto, as velhas e seus &amp;quot;coitadinho&amp;quot;, os inventores de histórias e suas várias versões, o calor infernal e nada de ambulância.Juntos chegam o socorro e a rádio patrulha. Pressa no socorro, vagar nas explicações. O próprio guarda ferido fala a um colega o ocorrido, ajudando a liberar Adanálio.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Dificuldade em se livrar da multidão. Atenção no caminho, velocidade controlada e nervos quase. Nada mais poderia dar errado. E não deu. Caminho livre e sereno até o edifício onde morava no oitavo andar.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&amp;quot;Olá&amp;quot; para o porteiro, corrida até o elevador, aperta o botão e a luz não acende.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;- Tá sem energia, doutor, faltou agorinha.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Escada. Por sorte não parara com o futebol domingueiro, o preparo físico seria essencial. Subida, dois em dois degraus, oito andares. Rezava enquanto subia.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Na porta do apartamento o bilhete curto e duro: &amp;quot;Fui de táxi, seu irresponsável!&amp;quot;.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Exausto, sentou-se no chão, recostou-se na porta, respirou fundo e tomou uma decisão definitiva e irrevogável:  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;- Vasectomia.  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;/div&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&amp;#160;&lt;/div&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&amp;#160;&lt;/div&gt;  &lt;div style="padding-bottom: 0px; margin: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; float: none; padding-top: 0px" id="scid:0767317B-992E-4b12-91E0-4F059A8CECA8:a9861f7b-5a1e-40a3-ae38-2bb3015dd7b6" class="wlWriterEditableSmartContent"&gt;Copyright Marcas: &lt;a href="http://www.example.com/%3ca+href%3d%22http%3a%2f%2fwww.myfreecopyright.com%2fregistered_mcn%2fB8A64_7B8DD_D90C8%22+title%3d%22MyFreeCopyright.com+Registered+%26+Protected%22%3e%3cimg+border%3d%220%22+alt%3d%22MyFreeCopyright.com+Registered+%26+Protected%22+width%3d%22145px%22+src%3d%22http%3a%2f%2fstorage.myfreecopyright.com%2fmfc_protected.png%22+height%3d%2238px%22+title%3d%22MyFreeCopyright.com+Registered+%26+Protected%22%2f%3e%3c%2fa%3e" rel="tag"&gt;&amp;lt;a href=&amp;quot;http://www.myfreecopyright.com/registered_mcn/B8A64_7B8DD_D90C8&amp;quot; title=&amp;quot;MyFreeCopyright.com Registered &amp;amp; Protected&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;img border=&amp;quot;0&amp;quot; alt=&amp;quot;MyFreeCopyright.com Registered &amp;amp; Protected&amp;quot; width=&amp;quot;145px&amp;quot; src=&amp;quot;http://storage.myfreecopyright.com/mfc_protected.png&amp;quot; height=&amp;quot;38px&amp;quot; title=&amp;quot;MyFreeCopyright.com Registered &amp;amp; Protected&amp;quot;/&amp;gt;&amp;lt;/a&amp;gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-9052679573727207081?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/9052679573727207081/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/quase-pai.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/9052679573727207081'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/9052679573727207081'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/quase-pai.html' title='Quase Pai'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-8317315905784573852</id><published>2009-01-19T19:38:00.002-03:00</published><updated>2009-01-19T19:39:19.898-03:00</updated><title type='text'>Aleivosia</title><content type='html'>Era aleivosia mesmo, Teófes, tô te dizeno! Como eu num havéra de sabê a deferença entre aleivosia e gente de carne e osso? Lósco que era coisa do ôtro mundo, tô te falano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Purque eu sei, ora. Óia, falá cumigo inté que ela falô, mai eu num posso dizê o que foi, tu num ia gostá de sabê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num inséste, Teófes, num posso falá, não. Dosulivre!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que ôme teimoso! Se eu tô falano que era aleivosia, é purque era, disgrama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como que tu sabe que num inzéste?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, o pade disse... Logo o pade. Num é esse pade que fala que é pecado, vai prosinferno quem deseja a muié dos ôtro? E apois. É o mesmo pade que reza a missa todin-a oiando pus juêio de dona Zândi de Urbino da farmaça. Num é ele que diz que é pecado negoçá fora do casamento? Pois num é ele mesmo que coiseia com umas trêis carola lá na sacristia e todo mundo sabe? Pur que eu havéra de querditar nele quando diz que num inzéste visage? Apois eu lhe afirmo que inzéste e eu vi com esses zói que hai de vê Jesus Cristin-o no dia do juízo. Tu vai crê ni mim ô num pade mintiroso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oxe! Quando que eu mintí pa tu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, mai num tem valença. Nóis tava interessado na mesma muié e dizem que no amô e na guerra vale tudo, num dizem? E apois? Mai tu tomém mentia pa eu, ô tua acha que eu num sei que quem mandava aquelas frô pa ela era tu? O peó é que ela num ficô nem cum eu nem cum tu. Terminô fugino com o engomadin-o lá das Grota Grande. A gente perdemo junto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como? Só vai crê n’eu se eu dissé o que ela falô? Posso não, Teófes, num vai sê bom pa tu sabê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tá, foi ansim. Eu tava lá nos fundo do cercado. Era meia noite quando iscuitei os porco fazeno algazarra. Peguei a socadêra e fui lá pensano que pudia sê cobra, cachorro do mato, filiça ô outro bicho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodei o terrêro todo, cavuca de cá, cavuca de lá e nada. E os porco grunindo. A lua tava cheiona, amarela, alumiano tudo, facim de vê tudo derredó. Mai eu num via nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cansado de percurá, sentei na cerca, iscorei a ispingarda no morão, peguei uma paia e fiquei ali pitano, isperano aparecê o bicho que causava o rebuliço. Aos pôco a porcada foi carmano, carmano e vortô o silênço. Só os grilo, os sapo, os vaga-lume e os bacurau imbaxo do lua, e eu pitando aquela gostozura que Deus deu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabei o cigarro, vi que tava tudo na paiz do Sinhô e arresorvi vortá pra rede. Quando dici da cerca e me virei pa pegá a socadêra, ela tava impé do lado. Muito alta, branca mais branca que a luz da lua, cum vistido branco inté os pé que num tocava o chão, os zói azuzim, azuzim, oiando pa eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subiu um gelo pelo ispin-aço, sinti os cabelo ripiá, minhas perna bambeô, a boca secô. Num cunsiguia mais me mexê. Ela oiava pa eu com os zoião azul. Daí ela me preguntô um-a coisa que eu, gaguim que nem o Zelotéro, quaix sem voz, respundi. Daí ela falô ôtra coisa e sumiu no ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso dizê não, Teófes, num inséste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que caba mais teimoso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, é? Só querdita se eu dissé? Intonce vô dizê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela priguntô se eu era o Teófes Figueira dos Anjo. Eu dixe que num era. Aí ela dixe que eu adiscurpasse ela, que ela que ela quiria falar era cum o Teófes. Pronto, tu priguntô, eu falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Péra, Teófes! Vorta aqui! Num dianta se iscondê, não, Teófes, uma noite ela te acha! Vorta, Teófes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num te falei, Raonílio, que esse tar de Teófes é um cagão? Ganhei a aposta? Intonce paga a pinga.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-8317315905784573852?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/8317315905784573852/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/aleivosia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8317315905784573852'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8317315905784573852'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/aleivosia.html' title='Aleivosia'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-1410361503755047292</id><published>2009-01-19T19:38:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:38:49.283-03:00</updated><title type='text'>Ari Burro</title><content type='html'>Aristodemo não teve o amor de mãe, morta no parto. “E daí?”, respondia para fazer pouco caso de sua perda, “se mãe fosse bom Jesus não tinha deixado a dele”. Em troca recebeu a vingança do pai, Deleutério, que o culpou por toda a vida por sua viuvez. Nem de longe isso afetou o garoto ingênuo que via em tudo ensinamentos e fortaleza. Sequer percebia o ódio mal contido do pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fosse a Dozinha, sua tia mais nova, para dar-lhe leite, trocar-lhe os cueiros e todos os cuidados mínimos, porém capengas, já que Dozinha tinha pouco mais de dez anos de idade e cuidava do bebê como se de uma boneca, Aristodemo teria morrido à mingua ou sufocado em suas próprias sujeiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cresceu descalço e nu até que uma alma caridosa da vizinhança lhe presenteava com um calção velho que já não servia mais para os próprios filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando não estava carregando água para a limpeza da casa, para o banho de Deleutério, indo e voltando da venda de onde trazia alguma farinha, rapadura e cachaça, varrendo o terreiro, alimentando os porcos e galinhas, que por sorte andavam livres pelo quintal, diminuindo suas tarefas, o moleque pé-de-vento estava correndo de um lado para os outro pelas ruas do lugarejo. Metia-se nas conversas, hora enxotado, hora afagado, carregava sacolas na feira, sentava na calçada para ouvir o velho cego que tocava pífano na porta da igreja em troca de alguma moeda. Ajudava as lavadeiras com suas trouxas rumo ao rio, pegava na vassoura junto com o coroinha depois da missa para deixar o adro da matriz sem pó, ajudava as velhinhas a atravessarem as ruas evitando as bicicletas e carroças. Não parava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia perguntou ao pai por que recebera tal nome, ao que, sem medir sua maldade, Deleutério dissera que era o nome do burro que ganhara do avô. Sem entender a ofensa, deixou de lado até que o Calafeu, filho do dono da venda, perguntou-lhe a mesma coisa. Inocentemente contou a origem do seu batismo – batismo por assim dizer, nunca fora batizado. Virou motivo de gozação da molecada, sem dar-se conta da crueldade por trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Dorazilda, a professora, penalizada, tentou consolá-lo, mesmo ele nunca ter-se sentido ofendido, explicando que o burro era um animal forte, trabalhador, o melhor amigo do sertanejo. O efeito foi o contrário do esperado pela velha. A partir de então o próprio Aristodemo se apresentava como o menino-burro, orgulhoso, era forte, trabalhador e o melhor amigo das pessoas do lugar. Virou o Ari Burro e a chacota perdeu a força, virou nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ari Burro crescia com um sorriso nos lábios, pernas rápidas, raciocínio pronto e sabendo fazer de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia chegaram as freiras. Montaram uma escola. Saíam pela periferia daquela periferia catando as crianças mais pobres e as levavam para o semi-internato. Em troca da disciplina rígida, dos ensinamentos puxados de álgebra e gramática, acrescentavam-se os religiosos, de arte, canto e a inseparável palmatória. Davam roupas limpas, cadernos, lápis e três refeições por dia. A última parte interessou a Ari Burro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se fosse necessário aprender a ler, a somar e estudar a Bíblia naquelas intermináveis horas em troca de uma comidinha quentinha e feita por mulheres tão limpinhas, estava disposto ao sacrifício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi fácil domar o xucro Aristodemo. Foram palmatórias e mais palmatórias, vara de marmelo na bunda, puxões de orelha, ficar em pé por duas horas, imóvel, sob o sol quente, castigo de joelho no milho, mas aos poucos as irmãs o moldavam. Ele agüentava pela sopa, o pão, o café com leite, o arroz com galinha à cabidela nos dias festivos e os doces de batata que, volta e meia, aparecia em suas mesas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não se via mais Ari Burro correndo pelas ruas, ajudando a quem precisasse, carregando embrulhos ou trouxas de roupas. As beatas varriam o terreiro da igreja, as velhinhas atravessavam as ruas sozinhas. Nem Deleutério tinha mais chance de espinafrar o filho que, quando em casa, se refugiava no fundo do quintal sob a jaqueira com seus livros e cadernos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em sua primeira semana no colégio das freiras, lhe perguntaram o que gostaria de ser quando crescesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deus.&lt;br /&gt;- Ninguém pode ser Deus, Ele é Único!, assustou-se irmã Anunciata.&lt;br /&gt;- Mas eu quero ser Deus.&lt;br /&gt;- Não blasfeme, garoto, ou vai para o castigo.&lt;br /&gt;- Irmã, a senhora não perguntou o que eu queria ser? Eu quero ser Deus.&lt;br /&gt;- Você não quer ser padre?&lt;br /&gt;- Eu até queria, mas agora eu quero ser Deus.&lt;br /&gt;- E posso saber por que o senhor quer ser Deus?&lt;br /&gt;- Porque ele é rico.&lt;br /&gt;- Quem disse que Deus é rico?&lt;br /&gt;- Eu sei.&lt;br /&gt;- E como o senhor sabe?&lt;br /&gt;- Todo dia o padre não passa um saquinho na missa recolhendo dinheiro do povo e diz que é pra Deus? Se fosse pro padre eu queria ser padre, mas já que é pra Deus, eu quero ser Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surra de vara de marmelo! Castigo! Um dia sem comer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desistiu de ser Deus. Padre já estava bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já no seminário, um dia recostou-se na janela observando a vida na cidadezinha e viu um garotinho pretinho como ele, descalço, vestindo um calçãozinho rasgado e sujo, atravessando a praça correndo em direção à venda do seu Sodó. Pouco depois o garoto saía correndo de novo com um pacote de velas na mão, um sorriso na cara e a velocidade de um alazão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo despertou em Aristodemo. Empertigou-se, clareou o cenho antes carregado, como se iluminado por divina luz. O que estava fazendo consigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora, ora, ora. Não é que estou me tornando um burro mesmo? Eu não era Ari Burro à toa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrancou a batina, saiu do prédio e voltou à sua vida livre de antes com seu pífano, sua sandália, a pouca roupa e ajudando de verdade as pessoas a quem sempre teve tanto bem e não percebia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-1410361503755047292?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/1410361503755047292/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/ari-burro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/1410361503755047292'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/1410361503755047292'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/ari-burro.html' title='Ari Burro'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-5583134963548952573</id><published>2009-01-19T19:33:00.000-03:00</published><updated>2009-01-19T19:38:11.174-03:00</updated><title type='text'>Insônia e Vigília</title><content type='html'>Tornou-se um par ímpar, diferente em quase tudo. Suas vidas intercederam-se quando, num desses encontros inexplicáveis da vida, se bateram em frente a uma estante de poesias na livraria do bairro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele procurava Vinícius por paixão pela poesia do Poetinha, ela procurava em Vinícius uma companhia para as madrugadas insones.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bearrice não dormia havia anos. Não era uma doença, somente uma companheira constante. Simplesmente não dormia. Gastava as horas lendo ou escrevendo. Não sentia cansaço, fadiga e nem mau humor. Apenas não dormia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrava que seu último sono longo fora há dois anos quando abrasava uma paixão feliz e incontrolável por Zenildo. Foi um amor de meses que se acabou com a transferência do rapaz para Santarém. Com seu próprio negócio e uma vida cheia de compromissos, ela não pôde acompanhá-lo e as noites acordadas voltaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que percebeu que por toda a vida só dormira bem quando estava feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com Mateneu ocorria o oposto, dormia quando bem queria. Com vida solitária, sem amante ou grandes paixões, dormia para livrar-se dos dias vazios. Na leitura e nos sonhos vivia aventuras, romances correspondidos e completos. Seu dia se resumia às oito horas de trabalho e às obrigações chatas da vida de adulto. Cumpridos os compromissos, se atirava na cama com um livro e lia até o sono chegar. E sonhava com o que lera. Já fora D’Artagnan, Quixote, Eduardo Marciano, Macunaíma, Vadinho... Acordado era apenas mais um bedel da prefeitura. Os sonhos eram mais divertidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele último Vinícius na prateleira encarregou-se de provocar o encontro com que ambos fantasiavam encontrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cavalheirescamente, ele ofereceu à loira Bearrice a prioridade da compra. Ela, já com todos os demais livros do velho Vina na prateleira, insistiu para que ele levasse aquele. Enquanto discutiam quem ficaria com o livro, sentaram-se para um cafezinho, ali mesmo, na livraria. Aos poucos a conversa foi tomando outros rumos, suas próprias vidas, nomes, afazeres... Essas conversas próprias de quem acaba de se conhecer e que não deseja a separação breve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando receberam o aviso do funcionário que a livraria estava fechando, perceberam o quanto conversaram. Era hora da decisão. Ele ganhou. Bearrice ficaria com o livro e, depois de lê-lo, o emprestaria a Mateneu. Trocaram os números de telefones com o compromisso de um novo cafezinho logo, logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada um para seu lado e um gostinho bom durante a insônia dela e as viagens noturnas dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela madrugada ela atravessou folheando a lista telefônica, número por número, em busca do endereço do rapaz. Ele dormia com ela entre nuvens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas primeiras horas da manhã ele recebeu das mãos de um estafeta o livro em embrulho colorido e dedicatória singela. Para retribuir o carinho e o presente, sem saber qual dos dois fora mais tocante, retirou do bolso o papelzinho em que anotara o nome da loura e a convidou para um jantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma despedida difícil à noite. A comida foi detalhe que degustaram aos pouquinhos para que não houvesse fim, não o jantar, mas a companhia. Falaram de suas vidas sem omitir detalhes, um queria que o outro soubesse tudo a seu respeito e queria saber tudo do outro. Muito foi dito, tudo foi ouvido e as horas passavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alta madrugada foram novamente enxotados pelo último funcionário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vontade de não se separarem foi maior que a timidez e a pudicícia. Ela tomou a iniciativa e o convidou para irem à sua casa. Não houve titubeação, a resposta veio rápida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde aquela noite, na mesma cama, ela dorme como uma criança, sorriso nos lábios e ele atravessa as noites velando para que a felicidade não acabe.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-5583134963548952573?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/5583134963548952573/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/insnia-e-viglia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/5583134963548952573'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/5583134963548952573'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/insnia-e-viglia.html' title='Insônia e Vigília'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-4715977519794214574</id><published>2009-01-19T19:32:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:32:56.156-03:00</updated><title type='text'>Bozó</title><content type='html'>Cinco filhos e uma mulher, um barraco precisando de reformas antes que caíssem os caibros nas cabeças da família, Jairino se virava para colocar pão na mesa e os apetrechos da escola da meninada, duas coisas para as quais não relaxava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez da sala de estar um botequinho onde só cabia o balcão entre ele as prateleiras lotadas de garrafas de cachaça, umas puras, outras temperadas, e os clientes que se aboletavam nos quatro bancos de pernas altas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num bairro pobre de uma cidade pobre, o boteco é o parque de diversão dos adultos, barato e de onde todos saem com a sensação de que não existem problemas, rindo ou chorando à toa, amando ou odiando mais suas mulheres conformadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A féria era dividida em três partes. Uma para a alimentação, outra para as demais necessidades da molecada e a terceira, o capital de giro que aplicava aos pouquinhos na birosca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já conseguira comprar duas mesas que se espalhavam com banquinhos na calçada, por falta de espaço dentro, e já ensaiava a compra de uma geladeira. Se a cachaça dava um lucro considerável, a cerveja incrementaria os negócios. Abrira uma porta nos fundos que dava direto na cozinha e de onde vinha um tira-gosto de carne assada aumentada com muita farinha. Fazia volume e economizava dinheiro na enganação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volta e meia aparecia um espertinho com um baralho e montava-se um jogo para tirar os níqueis dos incautos bêbados ansiosos por um dinheirinho extra. Jairino observava as táticas e técnicas do espertalhão, como ele fazia para viciar o carteado, como alguns vinham com um parceiro que fingia ser desconhecido; não deixava de notar um “peru”, como chamavam os assistentes que davam pitaco no jogo de fora da mesa e o que menos falava usava óculos de lentes espelhadas e se punha atrás do adversário do dono do baralho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Normalmente esses jogos terminavam em bate boca e confusão, hora em que Jairino desmanchava a mesa e fechava o bar antes que uma peixeira saísse da cintura de um mais afoito. O dono do baralho, sempre saía com a algibeira cheia e sorriso na cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em outras oportunidades, surgia um dominó nas mãos de dois amigos que jogavam sozinhos e se divertiam, atraindo aos poucos a curiosidade dos demais. Não demorava, havia fila para jogar. Invariavelmente os dois primeiros jamais eram derrotados, causando inveja e desconfiança dos demais que montavam suas duplas, discutiam estratégias e, mesmo assim, perdiam seus trocados nas apostas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para não chamar atenção demasiada, os embusteiros se deixavam derrotar de vez em quando, tomavam um refresco e esperavam a oportunidade de voltarem à mesa para continuar a exploração dos adversários embriagados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jairino percebia os sinais, como sutis coçadas de nariz, pigarros, ajeitadas diferentes na aba do chapéu. Mas, como os barbeiros e médicos, guardava segredo, quem quisesse se deixar enganar, que arcasse com os prejuízos, a ele só cabia o lucro da venda das bebidas e tira-gostos de mais farinha e pouca carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela satisfação dos desonestos, o botequeiro passou a imaginar uma maneira de, ele também, se dar bem com tramóias inocentes. Ninguém chamava ninguém para jogar, a usura e a necessidade de dinheiro se encarregavam de levar os abestalhados a se arriscarem num jogo que não dominavam. Jairino passava horas por dia matutando o que poderia fazer de diferente para também montar sua banca de jogos. Nada de baralho, teria que contar com um cúmplice, ou dominó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na feira, onde ia aos sábados de manhã comprar carne barata e cachaça baldeada, viu um grupo de estivadores numa rodinha, gritando, sorrindo e apostando. Aproximou-se, curioso, sabendo, por instinto, que ali havia uma jogatina. Jogavam dados. Dados comuns, cada um apostando em um número. Ganhava toda a bolada quem acertava. Era um jogo rápido, portanto as apostas eram pequenas, coisas de centavos. Essa alta rotatividade lhe interessava. Talvez fosse o jogo que procurava. Não foi difícil encontrar uma biboca onde se vendessem dados e o bozó. Só faltava uma estratégia para nunca perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela tarde o boteco lotou. Faltou mesa e alguém providenciou caixotes de madeira que foram usados como mesas e tamboretes. No meio de alguma discussão sobre mulher, futebol ou política, alguém mais nervozinho dava um tapa na madeira, esquecendo-se que não era uma mesa das mais sólidas e os copos de cana se espalhavam. Estava ali o que Jairino procurava!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, sozinho, no meio da tarde, poucos clientes no bar, como quem não quer nada Jairino pegou os caixotes, montou sua banca e passou a jogar os dados. Com carvão desenhou doze quadrados e enumerou cada um, em ordem crescente, a partir do número 1. Punha uma pedrinha em determinado número, aleatoriamente, e despejava o bozó. Conferia os números sorteados com sua aposta, quase sempre errando. O filho, vendo aquilo, confirmou que o pai tinha apenas uma possibilidade, em doze, de acertar, menos de dez por cento. O que significava boa margem de lucro, se doze apostadores de espalhassem nas apostas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou a se aproximar o primeiro curioso. Jairino explicou que estava se divertindo sozinho, por falta de companheiro para jogar. Que não fosse por isso, os clientes apostariam. Levava a bolada quem acertasse o número.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Peraí! Assim, não! – Jairino ditou as regras – Se ninguém acertar, eu fico com tudo. Quem acertar leva o dobro do que apostou. Se ninguém acertar, eu fico com tudo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros fizeram as contas. Só valeria a pena se todos os quadradinhos estivessem cobertos por apostas. Juntaram-se doze homens rapidinho em volta dos caixotes. Todos fazendo suas apostas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre alguém ganhava e Jairino apenas jogava os dados, nenhum lucro. A turma bebia, ganhava e perdia, os vencedores gozando dos outros, os perdedores aguardando sua sorte. Jairino apenas jogava os dados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A assistência já bêbada, o botequeiro balança o copinho de couro, chama pelas apostas, e coloca o bozó sobre o caixote.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Casem o dinheiro! Casem o dinheiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos colocaram suas moedas nos devidos quadradinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá casado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o “sim” coletivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ninguém mexe nos dados. Vou mijar e já volto. Ainda tá em tempo de mudar, quem quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dito isso, saiu pelas portas dos fundos e ficou espiando pela fresta das madeiras da parede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Urozimbo, não se contendo, levantou o bozó e olhou os dados: 8. Com o dedo indicador em riste diante dos lábios, pedia silêncio aos comparsas. Retirou a moeda que havia depositado no 10, juntou mais algumas a ela e colocou todas no quadradinho do 8. Os demais, para não saírem perdendo num jogo que já sabiam perdido, fizeram o mesmo. Todas as moedas e as primeiras cédulas, todas sobre o número 8. Gente que nem estava apostando se juntou ao grupo. Mais e mais dinheiro, uma pilha considerável. Só se preocupavam com uma coisa: Onde Jairino iria arrumar dinheiro para pagar o dobro de todas aquelas apostas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dinheiro casado, silêncio de sociedade entre os parceiros, aguardaram ansiosos a volta de Jairino. Este entra fechando o zíper da calça como se tivesse acabado de sair do banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá casado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O “sim” coletivo veio mais alto e mais animado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ninguém quer mudar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um tapa no caixote, que fez os dados se revirarem sob o copo, Jairino gritou enquanto agia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou abrir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu 3.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-4715977519794214574?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/4715977519794214574/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/boz.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4715977519794214574'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4715977519794214574'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/boz.html' title='Bozó'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-5937376754449220659</id><published>2009-01-19T19:31:00.002-03:00</published><updated>2009-01-19T19:32:18.246-03:00</updated><title type='text'>Frizo</title><content type='html'>Como só quem tem anjo-da-guarda garantido são as crianças, os velhos e os bêbados, foi dado a Frizo um daqueles parrudos, pau pra toda obra. A cada dia o tal anjo tinha que fazer trabalho dobrado para salvar a pele do seu protegido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frizo – na verdade, Etelvino, no batismo – se metia em qualquer enrascada que por ventura aparecesse pela frente. Dizia que ele não as provocava, elas que o chamavam. Já passou a mão em mulher de samango, já parou touro bravo na mão depois de tomar uma garrafa de jurema, já espalhou pela cidade que o promotor tirara a mulher com quem se casara do brega São João do Sabugi, já passou cinco minutos embaixo d’água para ganhar a aposta de uma garrafa de pinga... De todas as suas aprontações se salvou sem arranhão ou olho roxo. Não dava folga para o pobre anjo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O apelido ganhara do dono da bodega, o Herbínio. O merceeiro, dono do primeiro freezer de Ipueiras, dizia que o amigo tinha a cabeça fria como um “frizo”, suficiente para o codinome se espalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como todo peso da vida tem seu contra-peso, Frizo tinha sua Geriana. Mulher de uma delicadeza e elegância únicas naquela caatinga. De manhã lavava roupas das famílias de mais posse, à tarde passava e entregava, à noite se encarregava das costuras. Não encontrava mais lugar na casa para esconder a féria de tanta labuta. Fosse onde fosse, o marido sempre encontrava e dava um desfalque para as farras. Diziam as boas e más línguas que Geriana tinha lugar garantido no céu por suportar homem tão folgado. O cabra sumia por dias, chegava bêbado, maltrapilho e cheirando a alfazema das quengas. Ela, nem um pio. Preparava o banho, dava de comer, arrumava a cama e exigia silêncio dos cinco filhos para que não perturbassem o sono de Frizo. Ele, um folgazão; ela, uma conformada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso personagem, porém, não era um mau sujeito. Fazia camaradagem fácil e terminava amigo dos desafetos, bastava uma dose de uca. Ajudava os vendilhões a arrumarem suas mercadorias, fazia frete nas costas por um níquel ou uma cachacinha ou um pedaço de jabá. Animava o ambiente em que se encontrava. Veio ao mundo para se divertir e divertir quem o cercasse. Era apenas um folgazão boa praça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele inverno choveu de matar lambari afogado. A cidade festejava a bonança que as águas de São José prometiam. Nunca se vendeu tanta aguardente, ao pé do alambique Frizo fazia ponto para ganhar suas doses por conta da comemoração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou bêbado como há muito não ficava. A festança acabou, os demais ébrios iam para suas casas ou para o bordel amparados por suas mulheres fixas ou ocasionais. Frizo ficou sozinho com o último garrafão e se aboletou no banco do coreto da pracinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi tanta água que o riacho seco virou rio, o açude chorou, casas de barro batido viraram lama. A festa acabou em choradeira. Nem a torre da igreja resistiu à enchente e veio a baixo. Criações sumiram, móveis desciam o boqueirão junto com porcos e bodes. Já se preparava uma novena pedindo arrego ao santo durante a madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mães punham os filhos sob os braços, como galinhas chocas, enquanto rezavam em voz tão alta que uma vizinha fazia coro a outra sem saírem de suas casas. As ladainhas se confundiam com o chuá das duas corredeiras, a que caía do céu e a que rolava pelas ruas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coreto onde Frizo roncava teve suas pernas arrastadas e o tablado de madeira virou jangada com sua cobertura milagrosamente intacta. No seu sono, Frizo sonhava que atravessava o Atlântico comandando um navio que ia para a Arábia. Sonho gostoso, daqueles que fazem a gente sentir a sensação das ondas. A chuva caía, a correnteza das ruas virava rio e seguiam o rumo natural dos rios, o mar. Navegando em seu sono e no quiosque-jangada, ainda abraçado ao garrafão, Frizo navegava para as Arábias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordou importunado pelo sol ardendo a cara. Sentou no banco esfregando os olhos. Ao abri-los deu de cara com uma multidão que o cercava. Gente de toda espécie, velhos desdentados, velhas beatas e fuxiqueiras, crianças espantadas com o espanto dos velhos, a polícia... Oxe! A polícia? O que aprontara dessa vez?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eta, jurema braba!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando aquele amontoados de caras desconhecidas, quebrou o burburinho com a voz ainda bêbada e um bafo de desmaiar onça:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- De onde veio esse povo todo? Vai ter festa em Ipueiras?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O samango:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ipueiras? Tu tá em Acaraú, cabra! E o seu Cadorges do hotel tá querendo comprar sua jangada de cobertura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ave Maria!, Frizo se espantava olhando o garrafão pela metade. Acho que vou tomar o resto pra ver se chego nas Arábia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-5937376754449220659?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/5937376754449220659/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/frizo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/5937376754449220659'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/5937376754449220659'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/frizo.html' title='Frizo'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-1704191864622443513</id><published>2009-01-19T19:31:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:31:50.805-03:00</updated><title type='text'>A Morte da Morte</title><content type='html'>Voltando pra casa, tranqüilinho, com seu livro de passar o tempo no colo, Ceraldo lia no banco do ônibus, hora e meia até chegar em casa. O gordo ao lado, fedendo a suor e cebola, o imprensava contra a janela. Só mesmo uma boa leitura para abstrair-se daquele ambiente lotado, calorento e inquieto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua absorção na leitura foi quebrada por um perfume adocicado, suave, coisa feminina. Virou a cabeça esperando dar de cara com o gordo de barba grossa e perfume e deu-se olhos nos olhos com uma morena daquelas de se fazer ceder o lugar. Desnecessário, ela já estava no lugar do gordo e o olhava com um sorriso nos olhos e lábios serenos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Importa-se?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O quê? An?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Importa-se que eu sente aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah! Não, claro que não. Se a visse em pé, cederia meu lugar. Uma mulher como você deve sofrer num ônibus lotado de malandros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma mulher como eu? Como, como eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a chance. O livro estaria aqui amanhã, essa oportunidade poderia se única.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bonita, cheirosa... Deliciosa, sem ofensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já pensou que essa casca é apenas uma fantasia para atrair homens como você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Homens como eu? E como eu sou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Inteligente, bonito, viril e heterossexual. Difícil encontrar tudo isso numa mesma pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dali por diante a conversa foi ficando mais íntima, mais amigável. Ela não respondia nada diretamente, apenas o nome, Teresa, que coincidia com o que ele lia momentos antes: Teresa, a Filósofa, de Fernando Savater. Era o mote para a conversa se aprofundar, assim como o interesse de Ceraldo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que você acha da gente descer no próximo ponto e tomar alguma coisa para nos conhecermos melhor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estava torcendo que fizesse o convite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dali para um barzinho simpático que já começava a acender as luzes para a noite que se anunciava, não custou nada. Ele pediu um chope, ela um suco de limão, sem açúcar ou gelo. Ele pediu iscas de camarão, ela filé mal passado, sangrando ainda. Ele queria saber dela, ela parecia já saber tudo dele. A conversa fluía fácil. Ele era solteiro e morava só, ela não falava de seu passado. Ele gostava de esportes, futebol no sábado à tarde, ela caminhava muito, daqui para ali, de lá para acolá. Ele trabalhava num banco, ela tinha negócio próprio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passavam-se os chopes e os petiscos, ela não demonstrava interesse maior do que na conversa e o animava a beber. Até a terceira tulipa ele estranhou, depois desta, se entregou. Deixa o barco correr.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou a um ponto em que já enrolava a língua, as palavras mais difíceis tropeçavam nos dentes antes de sair. Melhor marcar outro encontro, se a convencesse a uma noitada mais quente, passaria vergonha. Antes de pegar seu telefone, endereço ou apenas sugerir um cinema amanhã, Teresa pôs as mãos em seus ombros, fixou seus olhos nos seus, de modo que ele não pudesse desviar o olhar e a atenção. Não sorria, olhar sério, voz mais grave e baixa, mas de uma firmeza que aprisionava Ceraldo por inteiro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Preste atenção que só vou falar uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz retesou-se entre as mãos firmes de Teresa e da sisudez do timbre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sou A Morte e vim te buscar. Amanhã você não verá a luz do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estaria suficientemente bêbado para virar motivo de chacota? Que brincadeira de mau gosto ela estava propondo? Não conseguiu protestar. Antes que a voz trôpega se fizesse, ela continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Na verdade, sou apenas uma assistente, você é minha primeira encomenda, desculpe o mau jeito. Eu deveria ter virado aquele ônibus e imprensar sua cabeça entre dois bancos, mas fiquei com pena de machucar aquela senhora com as duas crianças que estavam lá no fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falando para si mesma, um momentinho de devaneio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acho que vou levar um esporro da chefa, hoje...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ceraldo ensaiou um protesto, trazendo A Morte de volta ao assunto que a trouxe ali:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bom, já que vou ficar de castigo mesmo e ainda não me habituei a essa função de ceifadora, vou lhe dar a chance de um último pedido, assim, que nem nos filmes de bang-bang de antigamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mãos dela já não eram gadanhos, mas mãos femininas em carinho. Já não lhe apertavam os ombros, afagavam as faces como a uma criança chorosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos lá pra casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era efeito da bebida, a irresponsabilidade do porre, o temor da morte, a incompreensão do que se passava? Pouco importava. Estava com um tesão incontido por aquela morena de olhos rasgados e tez de índia. Queria aqueles cabelos curtos emaranhados em seus dedos enquanto se esforçasse para não falhar entre suas pernas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É esse seu último desejo? Quer morrer em casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Apenas a primeira parte dele, o resto te conto na minha cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Morte não é má nem boa, apenas necessária, lição que Teresa aprendera nas instruções antes dessa missão. Já que dera ao condenado o último pedido, que cumprisse sua palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ceraldo abriu os olhos pesados do álcool da noite passada, via a luz entrar pela fresta da cortina. Era a luz do sol! Teresa devia ser uma louca ou drogada com aquele papo de último desejo, uma fantasia sexual que funcionara, como funcionara. Que noite ela havia lhe dado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou a moça desnuda sob a coberta abrir os olhos devagarzinho, um sorriso tatuado nos lábios bem desenhados e o “bom dia” preguiçoso açodando seus sentidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então, não vai mais me matar?, não conteve o tom de ironia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, acho que vou pedir à chefa pra me mandar de volta à vida. Não havia conhecido esse lado bom da última vez que passei por aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teresa levantou-se num pulo, correu para o banheiro enquanto gritava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou falar com a chefa e volto à noite para morrermos juntos mais uma vez.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-1704191864622443513?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/1704191864622443513/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/morte-da-morte.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/1704191864622443513'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/1704191864622443513'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/morte-da-morte.html' title='A Morte da Morte'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-339637845605001570</id><published>2009-01-19T19:30:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:30:53.853-03:00</updated><title type='text'>Encontro Estranho</title><content type='html'>Passava pouco das duas da madrugada quando Ambrósio estacionou o carro em frente à casa de Veraneide. Vinham de uma noitada com amigos comuns, onde se conheceram. De cara o rapaz se interessara pela beleza e espontaneidade de Veraneide, de quem não desgrudara por toda a noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não cedeu aos seus encantos e insistência, mas permitiu que a levasse para casa, uma bela casa em estilo colonial num condomínio fechado, com jardins amplos e bem cuidados, segurança permanente e armada. Naquele sossego, Ambrósio viu a oportunidade ideal e final de fazer suas investidas. Desligou o motor, já virando-se para o lado a fim de olhá-la nos olhos, seguro que a um olhar profundo e meloso, daqueles que refletem franqueza e paixão, dificilmente as meninas resistiam. Encontrou, porém, não um olhar romântico e interessado, mas cenhos franzidos virados para o enorme canteiro que separava as duas pistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que foi? Que houve?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo em que perguntava, virava a cabeça na direção do olhar da acompanhante. Em pé, de costas para eles, uns cinqüenta metros distante, um rapaz alto, vestindo uma bermuda azul e camiseta branca, andava de um lado para o outro sem desviar a vista da casa de dois andares e luzes apagadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem é o cara?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sei, mas me lembra o Angelim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem é Angelim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O ex-namorado da menina que morava ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ih! Já vi esse filme. O corninho tá achando que vai reconquistar a ex no meio da madrugada. Esses manés bebem umas e ficam românticos. – Sem perder a oportunidade, emenda – Têm que aprender a ser romântico o tempo todo, assim como eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele sabe que não vai...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele quem? Sabe que não vai o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Angelim sabe que não vai reconquistar a Belza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como é que cê sabe? Ela te falou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela não mora mais ali. Não mora mais em lugar nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Comequié? Papo estranho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vixe! Se ela morreu, o que ele tá fazendo ali? Matando a saudade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso é que é estranho. Ela se matou porque não queria casar. As famílias insistiam, o Angelim não largava do pé dela. A única saída que arrumou para fugir da pressão, foi cortar os pulsos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente Ambrósio sentiu que a noite cálida e estrelada tornara-se gélida, ou talvez fosse apenas o arrepio subindo pelo espinhaço até arrepiar a nuca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cruz, credo! Quem se mata vai pro Inferno. – Se benzia enquanto falava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite até podia não ter esfriado, mas o fogo em sua virilha sumira. Já virava-se para se despedir e marcar alguma coisa para amanhã, quando deu-se por Veraneide abrindo a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Peraí, não vai nem dizer tchau?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou lá falar com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Peraí, peraí. E se ele estiver drogado? Se estiver armado a fim de fazer uma loucura ele também? Vai, não. Fica aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não lhe dava ouvidos, já estava do lado de fora e batendo a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Droga! O que a gente não faz por uma mulher bonita? Se fosse embora agora, perderia qualquer chance de um encontro futuro. Desceu do carro, contornou-o rapidamente impedindo o caminho da garota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá legal, eu vou lá e digo a ele que você quer conversar. Assim eu protejo você caso ele tenha uma arma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Garoto esperto. Fazia um favor e ainda vestia a armadura de cavaleiro protetor. Ponto para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem responder com palavras, ela acenou positivamente com a cabeça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não podia dar pra trás. Sem muita firmeza, virou-se em direção a Angelim, a adrenalina misturando-se no sangue, fazendo o chão ficar mais macio sob os pés que se moviam contra a vontade do cérebro, devagar, hesitante. Deu uma olhadinha para trás na esperança de ela o chamasse de volta, o que não aconteceu. Onde fora se meter?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada passo, mais fria a noite ficava. Já imaginava urinando nas calças, tanto era seu temor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu uma paradinha, respirou fundo, encheu-se de coragem. Que porra poderia acontecer? O moleque era um palito e não um rato de academia como ele, não daria nem para o começo caso engrossasse. Era apenas um fracote chorando a morte da namorada. Otário! Com tanta mulher solta por aí...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouviu um rumor de pés às suas costas. Virou-se de um pulo, quase trombando com Veraneide. Irritado, quase sussurrando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pô! Não disse para esperar lá? Fica aqui!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ficou, mas não o olhava. Fixava a vista no rapazola que já não ia e vinha. Estava parado, de costas para eles apenas dez metros à frente, olhar grudado na janela apagada do primeiro andar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambrósio voltou a andar, agora encorajado. A presença de Veraneide o ajudara a quebrar a tensão em que se encontrava. Parou a um passo de Angelim e o chamou, “ei”. Nem um músculo se mexeu como resposta. Insistiu, “ô! Cara!”. Nada. Esticou o braço, apelaria para o toque, impossível ser ignorado. Mas seu dedo não encontrou nada. Angelim sumiu como a imagem de um televisor quando falta energia. Puf!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambrósio não gritou, o grito saiu vivo, por vontade própria, apenas um “ah!”, curto, seco. A mão recuou como se tivesse sofrido um choque elétrico. A cor de suas faces sumiu quase tão rápido quanto a imagem de Angelim. Apavorado, urinado, virou-se a jato pronto para correr para o carro e sumir dali para sempre, deu de cara com Belza nas roupas de Veraneide abraçada a Angelim, os dois olhando-o fixo, um sorriso malévolo nas pontas do lábios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrado pelos vigilantes do condomínio na manhã seguinte, catatônico, Ambrósio vive numa clínica psiquiátrica e é medicado após cada crise que tem ao ver alguém de calça jeans e camiseta branca.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-339637845605001570?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/339637845605001570/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/encontro-estranho.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/339637845605001570'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/339637845605001570'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/encontro-estranho.html' title='Encontro Estranho'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-4257350324950725876</id><published>2009-01-19T19:29:00.000-03:00</published><updated>2009-01-19T19:30:01.832-03:00</updated><title type='text'>Raquina régius</title><content type='html'>Era meio da manhã de domingo quando apareceu na ponta da rua principal de Nossa Senhora da Conceição o tílburi de capota vermelha, aro das rodas dourados, um luxo desconhecido na cidade e encoberto pelo pó da estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na boléia um homem muito alto, barbas brancas bem aparadas e pontudas sob o queixo, cabelos também brancos cobertos por impecável chapéu de copa alta. Pele também alva, embora avermelhada pelo sol seco do Planalto Central. Seus trajes, linho branco, destoavam do alaranjado da poeira. Ao lado do homem uma enorme gaiola de metal dourado como os aros, base circular, quase um metro de altura. Em seu interior três periquitos australianos, um azul, um verde e o terceiro, arroxeado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele conjunto ímpar chamava a atenção dos moradores modorrentos, da criançada serelepe e dos que saíam da missa sob o repique dos sinos. Em frente à igreja o cavalo preto parou sob o comando do homem. Este, tirando o chapéu, dirigiu a palavra a dona Hadilma, que varria os degraus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Simpática senhora, há uma estalagem nessa simpática cidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma o quê, moço?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma estalagem, pousada, hotel...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- An, sim, tem a pensão de dona Leócia. É só seguir reto e quebrar a segunda à dereita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a dupla conversava, a viatura foi cercada pela meninada curiosa com os bichinhos coloridos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Moço, arriscou um deles, quem pintou as curicas desse jeito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora, minha querida criança, esses nobres animais não são reles curicas e, sim, sagrados Raquinas regius indianos, pássaros raros e mágicos vindos do outro lado do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Raquina réjus? Nunca ouvi falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- São seres raríssimos, os últimos três existentes no universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dito aquilo e sabendo que a notícia espalhar-se-ia pelo lugarejo com a velocidade de notícia de morte, seguiu caminho rumo à pensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viúva Leócia, com seu jeito pouco educado e nada higiênico, impressionada com a presença de insólita figura, cuidou de arrumar-lhe o melhor quarto, justo o que dava janelas para a feira livre. Coisa melhor o visitante não poderia querer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por duas moedas, o moleque Anilson levou sua única mala para o quarto, enquanto o homem encarregava-se da gaiola. Demorou-se no aposento apenas tempo suficiente para vestir outro terno de linho branco, lustrar os sapatos e acertar a barba com afiada navalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a gaiola na mão foi à feira. Sentou-se em um banco sob a marquise da bodega, pediu um refresco de gabiroba e esperou o assédio que sabia que viria. A algazarra das aves chamava o público aos poucos. Tímidos, mas curiosos, os moradores se aproximavam, um esperando que outro perguntasse do que se tratavam aqueles belos animais. Zé Codó, o mais conversador e sem senso de respeito à privacidade alheia, logo se fez presente à turba que já era considerável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Moço, quer vender os ajurucurau?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, meu nobre cidadão. Primeiro, que não são ajurucuraus, mas Raquina regius sagrados. Esses nobres animais são de espécie em extinção, os últimos exemplares daqueles que já foram numerosos na longínqua Índia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não poderia esperar muito pelas perguntas. Iria direto à história tantas vezes repetidas e que era aumentada a cada parada, aumentando a admiração e cobiça dos que o ouviam. Se ninguém o interrogasse logo, teria que emendar a conversa, mas ali estava Zé Codó, maranhense conversador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- São sagrados por quê? Por que eles tão acabando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu caro amigo, lhe contarei sua história. Na antiga Índia, um pobre senhor, já quase morto de fome, encontrou uma colônia desses nobres pássaros. Vendo ali uma oportunidade de ganhar algum trocado na venda deles, conseguiu aprisionar um bom número. Com bambu, construiu uma gaiola onde coubessem todos. Como já anoitecia, deixou os bichinhos descansando e foi dormir, sonhando com a ração que teria no dia seguinte após a venda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos do público não despregavam do orador, alguns já puxavam caixotes para sentar, olhos não piscavam. Estavam entregues.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ao amanhecer, na boca da manhã, o pobre Raquina, esse era o nome do faminto indiano, espantou-se ao ver todos os pássaros parados em seus poleiros, todos virados na mesma direção. Esquisita situação, algo que jamais vira em seus muitos anos de vida. Virou o rosto na direção para que apontavam os bicos dos pássaros e viu a montanha onde diziam haver um tesouro de rubis, ouro e diamantes escondido por antigo marajá quando em fuga de seus inimigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tesouro! Essa palavra sempre mexia com o imaginário dos simples. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto contava sua história, ao largo passava uma carroça conduzida por um negro alto, mal vestido, homem que não chamava a atenção, ainda mais quando algo muito interessante prendia a todos. A carroça era completamente coberta por lona escura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sentindo um comichão na alma, o pobre Raquina resolveu seguir aquela direção. Por um momento esquecera do mercado onde venderia seus bichinhos multicores, estava intrigado com aquilo. Num farnel colocou as últimas frutas de que dispunha e seguiu rumo às montanhas. Tomou cuidado de andar em linha reta para não desviar-se da direção indicada pelos pássaros. Foi um dia inteiro de caminhada. Ao fim da tarde, quedou-se estafado e dormiu sob a copa de uma árvore.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O público agora já era incontável. Percebia entre os espectadores, pelos trajes, homens bem apessoados para o padrão local. Eram os ricos. A coisa estava cada vez melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ao acordar, novamente viu os pássaros todos de cabeça baixa, bicos voltados para a mesma direção. Não se fez demorar, passou a caminhas no rumo indicado, passos mais largos que a subida permitia. Andou por algumas poucas horas, gaiola na mão e nada no embornal quando percebeu novo rebuliço e gritaria na gaiola. Os pássaros gritavam, todos com seus bicos voltados para uma pedra que cobria a entrada da gruta. Não havia dúvida, era uma indicação. Escondeu a gaiola entre arbustos e colocou-se dentro da gruta por uma passagem estreita atrás da pedra. Exatamente o que estão pensando, queridos ouvintes, ali estava uma enorme arca cheia até a borda de rubis, esmeralda e linda peças de ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem da carroça coberta já sumia no fim da rua, o público deliciava-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- De volta à vila, Raquina construiu um castelo, comprou terras, plantou arroz e legumes e matou a fome de seu povo. Seus pássaros, porém, jamais apontaram a mesma direção ao amanhecer. Raquina imaginou que sua missão estava cumprida, não mais tinham algo a fazer por ele, por isso os vendeu, em trios, para aqueles que sonhavam com seus próprios tesouros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poeira deixada pela carroça do negro já se assentava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por quinhentos anos, muitas fortunas foram feitas ao redor do mundo, mas, aos poucos, os pássaros foram morrendo por maus tratos ou de velhice, hoje restam apenas esses três que comprei em Marabá e há um mês eles vêm apontando uma direção para mim. Pelo rebuliço que fizeram hoje cedo, imagino que esteja perto de minha riqueza e os deverei passar adiante logo e que seja breve porque não tenho mais recursos para alimentá-los ou a mim mesmo. Ficarei rico em poucos dias e esses nobres animais de Shiva deverão trocar de mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos boquiabertos, queriam mais e mais, porém, o visitante alegando cansaço, disse que deveria descansar para seguir o rumo da fortuna na manhã seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, enquanto tomava sua sopa rala na pensão de Leócia, recebeu a visita do fazendeiro mais rico do lugar, seu Aldamiro, descendente direto dos primeiros bandeirantes que passaram por ali. O homem queria pagar qualquer preço que o visitante pedisse pelos seus pequenos pássaros. Suas economias começavam a mostrar uma diminuição, as filhas já estavam na idade de irem estudar em Goiás, as fazendas precisavam de melhorias... Os graciosos e barulhentos Raquinas regius seriam sua salvação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem de linho branco regateou, colocou dificuldades, alegou ainda não poder vendê-los, ainda não achara seu tesouro, mas o homem insistia, até não ter mais o que dar para o visitante que não aceitava terras, mercadorias, apenas dinheiro, afinal essa era a tradição deixada pelo velho Raquina indiano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, cedeu. De manhã consultaria os pássaros e, dependendo da resposta, fariam negócio. Esfregando as mãos, ansioso pelo negócio a ser feito, Aldamiro saiu quase correndo, precisava juntar todo o dinheiro que tinha e vender algumas vacas naquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal saiu Aldamiro, o pensionista recebeu a visita do prefeito, capitão Alcobaz. As propostas pelo pássaro aumentavam até não mais poder e cobriam as de Aldamiro. Sai Alcobaz, chega Hernildo e o leilão continua. O converseiro baixinho, quase um sussurro, se repetiu até quase meia noite. Percebendo que ninguém cobriria a proposta de Godofredo, o homem de branco manda Anilson atrás do fazendeiro com urgência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou, lá estava o comprador com duas sacolas de couro transbordando de cédulas e moedas. Acordara o banqueiro e o fizera quase esvaziar o cofre do banco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feita a venda, o visitante lhe deu orientações de como alimentar as aves, como deveria evitar o excesso de sol e barulho, a que horas deveria fazer a consulta aos bichinhos e todos os demais cuidados a serem tomados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acompanhou Godofredo até a porta e ali ficou até vê-lo sumir na segunda esquina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa urgência de médico, mandou que Leócia lhe fechasse a conta, pagou, levou sua arca para o tílburi que atrelou ao cavalo branco com a maestria e rapidez de poucos e pôs-se quase a galope para fora da cidade, pelo norte já que todos imaginavam que ele seguia para o sul por conta de seu caminho de chegada. Não dormiria e nem descansaria até estar muito longe, onde seu parceiro o encontraria numa carroça toda coberta e carregada com várias gaiolas com trios de periquitos australianos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-4257350324950725876?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/4257350324950725876/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/raquina-rgius.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4257350324950725876'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4257350324950725876'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/raquina-rgius.html' title='Raquina régius'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-7265910997744714046</id><published>2009-01-19T19:28:00.002-03:00</published><updated>2009-01-19T19:29:11.248-03:00</updated><title type='text'>Limite</title><content type='html'>Foi aqui nessa casinha que aconteceu, como acontecia todos os dias, por muitos dias. Da janela, todo final de tarde, Geraldino via Sanderlice aparecer lá no alto da ladeira, a via descer e desaparecer antes da subida seguinte que demorava mais de duas horas, mais de três. Ela chegava ofegante, descabelada e com cheiro de suor de homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Geraldino não reclamava nem tinha tempo de reclamar. Recebia murro na orelha, pisão nas partes, gritos no ouvido porque a janta estava fria, porque a casa estava suja, por motivo nenhum, apenas por hábito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início a vizinhança estranhava. Como aquele homem agüentava tudo calado? Depois se conformou com o conformismo de Geraldino. A cada boca da noite, a mesma coisa. Geraldino via Sanderlice descer a ladeira e esperava a subida demorada para o lado de cá. Em quatro épocas diferentes a viu subir buchuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nasceu o gazo com a cara de Judécio; nasceu um indiozinho parecido com Tucuna; nasceu um amarelinho de olhos rasgados e cabelos iguais ao do Katedi; por último a esposa pariu um negrinho, cópia perfeita de Cateu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Geraldino nunca reclamou, não tinha tempo. Antes de falar, lá vinha o tabefe, o chute no saco, os gritos. Quando Sanderlice estava pesada em sua prenhice e se movimentava com mais dificuldade, apelava para o cabo da vassoura, a corda da rede ou qualquer coisa que causasse dor e estrago. Geraldino, calado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, o marido lá, pôr-do-Sol, na janela, vê Sanderlice descer a ladeira de mãos dadas com Ordélia. Estranhou na primeira vez; na segunda, desconfiou; quando viu o beijo, se destemperou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Madou os quatro filhos para a casa dos avós e deu uma surra em Sanderlice que ela jamais esqueceria. Dois meses de cama, pernas, braços e cara quebrados de tanta pancada pela sem vergonhice de trocá-lo por uma mulher.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-7265910997744714046?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/7265910997744714046/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/limite.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/7265910997744714046'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/7265910997744714046'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/limite.html' title='Limite'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-8683425572772657182</id><published>2009-01-19T19:28:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:28:37.744-03:00</updated><title type='text'>Escada a Baixo</title><content type='html'>Foi um garoto criado em berço de ouro e acabado no gueto de lodo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pietro Saint-Arnour Friedrich ganhara um nome bem ao gosto europeizado dos pais, gente rica das terras roxas, plantadores de café e de vacas leiteiras holandesas, lógico. Assim fechavam o ciclo. O pai, Antenor, tinha planos de plantar trigo em alguma terra a ser comprada no sul, assim venderia o breakfast completo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao pimpolho todos os luxos, desde a ama de leite até o enxoval de seda chinesa; dos tutores, não apenas professores particulares, ao tratamento semanal de beleza completa, cabelos, pele e unhas; dos passeios às estâncias minerais às aulas de piano e valsa. Um pequeno lorde no calor interiorano que não dispensava o suéter de cashemere.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe, refinada dama estudada na França, fazia questão dos mimos. O pai, sujeito mal talhado para as finas rodas aceitava, não discutia. Dera o golpe do baú, teria que pagar um preço, fosse qual fosse, desde que não se indispusesse com a família da esposa a quem dedicara todo o tipo de puxação de saco e agrados até conseguir sua confiança. Pietro não trabalharia na lida do campo, de qualquer maneira, não precisaria se sujar de terra e nem tratar com os peões. Tanto melhor, assim ninguém meteria o bedelho nos negócios que fazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o garoto fez quinze anos, o pai insistiu em mandá-lo para o internato na capital. Argumentava com a esposa que sua educação estaria completa, que se envolveria com pessoas de sua classe e categoria, ficaria distante daqueles bugres e trogloditas doidos para enfiar uma filha mal cheirosa sob as cobertas do rapazola. Tanto falou, dia após dia, que terminou convencendo madame Therèse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabou janeiro, o garoto voltando de suas férias em Bariloche, sequer desfez as malas. Partiu na manhã seguinte para São Paulo. Seguiram-se três anos de internato, aulas de piano e dança, francês e italiano, compras e saraus, descidas a algum resort na praia com colegas da high society, filhos de industriais, senadores, generais e almirantes, a crème de la crème.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saudades de casa? Qual o quê! Umas cartinhas e visitas sazonais da mãe curavam isso rapidinho, ou um passeio demorado pelas lojas de grife. A mesada era maior que a folha salarial de todos os professores que tinha. Nada mais contava. Provavelmente as fazendas iam muito bem, o pai enriquecia e não esquecia dele, embora jamais um telegrama, um telefone, qualquer notícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia a bomba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Madame Therèse havia morrido. Antenor envolvera-se com uma amante argentina perdulária e luxenta. Junto com a missiva o documento registrado em cartório, firma reconhecida e deferimento do doutor juiz, três testemunhas idôneas: Pietro recebia sua emancipação. Nada mais de mesada, nada mais de paparicos, a rematrícula no internato não fora confirmada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procurou advogados, mas lhe tiraram as esperanças, estava por sua conta e risco. Muitas contas, diga-se de passagem, e riscos que não conhecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Expulso dos alojamentos, mudou-se para um hotel, o mais luxuoso, lógico. Uma semana bastou para perceber que não teria como manter-se ali. Começava a descer os degraus sociais, de hotel em hotel até chegar a uma pensão no subúrbio. Paralelamente a isso, procurava emprego de dia, jogava-se na esbórnia à noite. Os amigos ricos sumiram, as moçoilas casadoiras desaparecerem com a fumaça de seu último cigarro importado. Os convites para festas e saraus, sumiram junto com o carteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num desses bares, que também diminuíam em qualidade, bêbado, desesperado e solitário, assistiu a um espetáculo de dança, uma pantomima esdrúxula, na qual três rapazes faziam as vezes de mulheres e ocupavam-se em disputar as atenções e o dinheiro de um rapazola bem apessoado e de algibeira gorda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo lhe atraiu ali. Não sabia se a desenvoltura dos travestis ou a beleza do rapaz disputado. Envergonhado, percebeu que se excitara com todos os quatro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou na noite seguinte e arrumou um jeito de ir ao camarim depois do show. Na tristeza em que andava, a alegria do quarteto o contagiou. A princípio tenso com a libertinagem que sentia nos abraços, pegações e beijos do quarteto entre si, logo viu-se com vontade de formar um quinteto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tinha mais nada a perder na vida, a não ser as culpas judaico-romanas que lhe foram incutidas desde a infância. Mas aquela infância fora para outra vida adulta, não a que levava agora. Um pária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aceito no grupo. Recebeu lições de como vestir-se e despir-se, de como andar e dançar, do que beber e com quem sair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tornou-se, em pouco tempo, a estrela das noites de quinta-feira, a noite dos motoristas e motorneiros. Quando não está no palco ou nos braços de um homem fedendo a suor e tráfego, está trancado no quarto com seu narguilé de ópio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-8683425572772657182?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/8683425572772657182/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/escada-baixo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8683425572772657182'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8683425572772657182'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/escada-baixo.html' title='Escada a Baixo'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-4073016535349680514</id><published>2009-01-19T19:27:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:27:57.829-03:00</updated><title type='text'>O Inferno Antes do Outro</title><content type='html'>Mais um dia de caos no Hospital Zulmiro Sedósio, nome de antigo, corrupto e incompetente prefeito (que me desculpem a redundância), batismo ideal e apropriado para uma casa pública de serviços de muito duvidosa qualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encolhido numa desconfortável cadeira de plástico um homem amarelo reclamava baixinho das dores no peito, ao seu lado uma jovem senhora maltratada pelo tempo limpava o nariz de um bebê que teimava em chorar no meio daquela catarrada esverdeada. Jogado a um canto um homem com um buraco na canela por onde se via o branco da tíbia quebrada. A prenha de gêmeos gemia na maca, pernas abertas esperando a hora, como se a natureza fosse esperar os médicos e formulários. A mocinha com conjuntivite, o rapazola hipocondríaco, a velha com a língua solta, o bêbado de cor indefinida e o fígado estufado... Nem num circo de Buñuel existiriam tantos tipos bisonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escorados no balcão, para protegerem a atendente da agressão de algum descontente, , dois seguranças. Ao lado da porta, outros dois. Médicos não apareciam, apenas uma ou outra enfermeira com seu jaleco branco e sua cara de que as nuvens deslizavam sob seus pés e nada as atingia, superiores às mazelas dos pobres mortais desgraçados espalhados pelo salão. Médicos? Esses devem ter uma entrada secreta, um teletransportador, ou moravam numa cartola, ninguém os via. Na contagem final, eram vistos mais guardas do que médicos ou enfermeiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele povo jogado de qualquer jeito pela sala lotada, escura, sem ventilação e recheada de vírus e bactérias até que queria, mas de onde tirar forças para brigar, contestar? Sem falar do medo de depois serem ainda mais maltratados por um doutor vingativo e onipotente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito de vez em quando a atendente chamava por um nome. Se o convocado conseguisse andar ou se arrastar, ia até o balcão de onde era encaminhado por um corredor de azulejos até um dos consultórios. Se não conseguisse se locomover, dois indelicados mastodontes o atiravam sobre a maca ou na cadeira de rodas como se fosse um saco de batatas e os despejava numa daquelas saletas claras e ventiladas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num mesmo instante foram chamados a grávida com a bolsa rompida e o homem de perna quebrada. Os mastodontes siameses tiveram que se separar. Um empurrou a maca da mulher, o outro atirou o homem sobre uma cadeira de rodas. Nem gemeu, desmaiou de dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atendidos, operados e internados para a recuperação, a mulher acordou com três pinos de platina na perna e o homem com um curativo cobrindo a cesariana.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-4073016535349680514?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/4073016535349680514/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/o-inferno-antes-do-outro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4073016535349680514'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4073016535349680514'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/o-inferno-antes-do-outro.html' title='O Inferno Antes do Outro'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-8376111954728439914</id><published>2009-01-19T19:26:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:27:16.203-03:00</updated><title type='text'>De Braço Dado Com a Noite - Parte 3</title><content type='html'>Estava entregue à matilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morderam, chuparam, lambuzaram, comeram e recomeram. Alternavam-se nas funções enquanto sua única função era ser passiva e obedecer Às ordens, nunca amáveis. Morde aqui, chupa ali, abre mais, fecha, vira, de ponta cabeça, esfrega, alisa, geme, grita, xinga... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com aluguel a pagar, conta na boutique a saldar, telefone em vias de ser cortado e sem ele o trabalho sumiria, Adalgiza Bright, codinome criado inspirado na miss Brasil misturado com um cintilante inglês, sujeitava-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rijos por conta da overdose de excitantes químicos, os algozes só descansaram por falta de preparo físico, facilmente denunciada pelas barrigas salientes e flácidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliviada, Adalgiza preparou-se pra abandonar sua masmorra. Tentou se levantar do carpete surrado onde havia sido abandonada como um animal surrados, mas foi impedida pela para grossa e cabeluda que a empurrou de volta ao chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Calma aí, piranha. Isso é apenas nosso recreio. Te arrasta até ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O “ele” ao qual o outro indicava era o mastodonte dos três, sujeito enorme com barba cerrada que deixara marcas na pele fina de Adalgiza. “Ele” estava ajoelhado com um pires na mão. Dentro do pires um pó branco que ela sempre evitara provar, mas que sabia bem do que se tratava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentou não ir, não se sujeitaria àquilo, mas o pontapé nas suas costelas demoveu-a do intento de rebelar-se. Naquele pardieiro fantasiado de hotel três estrelas, sabia que seus gritos por socorro não seriam atendidos. Arrastava-se devagar, pesando o que seria pior, levar uma surra pela desobediência ou correr o risco de perder a consciência depois de provar a droga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não chegara a uma conclusão quando viu-se puxada pelos cabelos e o rosto enfiado no pires.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cafunga! Cafunga, vaca! Limpa o pires!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Esta é minha parte num conto coletivo com mais três escritores.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-8376111954728439914?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/8376111954728439914/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/de-brao-dado-com-noite-parte-3.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8376111954728439914'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8376111954728439914'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/de-brao-dado-com-noite-parte-3.html' title='De Braço Dado Com a Noite - Parte 3'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-8807292834653811393</id><published>2009-01-19T19:24:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:26:19.964-03:00</updated><title type='text'>O Conto</title><content type='html'>Cabisbaixo, mãos nos bolsos, anda sem rumo seguindo as calçadas. Chuta latinhas e pedregulhos, à toa, madrugada a dentro. Ficara até aquela hora, duas e meia, tentando escrever o conto encomendado pelo jornal literário. Até achou que havia conseguido um tema - gêmeos que se reencontram anos depois da separação e se vêem como num espelho, mesmo gosto de vestir, mesmo corte de cabelo, mesmos gestos. Terminou caindo nos clichês e desistiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fumou, tomou uma taça de vinho enquanto folheava Machado de Assis em busca de inspiração, mesmo que fosse plágio. O editor aguardava o e-mail até as oito horas da manhã seguinte, ele não poderia falhar. Mais do que a graninha que deixaria de ganhar, feriria sua reputação ainda iniciante de bom contista, jamais seria convidado por aquele grupo editorial e isso não era pouco. Quando alguém a quem todos bajulam e com quem gostariam de trabalhar, não o aceita mais, a praga se espalha e todos os demais se recusam a arriscar com um rejeitado. Ele seria o rejeitado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se plagiasse Machado, poderia usar do argumento, quando descoberto e desmascarado, que havia sido inconsciente, provavelmente fora traído pela memória que lhe apresentou o velho conto revestido como algo novo. Não ficaria queimado no mercado, apenas chamuscado, mas com a vantagem de que ganharia tempo para compor algo realmente original.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A idéia demorou pouco. Não se sujeitaria a algo tão desonesto e tacanha, embora, por si, a idéia já era bem original. Isso poderia dar conto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentou, mas as palavras fugiam quando se sentava em frente à tela brilhosa. A idéia estava viva, sentia-a pulsar nas circunvoluções cerebrais, mas se perdiam como em um labirinto. Não desenvolvia, andava em círculos. Pegava papel e lápis e ensaiava uma tempestade cerebral: o personagem tinha que escrever um conto; adiara até a última hora desprezando os quinze dias que lhe foram dados; na véspera de enviar os escritos para o editor, a inspiração não vinha e ele se exasperava; resolvia escrever um conto sobre isso, o que para ele era uma crônica-desabafo, para os leitores seria um conto. Até aí tudo bem, mas o que acontecia depois? Nada! Não conseguia desenvolver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A taça de vinho virou uma garrafa, o cigarrinho do descanso virou uma carteira de inquietação, a tempestade cerebral não passou de chuvinha de verão, o início da noite virava silêncio nas avenidas. Melhor tentar outra coisa. Sabia que não era um tacanha qualquer com aspirações de escritor, sabia que tinha talento, tanto que o maior editor de literatura de que tinha conhecimento lhe encomendara um conto, não seria, portanto, tão difícil encontrar um tema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegou o álbum de fotografias que levava a cada mudança, entre as muitas que tivera pela vida. Imaginava que revendo os amigos de infância, os passeios de escola, as namoradas já esquecidas e casadas e descasadas, os parentes chatos em dias de Natal, os colegas do tempo de bancário... Alguma história viria a ser contada. Talvez transformasse em ficção alguma realidade desaparecida e amarelada no tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mãe e pai, a irmã Zilinha, os primos dos quais mal lembrava um ou outro nome, Tramandaí, Neve em São Joaquim, Bonito e mergulho no rio, Brasília e o primeiro porre na rodoviária, Helena e o primeiro beijo, Sara e o último sexo, Belo Horizonte e o carro capotado, dez pontos da cabeça e costelas quebradas, Salvador e o primeiro abadá, o primeiro assalto com direito a ficar nu em Maceió, Paris e a primeira francesa... Via que não tivera uma vida dura, que conhecera mundos e gentes, que fizera o que a maioria dos mortais jamais conseguiria fazer, que tivera bons pais que lhe forneceram isso tudo e mais do que merecia. As maravilhas de uma vida bem vivida não lhe davam, porém, uma única historinha para contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abriu a segunda garrafa e a última carteira de cigarro. Lembrou de João Ubaldo fazendo a auto-crítica dos tempo em que bebia: bêbado escrevia coisas maravilhosas que, sóbrio no dia seguinte, concluía serem lixo. Com o tempo se esvaindo como passageiros do metrô no rush, não se queixaria de escrevesse uma das maiores porcarias literárias da humanidade, mesmo que o álcool lhe dissesse ser uma obra-prima. Prometia-se não revisar, sequer reler, desde que nascesse uma história completa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bebia, escrevia, relia e apagava. Ainda não estava suficientemente bêbado para desprezar a autocrítica. Na maioria das tentativas, nem autocrítica era necessário, simplesmente não conseguia desenvolver a narrativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fumava e esquecia do computador, apelava para papel e caneta. Eram tantos os rabiscos, tantas as idéias mal nascidas e abortadas depois das primeira linhas que já se amontoavam ao redor do cesto as bolinhas de papel. O lápis já fora apontado incontidas vezes, resumindo-se a um toco que nada gerava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última taça de vinho e o último cigarro. Recusava-se a tomar café, refrigerante, chá ou qualquer coisa minimante saudável, queria maltratar-se, autoflagelação por causa da esterilidade mental. Que viesse a má inspiração alcoólica de Ubaldo, pelo menos isso. Que viesse o espírito do pior contista morto reencarnar em si, desde que tivesse algo a psicografar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jogou a guimba do cigarro também no cesto entulhado de papel, recolheu o casaco mal jogado no encosto da poltrona e saiu em busca de álcool e cigarros. Nunca fizera isso, mas se desse de cara com um traficante, compraria uma droga qualquer se o vendedor prometesse que ela abriria o cérebro como dizem os junkies.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabisbaixo, mãos nos bolsos, anda sem rumo seguindo as calçadas esperando surgir uma porta de boteco aberta àquela hora. De repente, o estalo. Veio-lhe clara e aberta a história do escritor estéril. Via como se num filme o desenrolar da história, seu final surpreendente e engraçado. Apalpa os bolsos em busca de uma caneta, o toco do lápis – precisa anotar antes que perca -, nada! Volta-se correndo em direção a casa, correndo pelo meio da rua que tem menos obstáculos que as calçadas acidentadas. Atrás de si ouve o motor acelerado e as sirenes, salta de volta para a calçada evitando o atropelamento pelo carro dos bombeiros. Recobrado do susto, retoma a corrida, repetindo mentalmente o grande final do conto ainda em gestação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dobra a esquina e estanca lívido. Os bombeiros atiram água na casa em labaredas altas, vítima de um cigarro aceso na lixeira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-8807292834653811393?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/8807292834653811393/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/o-conto.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8807292834653811393'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8807292834653811393'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/o-conto.html' title='O Conto'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-4482066530894736536</id><published>2009-01-19T19:23:00.002-03:00</published><updated>2009-01-19T19:24:28.671-03:00</updated><title type='text'>Bolero</title><content type='html'>As sextas-feiras eram cruéis, lentas para Divanilma, as horas não passavam. O expediente da enfermeira não se acabava. Quando, por fim, o relógio marcava seis horas, era a primeira a bater o ponto de saída e correr para o ponto em que a espera pelo ônibus era uma eternidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descia a duas quadras de casa e percorria a distância sem sentir nenhum cansaço nas pernas que trabalharam de um lado para outro durante todo o dia. Ao abrir a porta, o casaco já estava na mão, o sapato desafivelado era jogado em qualquer canto, da bolsa só retirava a carteira que transferia para outra bolsa menor, de alça fina e longa. Despia-se apressada em direção ao banho. O melhor xampu, o sabonete especial que não usava em dias de trabalho, não ficava bem uma enfermeira rescindindo a sândalo e amêndoas enquanto limpava urinóis e fazia curativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O perfume caro, metade do salário, a saia rodada e colorida com a blusa de seda vermelha passadas de véspera e deixadas sobre a cama antes de sair para o batente, a meia-calça sóbria e os sapatos de salto agulha que a deixavam mais alta, elegante e com leveza no andar, andar de modelo, como ela gostava de dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um olhar demorado e analítico no grande espelho. Nada podia estar errado, nem mesmo um fio de cabelo. Uma olhada no relógio de parede, havia tirado o de pulso, não achava elegante uma dama usar relógio em tais circunstâncias, além de não querer dar bola para o tempo depois que saísse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhava pelas ruas de paralelepípedos uma nova Divanilma, despertando olhares enquanto se dirigia para o baile de Valvido, onde dezenas de cavalheiros, já impacientes, a esperavam e dançavam com qualquer uma para que a espera fosse menos dolorosa. Cada um alimentava a esperança de que essa noite teria sorte de tirá-la para dançar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para consolo das rivais, nenhum conseguiria. Sabiam que Divanilma esperava o par perfeito, o homem com e para quem dançaria para o resto da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua mesa à margem da pista estava pronta como sempre. Valvido a recebia na porta, consorte com sorte e vítima das invejas masculinas. A conduzia até a mesa, lhe puxava a cadeira e, célere, fazia sua cuba libre com mais cola e gelo que rum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O passo seguinte era o cortejo dos dançarinos solicitando seu par, educadamente dispensado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela sexta-feira, porém, um homem novato no baile, desavisado da história de Divanilma, não temeu a dispensa já esperada pelos demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paletó e calça brancos, camisa vermelha contrastando com fina gravata azul, sapatos pretos primorosamente lustrados, Ferizódio, encostado com os cotovelos no balcão, encantou-se com a morena desde que a viu entrar, braços dados com Valvido. Observando suas ancas balançantes e as batatas das pernas fortes e grossas equilibrando-se graciosamente sobre os saltos finos, Ferizódio percebeu o potencial do par perfeito para o bolero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a ginga segura de quem sabe usar muito bem as pernas na pista, Ferizódio aproximou-se. Com exceção do bolero, silêncio total, dezenas de pares de olhos observavam sua aproximação, inclusive os de Divanilma. Os homens torciam para ela livrar-se do invasor ousado; as mulheres, enciumadas, não queriam ver mais um homem fisgado pelo charme passivo de Divanilma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bela senhorita, Ferizódio, seu criado. Muita satisfação.Enquanto apresentava-se, tomava a mão da moça e a beijava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tão bela dama dar-me-ia o prazer de acompanhar-me numa dança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dançaram juntos pelo resto da noite e há vinte anos continuam dançando todas as sextas-feiras no baile de Valvido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-4482066530894736536?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/4482066530894736536/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/bolero.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4482066530894736536'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4482066530894736536'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/bolero.html' title='Bolero'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-6824409130686314370</id><published>2009-01-19T19:23:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:23:54.263-03:00</updated><title type='text'>Perdão</title><content type='html'>Vanderlânia, minha flor, aceita eu de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu sabe que tu é única no meu viver, as outras é apenas passatempo, quero dizer, eram, acabei com todas, só tu me interessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pobrema é que a carne é fraca e o diabo atenta e eu, que também sou filho de Deus, sô mais tentado ainda pelo Cão que quer os homem bom como eu no exército dele. Mas eu me arrenego a ir pro lado dele e voltei pro bom caminho, minha santa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Salve aleluia, salve!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra tu e por tu eu vou fazer tudo, pra tu eu vou viver cada segundo e fazer tudo que tu quiser pra te deixar feliz. Eu capino o quintal que deve de tá uma floresta, como já prometi antes e não fiz, dessa vez eu faço; eu vou almunçar com tu na casa da tua mãe nos domingo e fazer de conta que eu adoro ela, do jeito que tu sempre quis que eu fizesse e sempre me faltou corage; prometo consertar o telhado e arresolver aquelas pingueira na cunzinha, no banheiro e no nosso quarto, mesmo correndo o risco de me estabacar lá de riba e quebrar a cabeça; vou consertar as perna da cama das criança, mesmo sabendo que sou ruim de martelo e arriscar perder a cabeça do dedão numa martelada errada; garanto a você que acordo cedinho todos os dia, preparo o café e levo as menina pra escola; juro que vou te levar pra praia todo final de semana que não chuver e a gente nem vamos levar a farofa de carne de sol e a galinha assada. Tu vai comer é aqueles camarão grandão e o peixe frito dos bom que eles vende lá; vou trabaiá de sol a sol, final de semana e feriado pra nunca faltar nada pra tu e pras nossas filhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu esqueci de prometer alguma coisa pra te fazer feliz, pode me alembrar que eu prometo tomém. Tudo o que tu quiser, minha nega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prometo até ir com tu pros culto da igreja e tratar o pastor com todo o respeito e cortesia. Vou pras festa da igreja, seguro o estandarte, aprendo os hinos e todas as oração, participo do coral... Faço todas as obrigação e ainda pago o dízimo, tudo por tu, muié que amo mais que tudo no mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu vou poder tomar uma cervejinha com os amigo de vez inquando, vou não? Prometo que num vai ter niuma muié com nós, só os homem, nada de muié!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei não, alguma coisa me diz que tu num vai aceitar isso, num vai creditar nim eu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer saber? Esquece tudo que prometi. Quero voltar mais não. Vou ficar sozinho mesmo, sem tuas aporrinhação no pé das minha zureia o dia todo, todo dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fica com Deus e seja muito feliz. Dá um beijo nas criança e diz que eu amo elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daquele que foi teu um dia, Brenolivaldo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-6824409130686314370?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/6824409130686314370/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/perdo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/6824409130686314370'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/6824409130686314370'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/perdo.html' title='Perdão'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-4612155591842862030</id><published>2009-01-19T19:22:00.002-03:00</published><updated>2009-01-19T19:23:18.370-03:00</updated><title type='text'>O Preço</title><content type='html'>Àquela hora da madrugada o passeio era desaconselhável, mas a caminhada era inevitável. O último navio havia sido carregado para seguir rumo ao nascer do dia, a ele, Ademar, não havia alternativa, recebia ordens e as cumpria da melhor forma, seu pão e leite dependiam disso. Se o navio precisava receber a carga, ele e os demais trapicheiros, o faziam, fosse de dia ou tarde da noite, isso pouco contava, o que importava era o dinheirinho aquecendo a algibeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fora o último a se desocupar, os companheiros já haviam saído depois de receber a féria do dia e talvez se encontrassem em algum mafuá tomando cachaça e passando as mãos nas putas. Ademar tinha uma missão a mais, desligar os guindastes, entregar as chaves ao preposto das docas e passar no escritório para receber o dinheiro acumulado em dois dias diretos de muito suor e pouca água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio do cais só era arranhado pelo marulho batendo no muro de arrimo. Por economia e falta de necessidade, poucas lâmpadas iluminavam o pátio; o vento, ao balançar as lâmpadas incandescentes e amarelas, provocava estranheza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde que o corpo de Amarildo foi encontrado entre containeres no dia seguinte ao pagamento, sem um tostão nos bolsos e a garganta cortada de lado a lado, o medo tem feito a turma sair junta, uns zelando pelos outros. Nessa noite, porém, o cansaço coletivo não permitiu que os demais esperassem por ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvia o eco de seus sapatos vindo dos caixotes enormes, das paredes, nos cascos altos dos navios em espera. Nenhum outro som que seus ouvidos assustados e atentos tentavam encontrar soltos no ar da quase madrugada. No máximo um chiado de rato ou uma pequena peça, um pedaço de metal, um porrete improvisado de madeira se arrastando, provavelmente pelos mesmos ratos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentou andar mais rápido, sair dali acelerado, mas a reverberação das pisadas se confundia com os demais sons que pudessem surgir, não poderia ouvir o inimigo de punhal que esperava por ele e seu suado pagamento. Reduziu o ritmo das passadas, alargando os passos. Se alguém o visse caminhando assim, imaginaria que contava o tamanho do caminho que percorria. Ninguém o observava, tinha certeza, nem mesmo o ladrão. Estava assustando-se à toa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Súbito frio na espinha e estancar das pernas ao ver surgirem duas bolinhas verdes piscantes por detrás de uma caixa de ripas. Apenas os olhos de um gato em busca de comida e diversão refletindo as luzes que vinham das costas de Ademar. Entre dentes, para não se assustar ainda mais, xingou o gato, “vai assustar a mãe!”. Respirou fundo de alívio e tensão. Voltou à caminhada medida e larga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já olhava o portão que permitiria sua passagem para a rua. Longe, mais longe do que nunca esteve. Apressava o passo novamente ou se tranqüilizava esperando o portão se aproximar em seu próprio ritmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Evitava olhar para os lados, medo de ver o que não queria. Qualquer sombra poderia ser confundida com o bandido que o cercava. E se este serzinho desprezível e odioso aparecesse à sua frente, punhal em punho, ou seria uma peixeira?, o que faria? Entregava tudo e se fingia de morto?, se acovardaria?, enfrentaria o sujeito com a força de suas mãos calejadas e fortes?. Era forte, mas nunca brigara na vida, não teria chance com as mãos desarmadas, ainda mais contra um assassino sem qualquer hesitação ou escrúpulo. À direita, sob a empilhadeira, viu um pedaço de vergalhão (como essas coisas iam parar no pátio das docas? Sempre se perguntava isso quando encontrava algo que não combinasse com o cenário). Desviou-se da rota, ajoelhou-se ao lado da máquina e esticou o braço para pegar sua arma improvisada. Ao pegar o metal, a vista desviou-se para as botas do outro lado do veículo. Dois pés, tudo o que via, parados de frente para si, como se o olhando nos olhos. Serpentes negras de olho na vítima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esqueceu-se do vergalhão, soltou um grito de socorro e saiu em carreira com seus mais de cem quilos em direção ao portão que teimava em afastar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentia o quente da urina descer pelas pernas enquanto corria, ou tentava, gritava como uma menininha que via uma aranha em sua casinha de bonecas, não tinha tempo de envergonhar-se, apenas corria e gritava. Pensava passar pelo portão como um centro avante que dribla o beque, bateu o ombro, rodopiou sobre o próprio eixo vertical estatelando-se na calçada. O ombro doía, tentou apoiar-se nesse braço para se levantar e continuar a corrida até o boteco onde imaginava que se encontravam os colegas. A dor aumentou, a força não veio, bateu a cara no cimento. Já imaginava o algoz a poucos metros, tentava arrastar-se como um soldado sob arames farpados com a ajuda de um único braço, era muito peso para um só braço. A eternidade se resumia naqueles poucos segundos. A voz já não saía, garganta seca, pulmões ardendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentiu a pisada forte nas costas empurrando-o de volta ao solo. Na nuca o frio da ponta de uma faca que imaginava brilhante sob a luz do poste. Ninguém o salvaria? Onde estavam os vigias? Fez força com o braço bom para tentar levantar-se, mas a pisada o imobilizava. Morreria como um porco no punhal do magarefe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pai nosso que estais no céu...”, baixinho pedia proteção. O pé que o continha foi substituído pelo joelho e uma voz rouca, num sussurro, acompanhada por um bafo de cigarro barato, ao pé do seu ouvido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta num filete sem força:&lt;br /&gt;- No-no bolso.&lt;br /&gt;- Pega.&lt;br /&gt;- Que-brei-o-bra-bra-ço.&lt;br /&gt;-Pega!, percebia que a voz vinha com raiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A careta de dor foi inevitável. Via sua única chance de sair com vida dando o dinheiro que penara para ganhar. Não era pouco, pelo menos para seu padrão de fortuna. Dois dias inteiro de trabalho, quatorze horas seguidas em cada dia. Tentava controlar os movimentos limitados pela dor. As pontas dos dedos já tocavam as cédulas quando sentiu o corpo do bandido cair pesado, inteiro sobre o seu, sufocando-o. Veio o alívio de sentir o corpo sendo retirado de sobre o seu. Vira de barriga para cima e vê seus companheiros atirando o corpo como faziam com os fardos de algodão nos porões dos navios. O baque surdo do bandido inerte na calçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um pedaço de madeira numa das mãos, Olivério lhe esticava a outra como auxílio para levantar-se. Seis estivadores formavam um semicírculo com ele e o corpo desmaiado no centro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se com a ajuda de dois deles. Antes, porém, de mostrar sua gratidão ou mesmo odiar aquele que o mataria, recebeu de Olivério a sentença inesperada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tua vida custa mais do que você ganhou hoje. Passa pra gente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-4612155591842862030?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/4612155591842862030/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/o-preo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4612155591842862030'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4612155591842862030'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/o-preo.html' title='O Preço'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-2902185586411808211</id><published>2009-01-19T19:22:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:22:41.500-03:00</updated><title type='text'>Despedida</title><content type='html'>Dorinha, faz essa cara de pena, não. Não careço de pena. Vivi o que pude viver e não foi mais pior nem melhor do que a vida dos que vivem bem desde a nascença. Cada um tem sua cruz, amiga, ou muitas cruzes, e eu tive as minhas. A vida me escolheu, depois, escolhi a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a vida levou minha mãe quando nasci e meu pai pelas estradas antes d’eu nascer e, mesmo me deixando sozinha, sem leite e sem banho, ela não quis me levar, estava dizendo que, já que eu fiquei, vivesse tudo o que tinha que viver. E vivi, Dorinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não levo nada e nem deixo qualquer coisa pra ninguém, mal tive pra mim, pra meu sustento roto, como deixar algo para os outros? Bem que eu gostaria de ter uma casa, jóias caras, uma terrinha, um bangalô na praia... Nada disso pro meu luxo, mas pra deixar algo bom pra você, amiga, que me deu comida, teto e carinho nesses últimos tempos, tempo mais ruim que todos os tempos ruins que já vivi. Deixar alguma coisa de boa para Philóphio, coitado do Philóphio, vinte anos de cadeia pra me salvar do capiroto do Alesso. Se não fosse Philóphio chegar com a peixeira, Alesso tinha me matado, tudo por causa dos dez reais que ele não quis pagar pela trepada. Nunca mais fode ninguém! Mas fodeu com a vida do pobre Philóphio por vinte anos. Pobre Philóphio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria deixar algo bom pra Zineide também. A melhor amiga que eu poderia ter naqueles tempos. Não sei o que é ter mãe, mas sei o que é ser mãe, mesmo sem saber quem era o pai do meu filho que a morte não deixou nascer. Eu era bonita, Dorinha, os homens babavam para as minhas coxas, pra minha bunda, pros meus peitos grandes e duros. Eu não podia perder a chance de ganhar dinheiro com a única coisa que eu tinha. Não fazia gosto ruim, foram muitos homens, de toda cor, cheiro, gosto. Se pagasse, eu ia, e fui muito. Ganhei uma fortuna naqueles tempos. Mas Deus não gosta de mim, Dorinha. Bem que ele poderia me dizer por causa de quê me tratou como bastarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Justo quando eu estava podendo cuidar de mim, dinheiro no banco, roupas novas e bonitas, casa pra morar, de um lado ganhei um filho, de outro, a doença. Daria tudo se morresse eu e ficasse meu filhinho que nem nasceu. E a Zineide foi quem me deixou viva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha jurado pra ela: Zineide, não quero mais ser rameira. Se Deus me curar e salvar meu filho, saio da vida, arrumo um emprego e vou viver pra ele. Deus levou meu bebê e quem me salvou foram os remédios que a Zineide comprava com o dinheiro que ela tinha pra comer, depois de eu ter gastado tudo com os médicos e laboratórios. Deus não fez a parte dele, eu não tinha que fazer a minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora vem essa outra, sem cura e sem jeito. Pra quê tanto remédio se não se pode matar a bicha? Vou tomar nenhum! Não vou mais dar dinheiro pra médico, nem pra farmacêutico, nem pra laboratório. Nem o meu, nem o seu! E não vou mais acordar de madrugada para entrar na fila sem fim da previdência. Se não há cura, pra quê sacrifício?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenha dó não, Dorinha. Já sou uma velha nesses meus trinta e dois anos. Não vê as rugas na cara? As da alma são mais fundas. Eu morri em vida, amiga. Se há pecado, tenho crédito, muito crédito. Sofri mais do que pequei. Eu mereço o céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não quero ir pra cantar hosanas e passear de mãos dadas com os anjinhos – entre eles deve estar o meu que não nasceu -, quero ir para encarar Deus nos olhos e exigir que me responda por que me odiou tanto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-2902185586411808211?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/2902185586411808211/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/despedida.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/2902185586411808211'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/2902185586411808211'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/despedida.html' title='Despedida'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-2037846072317393424</id><published>2009-01-19T19:21:00.000-03:00</published><updated>2009-01-19T19:22:07.212-03:00</updated><title type='text'>Piroga e Tiririca</title><content type='html'>Na liberdade da infância, Iraquitã e Belson eram donos do domingo. Acostumados com a mata e os animais não temiam os perigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No pequeno distrito de Parintins, onde moravam, eram donos e reis, como cada curumim e cunhataí tinham seu próprio reino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã cedinho pegaram a piroga que não iria à pesca com seus pais e se aventuraram, anzóis e zagaias a bordo, para o grande rio. Já se achavam homens em seus dez anos. Os igarapés já não lhes tinham mistérios. Mas os segredos do pará ainda eram segredos para eles. As ondas altas naturais e as marolas dos rastros das catraias ainda não conheciam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambos tremeram de receio, não sabiam o que era medo, ao chegarem ao meio do rio e perceberem que a água que entrava rápido exigia grande esforço e velocidade nos braços para ser retirada, mas não passariam por fracos e nada disseram de sua caruara uma para o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terceira vaga encheu a canoa e suas providências não deram conta para evitar o naufrágio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nada, Belson, nada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O instinto os guiava, antes que as palavras combinassem, em direção à praia de onde partiram, mas não conheciam os segredos da correnteza. Mais de três quilômetros da margem, as águas os levando rumo ao mar que não conheciam senão do Atlas Escolar milhares de outros quilômetros adiante, e teimavam em voltar ao ponto de partida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por quarenta minutos nadavam lado a lado, mas o mar doce os separou numa braçada de Iara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Iraquitã desviava dos troncos que vinham boiando sabe-se lá de onde, tentava avisar o amigo, mas a voz não saía; tentava avistá-lo, mas as paredes de água que se alternavam não permitiam. Agora, admitia, estava com medo, medo de nunca mais ver Belson, nome dado em gratidão ao missionário canadense que ajudara sua mãe no parto. As lágrimas de Iraquitã aumentavam o volume do rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisava chegar à margem, à vila e avisar aos adultos para procurarem o amigo, mesmo que isso lhe custasse uma surra de cipó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As forças vieram do fundo d’alma. Remava seu corpo desengonçado com toda a força que seus braços finos permitiam. Imaginava seus pés serem nadadeiras de cauda do tucunaré e nadava, nadava, lágrimas juntando-se às águas do pará, nadava, nadava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito tempo se passou até alcançar as tiriricas da beira-rio. Não havia tempo para descansar, todo o corpo, porém, exigia. Tentou levantar-se, as pernas se negavam. Nas tentativas frustradas de ir em frente desmaiou e, postado sobre aquelas folhas que pareciam navalhas quando molhadas, ficou desacordado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhava com o amigo perdido nas águas que amava, nas águas que lhe davam o peixe e as brincadeiras. Não havia mais nada a fazer senão entregar-se à inconsciência, por mais que pelejasse contra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordou com a mão suave lhe arrumando os cabelos pretos e lisos. Suas pálpebras pesavam mais que um cacho de pupunha, mas conseguiu abri-los e viu que já era noite. As dezenas de vaga-lumes aproximavam-se e viravam lamparinas. A mão que o afagava e o colo que o abrigava eram de dona Jussara, mãe de Belson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando os olhos negros de Jussara, mais escuro por falta de estrelas no céu negro de nuvens, chorou e pediu desculpas. Os aldeões se aproximavam. Uma lamparina se destacou das demais e veio rápido, à velocidade de uma carreira de menino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Belson entregou a lamparina para a mãe e abraçou o amigo que já tinha como morto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-2037846072317393424?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/2037846072317393424/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/piroga-e-tiririca.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/2037846072317393424'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/2037846072317393424'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/piroga-e-tiririca.html' title='Piroga e Tiririca'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-8337134310925992901</id><published>2009-01-19T19:20:00.002-03:00</published><updated>2009-01-19T19:21:28.794-03:00</updated><title type='text'>Delirium Pen Club</title><content type='html'>Era hora da reunião diária do Delirium Pen Club. Todos os artistas da cidade se dirigiam à sede com seus barretes dourados, coletes com arabescos bordados em fios d’ouro e os brilhosos sapatos marrom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os administradores da cidade haviam percebido a dispersão dos escritores, pintores, poetas, ficcionistas, enfim, dos artista e intelectuais. Com sua popularidade em baixa, viram ali uma boa oportunidade de trazer cabeças pensantes para o seu lado, o que fazia com que boa parte da população, seguindo seus ídolos, viesse a reboque, melhorando a popularidade do prefeito e seus correligionários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O secretário de cultura foi rápido em executar o plano silencioso. Desapropriou terreno, construiu prédio suntuoso, nomeou um fotógrafo, um pintor e um contista como administradores, fez uma enorme festa durante a qual convidou a inteligentzia local para compor o clube como colaboradores. Na primeira reunião ficou determinado o estatuto e as normas de convivência. Leis simples, de fácil aplicação e fiscalização, tinham como principal artigo a total liberdade de manifestação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sucesso veio rápido, a notícia espalhava-se pela cidade e pela zona rural. A visitação do público foi franqueada, podendo este assistir às reuniões, ter acesso às obras produzidas e até associar-se, bastava comprovar ser eleitor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava formada uma salada das mais diversas ideologias, todas as cores, idades (desde que maior de dezoito anos, afinal eram os votos que interessavam ao prefeito, cultura era algo secundário. O alcaide já confessara publicamente jamais ter lido um livro). Isso não significava, porém, que só havia gente inteligente, talentosa e crítica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volta e meia surgia um mais exaltado disposto a bater e apanhar pelo prefeito, como se este fosse o responsável pela criação das artes, ao invés de apenas um canal para sua reunião e disseminação. Surgiam os mais sutis que manipulavam a opinião dos mais crédulos ou mais ingênuos. Entre esses se destacavam os maria-vai-com-as-outras, caracterizados pelo ego gigantesco, comum aos artistas, mas senso crítico e capacidade de análise quase nulos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o afluxo de tanta gente às reuniões, foi criado o uniforme para que se identificasse mais facilmente quem era associado e quem era apenas assistente: barrete dourado, colete com arabescos em fios de ouro e sapatos marrom. Mesmo os mais rebeldes, e entre artistas eles são muitos, se sujeitavam a essas convenções, não havia razão para não seguir determinação tão simples.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite, porém, Catalina veio de sapatos de saltos altos pretos. Estava instaurado o caos. Como aceitar aquela cor entre os pares que calçavam marrom? Justo Catalina que sempre fora uma boa moça, simpática com todos e por todos admirada por seu caráter e talento inquestionáveis?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos três administradores do Delirium Pen Club, o contista, pediu, ou melhor, deu-se a palavra atropelando toda a pauta pré-concebida. Nada iria adiante antes de se discutir os sapatos pretos de Catalina. Mais justo seria expulsá-la, independentemente de seu talento ou seu caráter. Os sapatos comprados baratinhos na liquidação da esquina, de repente se tornaram mais importantes que seus poemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cisão não demorou. Três grupos formaram-se: os que apoiavam o administrador, os que apoiavam Catalina e os que não se manifestavam publicamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grupo dos partidários do contista era formado pelos que concordavam com seus argumentos por afinidade de pensamento, e era minoria; e os que se recusavam a contrariar qualquer resolução dos detentores do poder, por menor que fosse o poder de um administrador de clube cultural de cidadezinha perdida no meio do nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os que defendiam o direito de Catalina eram claros e assumiam publicamente essa defesa. Era o menor grupo. Um pequeno exército de Brancaleone entre aqueles monstros das letras, das telas, das lentes e da política sub-reptícia. Pouco ligavam se os sapatos da moça eram marrons ou multicores, apenas acreditavam na liberdade de cada um vestir-se ou calçar-se como bem desejasse. Isso não faz do indivíduo melhor ou pior, no máximo, diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O terceiro grupo, numeroso, era heterogêneo. De boca calada em público, pelos corredores, em pequenas rodas, punham-se a favor desse ou daquele contendor. Ao pé do ouvido, segurando as palavras pelas penas do rabo para que não voassem para ouvidos mais distantes, sussurravam o apoio ao administrador ou a Catalina. Mandavam bilhetinhos de defesa veemente a um ou outra, sempre com um post scripitum: destrua depois de ler.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os componentes desse grupo, embora maior que os outros dois juntos, escondiam sua preferência. Na hora do voto decidiriam o destino de Catalina no clube, mas exigiam o voto secreto. Eram incógnita para quem não estivesse em suas pequenas rodas. Fosse qual fosse o resultado da votação, colocar-se-iam, silenciosamente, em apoio ao vencedor e fariam afagos no revoltado, solidarizando-se com este pela covardia de que fora vítima. Gente perigosa, essa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram dias de discussão. Defesas e acusações de lado a lado. Catalina na berlinda e os discursos inflamados alternando-se no púlpito. O terceiro grupo a tudo ouvia e fazia cara de que pouco ligava. Por conta da cor dos sapatos de Catalina, a produção artística da cidade estava parada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para defender ou acusar a associada os discursos partiam para a honra dos debatedores, até nomes de mães foram proferidos com pouco respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já havia uma semana de debates quando surgiram as primeiras dissidências. Artistas que só queriam saber de arte passaram a se afastar, um a um, aos pouquinhos. Catalina foi a primeira a perceber o esvaziamento gradual do Pen Club. Para evitar o fim da associação, pediu desligamento. De nada adiantou. A cor de seus sapatos já não importava, a briga persistiu por amor à briga e não ao uniforme maculado. A discussão já era sobre o lanche mal servido nas reuniões, sobre o adultério do porteiro, sobre a cor das paredes do salão de festas, enfim, qualquer coisa, menos os sapatos da poetisa já esquecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com tantas discórdias, dissidências e desistências, o clube teve suas portas cerradas, restando apenas um contista solitário e enlouquecido proferindo um interminável e raivoso discurso no púlpito empoeirado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-8337134310925992901?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/8337134310925992901/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/delirium-pen-club.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8337134310925992901'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8337134310925992901'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/delirium-pen-club.html' title='Delirium Pen Club'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-7220639616934317964</id><published>2009-01-19T19:20:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:20:51.318-03:00</updated><title type='text'>Avenida Paulista</title><content type='html'>A  de verde vai ao banco o de azul vem do dentista atropelo de gente rapazes tão jovens recém-saídos dos cueiros universitários já fantasiados de homens sérios em seus indefectíveis ternos negros indo e vindo calçadas largas acima e abaixo em casa as mães choram pelos filhos que foram à guerra das grandes corporações tatuagens da moda espalhadas das testas aos calcanhares e cabelos milimetricamente desarrumados para darem aparência de desleixo ricos de produtos químicos caros e com as marcas dos dedos dos cabeleireiros caros hippies de Mercedes é tão bom ser irresponsável e underground quando se tem em casa um pai morrendo do coração e de estresse para pagar as faturas dos cartões de crédito das farras do filho artista incompreendido gente de isopor e cérebro ainda mais leve rebeldinhos do Dante Alighieri e outras academias tais tanto faz de conta tanta fantasia mal dissimulada caras e consciências maquiladas nos salões refrigerados todos tão iguais em seus esforços de se fazerem únicos o casal homo masculino em seus jeans apertados e camisetas idem o casal homo feminino com seus penteados espetados de longas suíças e os poucos casais hétero a homossexualidade é moda e rebeldes ou medrosos são os que não aderem mentes que mentem e negam o óbvio cinemas cult livrarias abarrotadas quanta cultura quanto lixo cultural que se perde no comportamento de quem o ingere na obrigação de se mostrar culto para os amigos que foram à Europa e a Porto Seguro destinos obrigatórios para as festas inacabadas que deixam histórias a serem contadas como troféus sotaques e gostos expostos nas suas vitrines pessoais como fazem eu me arrepender de um dia ter querido atravessar o Atlântico não vejo marcas culturais profundas nos que voltam apenas cicatrizes leves a serem exibidas e mal ouvidas pelos interlocutores pobrezas de espírito atravesso as pistas mas o universo é o mesmo de feições fechadas medo absoluto de quem anda ao lado desprezo por quem anda ao lado nojo do mendigo que mendiga ao lado sob as calçadas os trens renovam as caras que entram e saem dos buracos mas mantém as características a mesma feiúra artificial de gente fabricada em série modelos de diferentes jogos emos hippies mendigos peruas drogados executivos metrossexuais clubbers intelectuais intelectualóides alienados modernos engajados sem graça eco-xiitas de apartamento e carro do ano os mesmo tipos repetidos à exaustão sob a sombra dos arranha-céus.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-7220639616934317964?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/7220639616934317964/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/avenida-paulista.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/7220639616934317964'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/7220639616934317964'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/avenida-paulista.html' title='Avenida Paulista'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-9210714686720286028</id><published>2009-01-19T19:19:00.000-03:00</published><updated>2009-01-19T19:20:04.912-03:00</updated><title type='text'>Anjos de Furgão</title><content type='html'>Era apenas mais um dia de trabalho para Barteno, embora poucos na cidade fossem dar expediente naquele dia. No final da tarde deu um beijo na mulher, fez um carinho dos três pequenos e recomendou que esses cuidassem da mãe, pegou sua bicicleta e pedalou até a pequena fábrica de cimento onde o auto-forno recém instalado não podia ser desligado. O equipamento, caríssimo, tinha que manter-se ativo vinte e quatro horas por dia. Em caso de desligamento haveria perda de componentes do equipamento, causando grande prejuízo para a fábrica e a conseqüente demissão de vários trabalhadores que atuavam em três turnos. Com uma família já grande e outro rebento por vir, não poderia sequer imaginar a possibilidade de ficar desempregado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho entre a casa e o trabalho, a noite surgindo, observa as casas mais abastadas enfeitadas de lâmpadas, músicas e cores. Ouvia a animação por detrás dos muros, as harpas soando pelas caixas de som. As ruas com seus postes e árvores enfeitados, muita luz, muito brilho, as pessoas com rostos amáveis que não mostravam no restante do ano. Algumas lojas abarrotadas de retardatários que haviam deixado para a última hora a compra de seus presentes, muitos pais de família caminhando apressados, mas felizes, com suas sacolas de mimos ou a última guloseima da ceia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvindo todo aquele burburinho que tomava a cidade que atravessa, o peito de Barteno apertava. O filho mais velho pedira uma bicicleta, a filha do meio esperava a bonequinha do anúncio da revista e o caçula sonhava com aquele caminhãozinho vermelho de bombeiros que vira na vitrine quando voltava da escola. As lágrimas vinham aos olhos do pai que desejava dar tudo aquilo, mas como? O que sobrava do parco salário era aplicado em telhas, tijolos e canos para poder ampliar o casebre nas próximas férias. A vontade era muita de presentear toda a família, além de dar o que as crianças pediam, queria também que Suleima, a esposa, pudesse vestir-se com aquele vestido de seda que ela mesma desenhara e redesenhara dezenas de vezes, sonhando em tê-lo pelo menos por uma noite. Barteno sabia que veria os sorrisos mais lindos do mundo se pudesse realizar esses desejos, por isso chorava em silêncio enquanto pedalava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram tantos os rostos sorridentes, as risadas que ouvia, as sacolas e pacotes que passavam por seus olhos que os sentimentos misturavam-se. Se alegrava com a alegria alheia, mas sentia uma pontinha de inveja, frustração de um pai sem recursos, vergonha por não poder ver aqueles mesmos sorrisos nos rostos da própria família. Ao passar diante da igreja, viu o padre e os voluntários enchendo o baú de um caminhão com milhares de brinquedos arrecadados que, provavelmente seriam distribuídos entre as crianças do orfanato ou aos moradores de alguma favela. E ficou mais triste um pouquinho. Talvez bastasse ele freqüentar as missas para que suas crianças fossem lembradas por aqueles voluntários, mas por não ver em Deus uma figura tão provedora como diziam os fiéis, se afastara Dele. Por que Deus permitia que alguns tivessem tanto e outros o mínimo ou nem isso? Deixara de acreditar na justiça divina e nas crenças da maioria. Deus nada lhe deu nem lhe daria, ele precisava suar e aspirar aquela sílica, encarar pó, calor do forno, suar em bicas, desgastar os músculos oito horas madrugada a dentro, seis dias por semana para dar o mínimo de alimentação e conforto para os seus, Deus nada tinha a ver com aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apeou da bicicleta ao chegar à fábrica, misturou as lágrimas ao suor que escorria na face, identificou-se na guarita e seguiu para o trabalho. Durante seu turno que iria das oito da noite às quatro da manhã, procuraria concentrar-se apenas no trabalho, sua ocupação e diversão. Se por um lado era um trabalho desgastante, com uma hora para descanso e um lanche de pão com manteiga e com copo de leite dados pelos patrões, por outro lado era o que permitia que o mesmo pão e o mesmo leite não faltassem em casa. Entregou-se à labuta com afinco, atenção total ao serviço para não se permitir pensar em mais nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já madrugada alta, a sirene toca. Barteno e os vinte iguais a tomam um meio banho das torneiras do pátio, apenas de calça, retiram parte do pó fino e acinzentado que cobrem todo o corpo, quase fazendo uma argamassa nos cabelos, cospem uma papa também acinzentada imaginando quanto daquela poeira fora parar em seus pulmões. Pega a bicicleta, cansado, desejando encontrar o sorriso de Suleima que sempre o esperava no portão com um copo de café. Pobre Suleima, dormia depois das crianças, acordava antes dele chegar e trabalhava o dia inteiro arrumando as crianças para a escola, fazendo o almoço, limpando a casa, mantendo suas roupas lavadas e passadas, tomando a lição de casa dos pequenos, ... Não tinha como não amar aquela mulher, tão forte, tão bonita e a amiga que qualquer homem desejaria tê-la por perto. Seu maior tesouro e estímulo para agüentar a vida dura que prometia ser assim para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As ruas ainda mostravam suas luzes, a maioria das casas já se encontrava apagada, mas em uma ou outra ainda se ouviam o vozerio dos bêbados, os filhos dos pais alcoolizados brincavam com seus presentes novos, alguns já destruídos, uma ou outra cantoria, a ambulância suas luzes e sirene apressada, provavelmente para socorrer algum bêbado que dirigia ou algum bêbado em coma alcoólica. Por todo seu caminho as ruas cheias de papéis coloridos que antes cobriam presentes. As lágrimas voltavam depois de oito horas de descanso. Sabia que ao chegar em casa receberia o beijo pontual da mulher, tomaria seu café, se banharia de verdade e cairia na cama. Ao acordar veria o rostinho triste dos filhos que choramingavam a não vinda de Papai Noel, de novo. Isso lhe rasgava o peito como uma navalha cega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao dobrar a esquina, absorto em suas tristezas, foi despertado pela buzina do caminhão, o mesmo que vira horas antes na porta da igreja. Quase batia de frente. Assustado, desviou para a direita, parou junto ao meio-fio, e ficou olhando aquele Papai Noel de aço que fizera a alegria de alguns pequenos cristãos. Se ele pelo menos fosse à igreja... Espantou os pensamentos e as lágrimas e retomou o caminho de casa, já pertinho, logo ali no próximo quarteirão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá vinha em sua direção um molequinho em sua bicicleta nova, bambaleando como bambaleiam as crianças que terminaram de aprender a pedalar. Ele pouco viu a bicicleta do garoto, o que lhe chamava a atenção e deu-lhe um calor gostoso no peito, foi aquele sorriso enorme onde faltavam dois dentinhos de leite recém caídos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pai! Pai! O Papai Noel trouxe minha bicicletinha! O Papai Noel lembrou de mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Barteno, as lágrimas agora incontroláveis, virou a cabeça e ainda viu a traseira do caminhão-baú desaparecer na esquina lá em frente. O sol ensaiava suas cores no horizonte, Suleima amarelada pelo sol, escorada no caixilho da porta, sorriso tatuado nos lábios, não trouxera seu café pontual, olhava a filha feliz com a boneca que fala e o pequenino salvando vidas com sua escada Magirus.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-9210714686720286028?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/9210714686720286028/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/anjos-de-furgo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/9210714686720286028'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/9210714686720286028'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/anjos-de-furgo.html' title='Anjos de Furgão'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-5047948402943675436</id><published>2009-01-19T19:18:00.002-03:00</published><updated>2009-01-19T19:19:23.653-03:00</updated><title type='text'>Ele ou Eu</title><content type='html'>Ah, o ciúme... Cedo ou tarde ele tenta dar as cartas entre os amantes. Para se manifestar nem precisa de sentido, razão ou motivo, apenas se mostra e espera o estrago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre Marcélio e Aradine, depois de cinco anos de casamento feliz, ele mostrou as garras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ou o Zelão ou eu!&lt;br /&gt;- Que é isso, meu bem? Diz que é brincadeira.&lt;br /&gt;- Brincadeira nada. Tô falando sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casal bonito, felicidade estampada em cada gesto a ponto de causar inveja entre os amigos e desconhecidos. Quem tinha seus relacionamentos mal parados ou os que estavam sozinhos, no caritó, criavam maledicências e fofocas com a facilidade com que limo nasce em pedras de beira rio. Para o casal perfeito era bobagem, sua felicidade é que importava. Profissionais bem sucedidos, casa própria, carro do ano... As coisinhas práticas do dia-a-dia não atrapalhavam. O ciúme tinha que surgir e surgiu para ameaçar a perfeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas, Marcinho, ele sempre esteve no meio de nós e nunca houve problema.&lt;br /&gt;- No meio de nós uma pinóia. Ele esteve esse tempo todo no seu meio.&lt;br /&gt;- Não seja grosso!&lt;br /&gt;- Ah, eu que sou grosso. Pensei que estivesse feliz com a grossura dele.&lt;br /&gt;- Que decepção. Estou casada há cinco anos com um troglodita e não sabia.&lt;br /&gt;- Desculpa, amor, mas é que não estou agüentando mais essa situação. Você só fala nele, só quer saber dele, só sente falta dele, faz propaganda dele pras suas amigas... Não tá sendo fácil sustentar a fleuma assim.&lt;br /&gt;- Você parou pra pensar no que está falando? Isso não faz sentido.&lt;br /&gt;- Vai negar que é assim? Sinto sua falta, aí lhe telefono e qual a primeira coisa que pergunta? “Como ele está?” É ou não é?&lt;br /&gt;- É?&lt;br /&gt;- É. Chego em casa morrendo de vontade de você e o que é que tenho que suportar? Primeiro dá um beijo nele e só depois fala direito comigo.&lt;br /&gt;-...- olhos arregalados de surpresa.&lt;br /&gt;- No cinema eu lhe abraço, cheio de carinho, lhe puxo pra ficarmos juntinhos e você lá, fazendo cafuné nele.&lt;br /&gt;- Mas...&lt;br /&gt;- Mas, nada! Não acabei. Diz que vai comprar roupas pra mim, mas só se preocupa com o conforto dele, se a calça dele é confortável.&lt;br /&gt;- Ma...&lt;br /&gt;- Ainda tem mais, mocinha. Ontem, quando cheguei ao restaurante onde ficamos de nos encontrar, flagrei direitinho os olhares que você dava pra ele.&lt;br /&gt;- Amor...&lt;br /&gt;- Nem vem, nem vem. Não tá dando pra segurar. Até festinha de aniversário pra ele você faz, toda de lingerie de enfermeira, salto dez, brinquedinhos eróticos... Chega! Ou ele ou eu!&lt;br /&gt;- Amor, é a você que eu amo. Como que eu vou te amar e separar vocês dois? O Zelão é a melhor parte de ti e eu o adoro..&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-5047948402943675436?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/5047948402943675436/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/ele-ou-eu.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/5047948402943675436'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/5047948402943675436'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/ele-ou-eu.html' title='Ele ou Eu'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-6099805897734987315</id><published>2009-01-19T19:18:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:18:52.362-03:00</updated><title type='text'>Em Terra Firme</title><content type='html'>Dagoberto, funcionário do Iate Clube, passava o dia limpando por dentro e por fora aqueles barcos milionários em troca de alguns vinténs. Sonhava em cruzar os mares pilotando o seu próprio, tendo a bem-amada Lucinda ao seu lado, abraçadinhos na ponte de comando, vendo o pôr-do-sol como nas propagandas de uísque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua conta bancária, sempre no vermelho, o trazia, desanimado, à realidade.A loteria estava acumulada em muitos milhões. Embora nunca jogasse, o endividado Dagoberto foi à igreja e prometeu a São Judas Tadeu que se ganhasse sozinho aquela fortuna compraria seu iate e daria cinco voltas ao mundo sem pisar em terra firme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O santo deve ter pensado “essa eu pago pra ver!” e deu a sorte grande ao lavador de barcos alheios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou cinco minutos o trabalho de convencimento de Dagoberto sobre Lucinda para que ela o acompanhasse na aventura, afinal um homem de muitos milhões não pede, manda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bordo do próprio barco, uma lancha de duas cabines e trinta pés, lá se foram oceanos a dentro. Para não quebrar a promessa, a mulher descia nos portos para contratar os serviços de recolhimento de dejetos e comprar mantimentos. Sete meses depois da partida completavam a primeira das cinco voltas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aventura chamou a atenção da imprensa, que foi a bordo do “São Judas Herói” entrevistar o agora capitão em sua primeira parada em Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grandes empresários resolveram divulgar suas empresas por meio do intrépido navegante e lotearam os anos restantes. Uma rede de hotéis, uma indústria de combustíveis, outra de material esportivo e uma de telefonia móvel revezavam-se no financiamento da viagem. Cada uma pagaria as despesas por uma volta. Dagoberto, além de não precisar mais gastar seu próprio dinheiro, ainda ganhava uma bolada a mais. Lembrava-se de seu pai, conformado com a pobreza, que vaticinava “o rio só corre pro mar”, referindo-se à facilidade que os ricos têm de duplicarem suas fortunas, enquanto os pobres dobram sua pobreza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final da segunda volta ao mundo, Lucinda aportou mostrando sua barriguinha de três meses de gravidez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando completou a terceira volta, a capital potiguar conheceu o pequeno Dagoberto Júnior no colo do pai orgulhoso e barbudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez-se a quarta volta sem novidades, mares de almirante. Nos portos estrangeiros eram recebidos como velhos amigos e mais uma grande festa na chegada à esquina do nordeste brasileiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já conhecendo os segredos dos oceanos, a última viagem não mostrou dificuldade. Navegação tranqüila mesmo quando se deparavam com uma tempestade ou encarando as vagas perigosas abaixo da Terra do Fogo. Havia somente a ansiedade de se pagar a promessa feita ao santo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por quase cinco anos Dagoberto viveu em seu barco sem conhecer os portos, as ilhas, os arrecifes ou qualquer piso sem o balanço das ondas. Por todo esse tempo honrou o que prometera e ficava feliz em fazer o que dissera ao santo que faria. Seu pai o havia ensinado a sempre cumprir com sua palavra, assim se fazem os verdadeiros homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao avistarem as terras de Natal, foram cercados por dezenas de barcos de todos os calados e tamanho, duas corvetas da Marinha de Guerra os escoltaram, no porto a banda marcial, almirantes, governador, prefeito, o arcebispo, repórteres de todos os lugares e todas as imprensas, juízes do Guiness Book, milhares de estudantes com bandeirinhas do Brasil e do estado, os patrocinadores... A cidade parara para receber a família aventureira com chuva de papel picado e serpentina. Uma festa como há muito não se via.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trapiche onde desembarcaria e por onde desfilaria estava limpo e decorado com flores e fitas verdes e amarelas. A multidão gritava seu nome e aplaudia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando pisou na esteira de madeira, sentiu a falta das marolas. Desacostumara de andar em piso que não balançava. Ao tentar dar o primeiro passo sentiu vertigem, o corpo tombou penso para o lado direito, Dagoberto procurava o equilíbrio que não vinha e, como um bêbado, despencou no mar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-6099805897734987315?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/6099805897734987315/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/em-terra-firme.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/6099805897734987315'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/6099805897734987315'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/em-terra-firme.html' title='Em Terra Firme'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-3983828032586175335</id><published>2009-01-19T19:17:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:17:59.994-03:00</updated><title type='text'>A Carta</title><content type='html'>Queridos papai e mamãe,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sandroberto de Didinha esteve por aqui no último final de semana e acho que ele entendeu tudo errado e tenho medo que conte coisas pra vocês o que não correspondem à realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sexta-feira à noite nos encontramos em uma boate, mas não é nenhum prostíbulo de luxo, como parece que ele achou que fosse. Nós, as meninas, não estávamos em roupas sumárias porque fazíamos programa, apenas estávamos fantasiadas para comemorarmos a despedida de solteira da Floriana, nossa colega de faculdade, e o dinheiro que os rapazes nos davam não era nenhum pagamento, mas, sim, a parte que lhes cabia nas despesas da festa, coisa que havíamos combinado na véspera e também sua cota para o presente dos noivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me viu ir embora com um senhor muito bonito e grisalho, mas, lhes garanto, que não era nenhum cliente. Aquele senhor é meu professor, gente muito boa que gosta de estar com os jovens, ele próprio tem espírito jovem. Vocês sabem que não gosto muito de festas, por isso já me encontrava incomodada naquele ambiente e ele, muito solícito, se ofereceu para me levar em casa.O Sandroberto, intrometido, nos seguiu e nos viu entrar em um prédio nos Jardins. Eu posso explicar. Depois que saímos da boate tive uma queda abrupta de pressão e o professor Eberval, que também é médico, me levou ao seu apartamento onde usou o tensiômetro em mim e me medicou. O remédio que ele me deu fez-me ficar mole e com sono, sem condições de ir pra república. Como é um cavalheiro, o professor me ofereceu uma cama em seu quarto de hóspede. Só tenho que agradecer por sua boa vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sábado à tarde o Sandroberto, depois de pedir meu endereço a uma das minhas colegas que se encontrava na boate, para onde ele voltou depois de nos ver entrar no prédio do professor, encontrou-se em um apartamento em Higienópolis. Quem dera eu morasse ali... Como vocês sabem, eu ainda moro no alojamento da faculdade. Aquele apartamento é de uma colega, cujo pai é muito rico, dono de uma empresa de ônibus. Eu estava ali porque havíamos combinado, eu e a Anderléia, de estudarmos para a prova que teríamos na segunda-feira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei que o Sandroberto vai dizer que conseguiu o endereço subornando um segurança da boate, mas é mentira. Ele é capaz de inventar essa história para criar uma versão mais crível para vocês. Na verdade, ele deu em cima de mim e ficou chateado quando cortei suas intenções, coisa de homem inseguro. Eu estou aqui para estudar e conseguir meu diploma, não tenho tempo para envolvimentos amorosos, ainda mais com um analfabeto como o Sandroberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele vai dizer que minhas roupas são de grife e que tenho um carro importado na garagem. É tudo parte de uma enorme mentira. Minhas roupas são apenas bonitinhas e as poucas grifes foram presentes de aniversário que minhas amigas deram, e o carro importado que ele viu é do síndico do prédio da Anderléia. Como eu disse, moro no alojamento da faculdade e lá nem tem garagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por favor, acreditem em mim e não no mentiroso do Sandroberto. Ele é um despeitado e fofoqueiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preciso ir, tens uns rapazes me esperando para estudarmos anatomia, os exames estão chegando. Noutra hora escrevo com mais tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amo vocês para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijos eternos de sua filha Cordelina.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-3983828032586175335?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/3983828032586175335/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/carta.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/3983828032586175335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/3983828032586175335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/carta.html' title='A Carta'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-4637787318096022362</id><published>2009-01-19T19:16:00.002-03:00</published><updated>2009-01-19T19:17:27.581-03:00</updated><title type='text'>A Carta - Resposta</title><content type='html'>Querida filhinha Cordelina,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por sorte nos enviou a carta alertando para as maledicências do malcriado Sandroberto de Didinha, aquele despeitado que não consegue ser promovido da função de caixa do banco. Com certeza ele tem inveja de você que vai nos dar o prazer de se formar doutora médica, enquanto ele só terá o dinheiro que você terá na hora de depositar seus honorários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanta alma boa está cercando você, filhinha, isso é um conforto pra meu coração apertadinho de mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as noites rezo para que São Benedito abra os caminhos do doutor professor Eberval. Que o santo dê a ele o dobro do que ele tem lhe dado em carinho, atenção e cuidados. Não deixe de convidá-lo a nos visitar quando você vier de férias. Faço questão de agradecer tudo que ele faz por você, minha menininha. Mas não abuse do pobre homem, importante como ele é, deve ter coisas mais urgentes para cuidar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E suas amiguinhas, que divertidas elas são. Fazer uma festa de roupas íntimas só pra agradar uma amiga. Que lindo isso! E os rapazes, que cavalheiros, cumpriram direitinho suas obrigações na divisão das despesas. Coisas assim me deixam mais tranqüila quando penso em você, sem mamãe a papai, nessa cidade grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só o Sandroberto mesmo para ver maldade nessas confraternizações inocentes e juvenis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se desgaste tanto, meu docinho, nessas viradas de noite estudando anatomia. Deus proverá! Deus proverá! Ele está vendo lá da nuvenzinha dele seus esforços e há de compensá-la com o sucesso. Toda noites rezo por isso também e chamo a atenção de Santa Luzia para que ela interceda por você junto ao Pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deve ser difícil esse negócio de anatomia. Quando me lembro que só aos quinze anos que consegui diferenciar a mão direita da mão esquerda, fico imaginando seu aperreio em saber os nomes de todos os ossos e veias do nosso corpo. Cruz, credo! É coisa demais pra minha cabeça dura. Só você mesmo, minha geniazinha, para aprender tudo isso. Deus haverá de te dar um diploma de melhor doutora dessa e de todas as terras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu paizinho está te preparando uma surpresa, mas eu não resisto e vou te contar. Se prepare que ele está resgatando os títulos que tem no banco, penhorou nossa casa e vendeu duas vaquinhas leiteiras para comprar um apartamento só pra você, assim poderá sair daquele alojamento infestado de percevejos que a universidade dispõe pra você. Nossa princesinha precisa de conforto e sossego pra continuar com seus estudos sem esses aperreios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pode ficar sossegada que Sandroberto não vai mais lhe perturbar e nem lhe seguir. Seu pai deu-lhe uma descompostura que ele nunca mais vai esquecer. Seu pai chamou ele de fofoqueiro, fuinha e maledicente, e que se ele voltasse aqui seria enxotado com os reios de dar nos burros chucros. Duvi-dê-o-dó que ele se meta a besta de novo. Mas, se ele voltar a importunar você, é só nos mandar uma cartinha que seu pai coloca a língua dele dentro da boca de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fique sempre bem na guarda de Nossa Senhora e todos os santos que convoco todas as manhãs e noites para protegê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De sua mãe Lilivandra e seu pai Marcionílio com muitos beijos e carinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S.: Segue um dinheirinho para você fazer aquele exame de Elisa que você pediu no telegrama.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-4637787318096022362?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/4637787318096022362/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/carta-resposta.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4637787318096022362'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4637787318096022362'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/carta-resposta.html' title='A Carta - Resposta'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-7247699373117459222</id><published>2009-01-19T19:16:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:16:53.647-03:00</updated><title type='text'>Arruaceiro</title><content type='html'>É verdade, sim, sinhô, seu moço. Eu fui muito ruacêro mesmo na minha juventude, o sinhô nem imagina. Mas sempre fui dereito, sim, sinhô. Era eu e meu cumpade Secundino os mais ruacêro daqui. Todo dia nós fazia arte com o povo, só de arrelia, pa deixá o povo nelvoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O povo ia pa quermesse pa mó de dá dinhêro po padre, nós ia pa mexê com as moça, mai num era quarqué moça, não, só com as que tinha namorado, só pa mó de vê o cabra ficá sortano fogo pelas venta. Daí quando ele vinha tomá sastifação, nós abraçava ele, dizia que era brincadêra e terminava ficano amigo, até tomava pinga junto pa comemorá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Secundino casô premero que eu. Ficou engraçado com a cumade Eleutéra e quetô. Eu fiquei sem amigo das pândega, mai continuamo amigo. Pu sinhô vê como eu sô dereito e num gosto de malaquiage, o cumpade Secundino mandô a fia mais véia dele estudá na capitá. Só que ela num estudava nem nada, ela virô rapariga, meu fio Quedinho que descobriu. E meu cumpadi Secundino todo babão da fia que tava fazeno escola de dentista em Salvadô. Era dotôra Valdicéia pa cá, dotôra Valdicéia pa lá, até que um dia encontrei o cumpade Secundino no correio, ele ia mandá dinhêro pa ela comprar os negoço de dotôra lá dela. Todo mês ele vendia uma vaquinha pa mó de mandá dinhêro pa fia rapariga lá dele. Eu sô dereito e num gosto de malaquiage. Contei po Secundino que a fia dele num estudava pa dotôra nem nada, era rapariga de dez conto. Ele nunca mais mandô dinhêro pa ela e nem inscreve mais carta.Isso dexô o Secundino véio. Ele tem o mesmo tanto de ano que eu, mai tá muito mais véio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu num gosto de véio. Véio tem umas mania besta. Pur exempro, o sinhô é meu fio? Não, o sinhô num é meu fio. Num sei nem quem é sua mãe, como é que o sinhô é meu fio? Se bem que uns minino estudado me disse que os cientista inventaro um jeito de tê fio sem fazê indecença com a muié. Um tal de bebê de vrido. Tem ôtro nome, mai só lembro lá desse negoço de bebê de vrido. E as minhas coisa lá é garrafa pa eu fazê bebê de vrido? Deus me deu minhas coisa pa mijá e pa fazê fio em muié, não em garrafa de vrido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apoios intão, véio tem mania de chamá todo moço mais novo de fio. Meus fio são o Quedinho, a Maluza, o Zequeu, a Diocéia, a Varmira e o Zabuco. Eu tenho ôtro fio, mai num é bem meu fio. Tinha uns tempo que toda vez que eu quiria fazê indecença minha muié Feliça inventava uns calô instranho. Num era calô nada, acho que ela tava ficano véia tomém e num quiria mais brincá, perdeu o gosto. Aí eu fui lá na casa das minina e terminei emprenhano a Saldiva, uma rapariga de lá. O minino é mais fio dela que meu. Fio de rapariga, o sinhô sabe. Hoje ele é vereadô. Fio de rapariga nunca faz nada dereito, taí o Quinzinho, virou político. Coisa de fio de rapariga. Num dá pra nada certo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Feliça, dispois que a Saldiva emprenhô, remoçô. Passô os calô lá dela e hoje ela gosta de fazê indecença de novo. O bom é que num pode mais imprenhá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É bom tê fio, mai na nossa idade, imagina se nós tivesse minino agora... Quando ele compretasse dez ano num ia mais tê pai pa brincá com ele, como é que eu ia jogá bola com ele, insiná ele a muntá no potro, insiná ele a caçá preá? Mió num tê mais fio, Deus sabe o que faz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Véio é bicho besta. O sinhô conheceu o dotô Belizaro, conheceu? Conheceu não? Num conheceu? Apois precisa de vê. O dotô Belizaro é véio, mais véio que eu. Vixe! Muito mais véio. Ele é véio, mai num sabe que é véio, pensa que é moço jovem. O sinhô já ficô muito tempo drento d’água até ficá com os dedo engiado? Já fico? Intão o sinhô pode imaginá a cara do dotô Belizaro. É mais engiada que os dedo da gente quando a gente toma banho demorado no rio, mai num é que ele deu de pintá os cabelo pretim, pretim? Todo mundo vê pela cara que ele é véio, mai o cabelo é mais preto que asa de anu. Num é isquisito isso? Coisa de velho abestalhado, só pode, né, não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fui ruacêro, mai hoje tô veio e queto, a idade tem dessas coisa...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-7247699373117459222?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/7247699373117459222/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/arruaceiro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/7247699373117459222'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/7247699373117459222'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/arruaceiro.html' title='Arruaceiro'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-1936780210156223595</id><published>2009-01-19T19:15:00.002-03:00</published><updated>2009-01-19T19:16:20.726-03:00</updated><title type='text'>O Mistério da Vida</title><content type='html'>- Por favor, sente-se. Pode ficar à vontade.&lt;br /&gt;- Obrigado.&lt;br /&gt;- Em que posso ajudá-lo?&lt;br /&gt;- É meio difícil começar. Não sei por onde.&lt;br /&gt;- Tem algo em particular que o aflige? Tem algum problema grave?&lt;br /&gt;- Não, doutor, talvez esse seja o problema, não tenho problemas.&lt;br /&gt;- O que o trouxe aqui?&lt;br /&gt;- Posso chamá-lo de Eduardo?&lt;br /&gt;- Claro, é meu nome.&lt;br /&gt;- Assim posso imaginar que converso com um amigo, fica mais fácil.&lt;br /&gt;- Me chame de Eduardo, sem problema. Mas, o que tem que ficar claro para o senhor, é que não somos amigos. Sou um especialista que pode ajudá-lo. Não que eu não queira ser seu amigo, mas, aqui, nossa relação é profissional.&lt;br /&gt;- Não se preocupe, Eduardo, não tenho complexo de exclusão. Aliás, não tenho qualquer complexo. Pelo menos que eu saiba.&lt;br /&gt;- Pelo visto o senhor conhece alguns jargões psicanalíticos...&lt;br /&gt;- Pois é, há anos venho lendo sobre filosofia, antropologia, sociologia, psicologia, religiões... Tudo para encontrar um sentido para a vida.&lt;br /&gt;- Qual a sua formação?&lt;br /&gt;- Sou arquiteto.&lt;br /&gt;- Sei, um homem das exatas.&lt;br /&gt;- Mas essa minha inquietação vem desde muito antes da faculdade.&lt;br /&gt;- O senhor acha que só terá sossego quando encontrar uma explicação lógica e racional para a existência da vida, é isso?&lt;br /&gt;- Eduardo, qual é a única certeza que temos?&lt;br /&gt;- ...&lt;br /&gt;- Vamos lá, me diga. É o que diz todo mundo e é a única certeza absoluta.&lt;br /&gt;- A morte?&lt;br /&gt;- Exato, a morte. A única certeza que temos é que cada um de nós morrerá um dia. Só que a morte é um piscar de olhos. Se a vida fosse um livro, a morte seria o ponto final. Não existe um livro sem ponto final. Um livro, para ser bom, tem que ter um enredo imprevisível. Se você souber o que vai encontrar na próxima página, o livro não tem graça.&lt;br /&gt;- E o senhor quer entender o enredo da vida.&lt;br /&gt;- Para isso eu tenho que entender por que ele foi escrito, com que intenção, entende?&lt;br /&gt;- Unrum.&lt;br /&gt;- Nessa busca de anos, encontro milhões de certezas. Cada pensador, cada filósofo e até mesmo pessoas comuns que encontro pelas ruas, todos têm certezas incontestáveis, pelo menos para si próprios. Os que não conseguem dissertar a respeito culpam Deus, o destino ou qualquer outra coisa ainda mais inexplicável que o próprio Deus. Só que cada explicação me desperta mais perguntas que respostas. São muito vazias, cheias de espaço em branco. Menos a morte. Esta é exata, mais rápida que um suspiro.&lt;br /&gt;- Tem gente que leva anos doente, em depauperação do organismo, até que a morte venha.&lt;br /&gt;- Mesmo moribundos, ainda estão vivos. Vivo, vivo, vivo... Morto. Pronto, a morte é só isso. Um suspiro. Ela é simples de entender. É o fim, simplesmente.&lt;br /&gt;- O senhor, então, não acredita em vida pós morte, reencarnação, céu, inferno... essas coisas.&lt;br /&gt;- Eduardo, a vida, que está aqui em cima, à minha frente, à volta de mim, eu não entendo, vê se vou me preocupar em entender o pós morte.&lt;br /&gt;- O senhor teria dificuldade de simplesmente viver ao invés de preocupar-se tanto em entender a morte.&lt;br /&gt;- Mas eu não sou diferente de qualquer outra pessoa nesse ponto. Jesus Cristo explicou a vida, Nietzsche explicou, Picasso, Carla Perez... Todo mundo acha que entende a vida, se convencem disso e não se questionam mais, só que eu sei que lá no fundo, no seu íntimo, apenas recusam-se a discutir, a analisarem outras ópticas. É como sofrer calado. Se preocupam apenas em levar a vida da melhor maneira dentro daquilo que acreditam ser a vida. Você também deve ser assim, todos são.&lt;br /&gt;- E o senhor diz que não tem problemas...&lt;br /&gt;- E não tenho mesmo. Tenho uma profissão que adoro, a família que qualquer homem desejaria, uma renda altamente satisfatória, projetos e obras elogiados, o carro que quero, nome respeitado... do ponto de vista simplista de encarar a vida, não tenho qualquer problema. Apenas não sei pra que tudo isso.&lt;br /&gt;- Pense assim: Milhares de pensadores, religiosos, filósofos, por milhares de anos não conseguiram desvendar esse mistério e eles só tinham tempo para isso, por que você é quem tem que decifrar esse mistério?&lt;br /&gt;- Qual é, Eduardo? Se Santos Dumont tivesse pensado assim, até hoje estaríamos viajando em lombo de burro. Mas não quero decifrar nada, apenas entender. Acabou minha hora?&lt;br /&gt;- É, acabou.&lt;br /&gt;- E quando nos vemos de novo?&lt;br /&gt;- Você tem algum compromisso agora?&lt;br /&gt;- Não tô à toa.&lt;br /&gt;- Que tal a gente terminar esse papo tomando uma cerveja?&lt;br /&gt;- Beleza! Conheço um boteco que tem um bolinho de bacalhau que é uma beleza.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-1936780210156223595?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/1936780210156223595/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/o-mistrio-da-vida.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/1936780210156223595'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/1936780210156223595'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/o-mistrio-da-vida.html' title='O Mistério da Vida'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-2727930161910649206</id><published>2009-01-19T19:15:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:15:46.873-03:00</updated><title type='text'>O Dia Em Que o Piauí Mudou o Brasil</title><content type='html'>Sem qualquer aviso prévio, o presidente convocou os ministros da infra-estrutura e das forças armadas. Ao primeiro ordenou que cercasse todo o Piauí com um muro de concreto com quatro metros de altura, cercas de arame farpado e elétrica de ambos os lados desse muro. Guaritas com condicionador de ar e banheiro a cada duzentos metros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ministro das forças armadas ordenou que fossem vigiadas todas as fronteiras terrestres, aéreas, marítimas e fluviais. Até que o muro ficasse pronto os soldados não deveriam fazer nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a movimentação de milhares de trabalhadores em volta do estado, a imprensa se alvoroçou, o Congresso Nacional virou um formigueiro e o presidente nada dizia. Refugiou-se na Granja do Torto e realizava intermináveis reuniões com donos de hotéis de todo o país, comandantes das polícias estaduais, delegados da Polícia Federal, representantes das empresas de transporte de passageiros. Nada de notas para a imprensa, sigilo absoluto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concluído o muro, mais uma reunião com o ministro das forças armadas e chefes de polícia. Mandou que esvaziassem o Piauí. Só deveriam ficar no estado funcionários públicos corruptos, políticos corruptos, motoristas que dão “caixinha” para o guarda de trânsito para evitarem multas, os guardas que recebiam a propina, assassinos, traficantes de drogas, políticos envolvidos em falcatruas, estupradores, estelionatários, agiotas, enfim, a ralé humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim foi feito. Muito pouca gente ficou naquelas terras. A grande massa de homens de bem foi retirada para todos os estados da federação. Aviões decolavam lotados de passageiros vinte e quatro horas por dia, quem tinha medo de voar era levado de barcos pelo Rio Parnaíba ou em ônibus leito. Os doentes eram transportados em UTI móveis ou UTI aéreas. Em seus destinos eram hospedados em hotéis, escolas, alojamentos dos estádios, casas de amigos, hospitais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o país já pensava em depor o presidente, sua saúde mental não estava em ordem. O Brasil não podia ficar nas mãos de um lunático. Os partidários do presidente faziam de tudo para manterem-no no cargo, embora também não entendessem o que estava acontecendo. Debates em todos os meios de comunicação, Anistia Internacional, defensores dos direitos humanos, advogados, Supremo Tribunal Federal, sindicatos patronais e de trabalhadores, embaixadas de todo o mundo, ONU, enfim, o mundo todo com um olho em Teresina e outro em Brasília.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Evacuado o estado, mais uma reunião com os comandantes das armas e os chefes de polícia de todo o país. A ordem agora era repovoar o Piauí. Os bandidos de cada grotão do Brasil, da mesma cepa daqueles que ficaram nas terras piauienses, deveriam ser levados em caminhões pau-de-arara para lá e impedidos terminantemente de sair. Aviões não entravam e nem saiam. A partir daquele momento o Piauí era o único presídio desse país, superlotado, diga-se de passagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase todos os estados ficaram sem governador, cidades sem prefeitos, pouquíssimos deputados estaduais e vereadores ficaram em suas terras, o Congresso Nacional foi praticamente esvaziado. O corpo de polícias foi reduzido drasticamente em todos os lugares, órgãos públicos ficaram sem funcionários, motoristas irresponsáveis desapareceram. O país estava quase parado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava na hora de colocar em prática a última parte do plano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os piauienses deportados ganharam as casas e empregos dos que foram enviados para o Grande Presídio. Os suplentes de parlamentares que se salvaram assumiram os cargos, em muitos lugares foram necessárias outras eleições, todas pagas com o dinheiro do bolso do candidato e a preços mínimos. Funcionários de rádios, jornais, televisões e sites assumiram as empresas na forma de cooperados, novos médicos e advogados assumiram as vagas deixadas por aqueles que foram levados para trás do grande muro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passadas as primeiras semanas, a poeira assentando, começaram a reaparecer as cadeiras nas calçadas nos fins de tarde, crianças voltaram a brincar nas ruas, o serviço público atendia as pessoas como cidadãos, os juros caíram, a inflação zerou, o PIB crescia assustadoramente, as mortes no trânsito e nos hospitais foram a patamares comparáveis aos da Suíça, o risco país veio a cinco pontos com tendência de baixa, as delegacias ficaram às moscas, celas vazias por dias e dias a ponto dos policiais prenderem bêbados com a justificativa de se manter a ordem nas ruas. Havia nascido um novo país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O presidente convocou, então, uma entrevista coletiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senhor presidente, aquelas pessoas levadas para o Piauí não morrerão de fome e doenças?&lt;br /&gt;- Por uma questão de humanidade a União fornecerá remédios e alimentos gratuitamente por um ano. Depois disso eles que produzam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém reclamou. Com a economia voando em céu de brigadeiro e a renda per capita comparável à do Japão permitiam essas despesas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senhor presidente, por que o senhor escolheu o Piauí?&lt;br /&gt;- Por ser o estado mais pobre da Federação com pessoas maravilhosas que não merecem o destino que estava traçado para elas. Terras maltratadas têm agora uma utilidade para todos os brasileiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém reclamou. Houve até quem se emocionasse com ato tão nobre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senhor, agora que o senhor cumpriu a maior missão que um governante poderia realizar, quais são seus planos futuros?&lt;br /&gt;- Vou criar porcos no sítio que o governador me deu em Buriti dos Montes.Todos aplaudiram.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-2727930161910649206?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/2727930161910649206/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/o-dia-em-que-o-piau-mudou-o-brasil.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/2727930161910649206'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/2727930161910649206'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/o-dia-em-que-o-piau-mudou-o-brasil.html' title='O Dia Em Que o Piauí Mudou o Brasil'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-8293399228170157095</id><published>2009-01-19T19:14:00.002-03:00</published><updated>2009-01-19T19:15:02.909-03:00</updated><title type='text'>Histórias Quebradas</title><content type='html'>Cedinho, antes do sol nascer, era possível ver aquelas quatro redes estendidas sob a marquise do armazém, ali, na esquina do mercado de frutas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando perto, seriam vistos os quatro velhinhos, cada qual em sua rede, dormindo tranqüilos, dois com seus óculos sobre os narizes, talvez vendo melhor seus sonhos. Os vigias das lojas velavam seu sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos primeiros barulhos das barracas sendo arrumadas, levantavam-se, cumprimentavam-se, dobravam as redes e três deles sumiam, ninguém sabia onde passavam o restante do dia. O quarto, Aristófanes, seria visto ali mesmo no armazém, sentado atrás de uma banquinha onde se lia “Jogo do Bicho”. Recolhendo as apostas, complementava a parca aposentadoria. Não sorria, não conversava. Olhos tristes e cabelos brancos, apenas sentava ali esperando a clientela. Queixo escorado nas mãos, observava o ir e vir da rua do mercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal anoitecia e as lojas fechavam, apareciam os demais. O baixinho com sua careca branca e óculos de aros dourados remendados com epóxi, Laurentino era o primeiro. Cumprimentava Aristófanes, trocavam algumas informações sobre as novidades do dia, sempre muito poucas, e dividiam o café que Laurentino trazia numa pequena garrafa térmica. Aristófanes já colocara a um canto as redes que se encarregava de guardar nos fundos do armazém, com o consentimento do dono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta das sete aparecia o espigado Wilfredo, trazendo num saquinho de papel pardo as coxinhas e pastéis que sobraram na lanchonete da esquina e que dona Laudicéia lhe presenteava. Seriam a ceia dos quatro. Não comiam enquanto Adenilton não chegasse. Vestiam-se com a sobriedade com que suas camisas puídas no colarinho permitia. As calças de tergal como há muito não se via mais nas ruas, sapatos velhos, com exceção de Adenilton que calçava uma sandália do tipo franciscana, infinitas vezes remendada com linha de pesca. Tirando Wilfredo, todos usavam chapéus de feltro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma noite um dos vigias da rua aproximou-se do grupo, curioso sobre suas vidas. Sentou-se na calçada e pôs-se a ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aristófanes falava que recebera notícias da filha por um caminhoneiro que passara. Adelice e as crianças estavam bem. O marido dela havia sido promovido a gerente do banco e moravam numa casa grande com jardins floridos. Tinham um carro do ano e viajavam para a praia nas férias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Laurentino contava que a esposa continuava sem reconhecê-lo, mas estava sendo bem tratada no asilo dos velhinhos. Tirando o Alzeheimer, mostrava uma boa disposição física, não falava muito, mas caminhava, assistia à televisão, se alimentava direitinho. Estava sempre bem vestida, penteada e cheirosa. Estava melhor tratada do que o tratamento que ele poderia dar-lhe se continuassem sozinhos na velha casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Wilfredo estivera no cemitério. Pedira algumas flores no jardim da casa do médico e os levara para comemorar o que seria o vigésimo aniversário do caçula. Depusera uma rosa sobre cada lápide. Ficara o resto do dia conversando com sua Darliseide. Insistia no pedido de perdão. Não deveria ter insistido em viajar à noite naquela estrada esburacada. Graças à sua teimosia perdera a todos, a mulher e os dois filhos, e ele próprio jamais se perdoaria, mas precisava do perdão dela e das crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adenilton nada tinha a contar. O vigia, porém, conseguiu entender que ele fora pescador. Tivera seu próprio barco, mas algo não havia dado certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali reuniam-se quatro sofredores, homens que perderam o encanto da vida, o brilho dos olhos. Quatro histórias fragmentadas que armavam suas redes sob a marquise que o destino lhes dera como refúgio para as intempéries.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espalhada a notícia pelo quarteirão,a solidariedade manifestou-se de todas as partes. Alguém lhes trouxe cobertores novos, uma senhora ofereceu-se para lavar suas redes e lhes trouxe outras. Numa noite havia sopa quente, noutra um arroz com feijão, ganharam chaves do banheiro do bar para se lavarem. Ganhavam uma enorme família dispersa pelos quarteirões em volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo tem seu fim. Ao chegar àquela sexta-feira, Laurentino não encontrou Aristófanes nem as redes. Na porta do armazém, numa folha de papel ofício, escrito a pincel atômico, lia-se “Fechado por luto”. Laurentino esperou os dois amigos e nunca mais foram vistos sob a marquise. Há quem diga que dormem no coreto da praça.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-8293399228170157095?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/8293399228170157095/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/histrias-quebradas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8293399228170157095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8293399228170157095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/histrias-quebradas.html' title='Histórias Quebradas'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-8810377228071404008</id><published>2009-01-19T19:14:00.001-03:00</published><updated>2009-01-19T19:14:29.686-03:00</updated><title type='text'>A Fuga</title><content type='html'>Astrobaldo não agüentara as pressões sucessivas no dia-a-dia de todos os lados e ainda por cima. Cobranças no trabalho, em casa e até dos amigos, de quem esperava apoio e fortaleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Partiria para o mundo, apenas a identidade e alguns trocados no bolso da calça, uma muda de roupas no saco de estopa que usaria à guisa de sacola e pernas na estrada. Por precaução, jogou um pacote de biscoitos e uma garrafa de água mineral junto com a camisa e a calça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol de derreter chumbo ardia o crânio e dentro, não o desanimaria. O cimento das calçadas irradiava o calor pelo solado do tênis, mas não evitaria que seguisse seu rumo à liberdade, à leveza de viver, para longe de tantos problemas que o cercavam e não prometiam diminuir caso se mantivesse estático, amarado, sem tomar uma atitude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao dobrar a primeira esquina um frio subiu-lhe pela espinha, quase fazendo-o travar o passo, mas não cederia, enfrentaria o carrasco que se aproximava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aonde o senhor pensa que vai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silencia como resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Primeiro, vai fazer o dever de casa, depois está liberado para jogar bola com os amiguinhos, tá bom?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Droga! Mais uma vez vencido pelo inimigo. Queria ver se seu pai continuaria mandando assim quando ele fizesse dez anos, só queria ver...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-8810377228071404008?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/8810377228071404008/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/fuga.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8810377228071404008'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/8810377228071404008'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/fuga.html' title='A Fuga'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-2730673427710643330</id><published>2009-01-19T19:13:00.000-03:00</published><updated>2009-01-19T19:14:03.073-03:00</updated><title type='text'>Eunápolis, 13 de junho de 1967</title><content type='html'>Querido Oscar, meu caro amigo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me desculpe não ter ido ao almoço de confraternização, culpa do imprevisto. Meu carro amanheceu com os quatro pneus cortados. Desconfio que foi obra do Zenóbio, meu vizinho, só porque quebrei suas telhas coloniais quando jogava bola no quintal como o Marcos Júnior. Seria tão difícil ele entender que não paguei seu prejuízo porque estou completamente sem grana?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A internação da dona Ofélia me custou uma fortuna! Tudo por causa da prepotência daquele juiz insensível. Tudo bem que fui eu quem esbarrou com ela no alto da escada. Tudo bem que não pude me conter e caí na gargalhada ao vê-la despencando escada abaixo com as pernas para cima. Mas se eles se colocassem em meu lugar veriam que o esbarrão foi casual e a gargalhada foi inevitável. Mas, não, o sem coração me fez pagar uma dinheirama de custas do processo, outra fortuna de hospital e uma terceira fortuna por danos morais e, se não pagasse, iria em cana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você, como bom e velho amigo, bem sabe que não posso ser preso de novo graças à Zenélia, aquela vaca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não podia pagar a pensão, droga! Foram só seis meses de atraso... Meu pai bem me dizia que ex-mulher é pior que cascavel em baixo do travesseiro. Expliquei a ela mil vezes que não estava em condições de pagar. A corretora de seguros não acreditou no incêndio da loja. Me dei mal. A perícia provou que o fogo não foi causado por acidente, daí fiquei sem ganha-pão, com dívidas por todos os lados, respondendo a cinco processos e a desgraçada da Zenélia não me deu uma chance. O filho de uma égua do perito também bem que poderia ter aceitado o dinheirinho que ofereci, só que o sem-mãe ainda me dedurou ao juiz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero que entenda os motivos da minha ausência, mas pretendo ir ao próximo, caso o mundo não cometa mais uma injustiça comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do sempre seu fiel amigo,&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-2730673427710643330?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/2730673427710643330/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/eunpolis-13-de-junho-de-1967.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/2730673427710643330'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/2730673427710643330'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/eunpolis-13-de-junho-de-1967.html' title='Eunápolis, 13 de junho de 1967'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-4036839096256525057</id><published>2009-01-19T19:09:00.000-03:00</published><updated>2009-01-19T19:13:18.275-03:00</updated><title type='text'>O Exame de Janilson</title><content type='html'>- Prefessô, eu quiria lhe contá uma coisa.&lt;br /&gt;- Manda, seu Jai.&lt;br /&gt;- HAHAHA!&lt;br /&gt;- Quê que foi, seu Jai? Tá rindo de quê?&lt;br /&gt;- HAHAHAHAHAHA!!!&lt;br /&gt;- Ihhh...&lt;br /&gt;- Ô, prefessô, o sinhô vai mangá de mim.&lt;br /&gt;- Vou não, mestre. Diga.&lt;br /&gt;- O sinhô cunhece o dotô Guarany, num cunhece?&lt;br /&gt;- Meu amigo.&lt;br /&gt;- Pois é, fui lá me consutá nele.&lt;br /&gt;- Tá doente, seu Jai?&lt;br /&gt;- Que nada! Fiz um muntão de inzame. Tá tudo bão cumigo.&lt;br /&gt;- E foi consultar de quê?&lt;br /&gt;- O sinhô sabe que já tô cum quase sessenta...&lt;br /&gt;- Pensei que o senhor tinha cinqüenta, cinqüenta e dois...&lt;br /&gt;- Ôxe! Eu tenho é cinqüenta e oitcho.&lt;br /&gt;- Não parece. Mas, sim, foi se consultar de quê, seu Jai?&lt;br /&gt;- O pai da minha muié tá cum cânce.&lt;br /&gt;- Poxa, que mal! E como ele está?&lt;br /&gt;- Dotô Guarany diz que num tem cura, não. O véio ta nas úrtima.&lt;br /&gt;- Se ele está sendo atendido pelo Guarany, imagino que seja câncer de próstata.&lt;br /&gt;- É isso mermo.&lt;br /&gt;- ...&lt;br /&gt;- HAHAHAHA!!!!&lt;br /&gt;- Já sei! O senhor ficou impressionado e foi fazer o exame com o Guarany.&lt;br /&gt;- E num foi?&lt;br /&gt;- E aí, tudo bem?&lt;br /&gt;- Agora tá, mas lá drento num fico nada bão, não.&lt;br /&gt;- Como é que foi?&lt;br /&gt;- Vixe, prefessô, o negoço num é bunito, não.&lt;br /&gt;- Conte aí.&lt;br /&gt;- Ele mandô eu baixá as carça até o juêio e a cueca tumém... HAHAHAHAHA!!!&lt;br /&gt;- Fala, seu Jai!&lt;br /&gt;- Aí mandô eu deitá numa mesinha de ferro cum um cochãozinho cuberto por uma tuaia de papel. Aí deitei de barriga pra riba. Eu vi ele abrí uma caixinha e tirar umas luva de prasco, daquelas de dotô. O sinhô sabe qual é, né?&lt;br /&gt;- Sei.&lt;br /&gt;- Apois intão. Ele ponhô as luva e mandô eu virá de lado. Eu virei e fiquei de frente pra ele. Aí ele disse “pá cá não, seu Jai. Fique oiando pa parede”. HAHAHAHA!!!!&lt;br /&gt;- Hehe... Fala, seu Jai. E aí?&lt;br /&gt;- Prefessô, eu fiquei cum medo, Oiei pa ele cum zoião desse tamanho! Aí ele falô pa eu num se preocupá. Ele fazia um monte daqueles inzame pur dia, que eu era inteligente de tê corage de fazê tumém que todo hôme na minha idade tinha que fazê, que meu sogro só tava naquele estado purquê num teve essa corage.&lt;br /&gt;- Aí o senhor virou.&lt;br /&gt;- Virei.&lt;br /&gt;- E daí?Ele infiô o dedo ne mim e ficô cavucano prum lado e pro ôtro.&lt;br /&gt;- Doeu?&lt;br /&gt;- Doeu não. Ele diz que passô uma pumada pa num duê. E passô mermo. Quando eu alevantei tava cum a bunda toda melada de pumada.&lt;br /&gt;- HAHAHAHA!!!&lt;br /&gt;- Aí ele tirô as luva, jogô no lixo e disse onde ficava o banhêro pr’eu me limpá. Quando saí do banhêro ele tava sentado na cadeira lá dele, mandô eu sentá na ôtra e iscreveu uns negóço num papel. Disse que eu tava bem, mas tinha mais dois inzame pá fazê.&lt;br /&gt;- O de PSI e a ultrassonografia.&lt;br /&gt;- Pois é, mas eu já tava pensando que ele ia querê infiá o dedo noutro dia.&lt;br /&gt;- Gostou seu Jai?&lt;br /&gt;- Oxe! Eu é que num ia vortá mais lá!&lt;br /&gt;- HAHAHA!&lt;br /&gt;- Aí ele me deu as guia e o endereço dos médico. O inzame de sangue num foi pobrema nium, mas o ôtro, prefessô...&lt;br /&gt;- Foi muito ruim?&lt;br /&gt;- Muitcho pior que o do dedo!&lt;br /&gt;- É mesmo?&lt;br /&gt;- Premêro que quem fez o inzame era uma dotôra muié.&lt;br /&gt;- Ah, seu Jai, pelo menos deve ter sido mais delicado que o Guarany.&lt;br /&gt;- Que nada, sô! Eu acho que ela tinha brigado com o marido. A muié é braba, prefessô!&lt;br /&gt;- Conte aí como foi.&lt;br /&gt;- Ela mandô eu baxá as carça, que nem o dotô Guarany. E a vergõia? Cumé que eu ia tirá a rôpa na frente de uma muié que eu nem cunhicia?&lt;br /&gt;- Tirou?&lt;br /&gt;- Tirei, ué. Mas tirei de costa pa ela. Quem disse que adiantô? Ela tava vendo minha bunda, prefessô.&lt;br /&gt;- HAHAHA! E aí?&lt;br /&gt;- HAHAHAHA!!!! Muitcha vergõia...&lt;br /&gt;- Começou, termina. E aí?&lt;br /&gt;- Aí ela mandô eu sentá numa cadeirona parecendo cadeira de dentista, mas mais maió. Antes ela colocô uma tuaia de papel. Aí eu sentei. Todo sem jeito. Ponhei as mão incima das parte pa ela num vê, mas ela nem oiava pa mim. Eu já mais agoniado que peru na véspra de Natal, quando entra ôtra moça. Uma minina novinha, prefessô! E o que é pio, estudô aqui na escola. Ela me cunhicia dêrde minina! Me deu vontade de me iscundê atrás da cadeira. Que vergõia, prefessô!&lt;br /&gt;- HAHAHA! E aí?&lt;br /&gt;- Aí a minina novinha sentô na mesinha do computadô e ficô batendo uns negóço lá. A mesa do computadô bem pudia ficá de costas pa cadeira que eu tava sentado, mas qual o quê! A minina nem oiava pa mim, mas eu sabia que ela pudia me vê.&lt;br /&gt;- Ela é profissional, seu Jai. Deve ter visto um monte de homens sentados lá.&lt;br /&gt;- Só que num era um monte de hôme que tava lá, não, prefessô, era eu.&lt;br /&gt;- Lá isso é. E daí?&lt;br /&gt;- Daí a dotôra mandô eu virá de lado. Eu virei e já fiquei de bunda pa ela, que nem no consutóro do doto Guarany. Daí eu sintí o dedo dela passando no meu fiofó. Nem minha muié, com quarenta ano de casada, já tinha passado o dedo no meu fiofó! O sinhô tem idéa do que é isso? HAHAHAHA!!!&lt;br /&gt;- HAHAHAHA!!! E em dois dias já tinha fila, hein, seu Jai?&lt;br /&gt;- Mai num é?&lt;br /&gt;- HAHAHAHA!!!&lt;br /&gt;- Acho que ela tava passano a mêma pumadinha que dotô Guarany passô. Aí eu pensei cumigo “pelo menos num vai duê”. Mintira, prefessô! Ela infiô um negóço muitcho maió que o dedo do dotô Guarany. E meteu cum gosto! Purisso que eu acho que ela brigô cum marido.&lt;br /&gt;- Doeu?&lt;br /&gt;- Nossasinhora! E eu sem corage de dizê pa ela que tava dueno. E ela lá, cavuca pa cá, cavuca pa lá, e eu só cunsiguia fazê “ai! Ui!”, bem baxinho pa ela num ficá cum mais raiva.&lt;br /&gt;- HAHAHAHAHA!!!!&lt;br /&gt;- A coisa num é bunita, não, sô! HAHAHA!&lt;br /&gt;- HAHAHAHAHA!!!&lt;br /&gt;- Inquanto ela mixia naquele trem, falava umas coisa, uns número pa minina nova que batia tudo no computadô. Eita, que parecia que aquilo ia durá o dia todo!&lt;br /&gt;- HAHAHAHAHAHAHA!!!&lt;br /&gt;- Num acabava nunca, e eu só “ai! Ui!”.&lt;br /&gt;- HAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!&lt;br /&gt;- Depois de um tempo sem fim, ela disse que eu pudia me vistí.&lt;br /&gt;- Aí o senhor foi ao banheiro se limpar.&lt;br /&gt;- Que banhêro? Eu vi uma porta que era do banhêro, mas ela num disse nada.&lt;br /&gt;- E o senhor não perguntou? Não pediu?&lt;br /&gt;- Com aquela cara de onça que ela tava? Eu tava cum medo dela.&lt;br /&gt;- Vestiu-se sujo mesmo?&lt;br /&gt;- E apois?&lt;br /&gt;- Nossa! Que meleca!&lt;br /&gt;- E num foi o quê.&lt;br /&gt;- HAHAHA... Coitado...&lt;br /&gt;- Ela disse que eu pudia saí e vortá manhã pa pegá o inzame.&lt;br /&gt;- Mas está tudo bem com o senhor.&lt;br /&gt;- Peraí que num acabô, não!&lt;br /&gt;- Não acabou?&lt;br /&gt;- O sinhô num sabe o pió.&lt;br /&gt;- Ainda tem pior?&lt;br /&gt;- E num tem? Quando saí da sala dela, tinha um monte de gente na sala de ispera. Eu cunhicia uns dez.&lt;br /&gt;- Iam todos cair na sonda da doutora, seu Jai.&lt;br /&gt;- Só que eu fui o premêro!&lt;br /&gt;- HAHAHAHA!!!&lt;br /&gt;- E o povo todo me oiando. Até parecia que eles tinham visto tudo.&lt;br /&gt;- HAHAHA!&lt;br /&gt;- E eu com a bunda toda melecada.&lt;br /&gt;- HAHAHAHAHAHAHAHA!!!!!&lt;br /&gt;- As banda da bunda dislisava uma na ôtra como se tivesse engraxada.&lt;br /&gt;- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!!!!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-4036839096256525057?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/4036839096256525057/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/o-exame-de-janilson.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4036839096256525057'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/4036839096256525057'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/o-exame-de-janilson.html' title='O Exame de Janilson'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2165797853740103090.post-1387353736715266588</id><published>2009-01-19T19:06:00.000-03:00</published><updated>2009-01-19T19:09:30.319-03:00</updated><title type='text'>Dois Em Um</title><content type='html'>Se havia algo a ser feito, bastava chamar o Dois em Um. Mulher prenha precisando ser levada para o hospital ou criança ofendida por cachorro? Chama o Dois em Um. Falta um braço pra descarregar o caminhão de tijolos? Chama o Dois em Um. Quem vai montar o móvel novo ou desmontar o velho para a mudança? O Dois em Um. Alguém aí sabe retirar, limpar e reinstalar o carburador? O Dois em Um sabe. Quem vai levar a carta da dona Suliva pro filho na roça? O Dois em Um leva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pau pra toda obra, disposto vinte e cinco horas por dia, Dois em Um ainda dava expediente na Ceasa carregando e descarregando caminhões em troca de alguns merréis e a xepa dos bacuris.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo dia estava lá Dois em Um desempenhando sua função quando chegou recado de seu Juvenal da farmácia. Precisava que ele levasse remédio para dona Eulália, lá no sítio dela. Longe prá burro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Dois em Um nunca recusou um favor pedido e lá se pôs em marcha, contando que desse tempo de ir e voltar antes da noite. Não que não fosse melhor de caminhar à noite. Afinal, não tinha aquele solzão pregado em dourado no céu azul. Mas é que à noite, sabe como é, sempre tem umas histórias. Medo não senhor. Prevenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram perto das quatro da tarde quando atravessou a porteira de dona Eulália. Entregou o remédio para a azia dela e bateu os calcanhares de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faltavam ainda coisa de duas léguas para chegar à cidade quando as cores do lugar começaram a esmaecer. Uma coruja piou, dando o toque de cair da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De um lado e de outro da estrada, um canavial que se perdia de vista. Com a chegada da escuridão, era como se houvesse dois muros em torno da estrada. Perto da ponte do Rio Piaba, havia um recuo, um carreador usado pelos bóias-frias para se chegar ao eito. Pelo rabo dos olhos Dois em Um notou uma luz brilhante, fazendo facho para dentro da cana. Apressou o passo até quase uma corrida, pensando tratar-se de alguém caçando por aquelas bandas, quando ouviu um uivo assustador. Um “aiiiiiiiii” prolongado, como se fosse coisa do além. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o sangue gelado nas veias, correu como nunca havia corrido antes. As luzes da cidade estavam próximas já quando ouviu o ronco de um motor por trás de si, e a mesma luz brilhante iluminou seu rosto banhado em suor encardido de barro vermelho da estrada. Não se sujou porque a assombração chamou seu nome com a voz do Juvenal da Farmácia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De dentro de seu fuscão 1500, ano 1974 e com um dos faróis apagados, Juvenal lhe ofereceu carona. Dentro, além do dono da botica, estava Marialva, puta famosa da cidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meio escabriado, pé atrás, pensou em recusar a oferta, mas seus cento e trinta quilos pediam arrego depois da carreira. Como não tinha como Dois em Um viajar no banco de trás, Marialva lhe cedeu o lugar. Carrinho apertado, calorão ainda não dissipado, a catinga de suor e medo se misturavam com a colônia de mau gosto da puta e um cheiro pior: bosta. Não bostinha cheirosa de vaca, bosta de cagaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensou em perguntar, mas o silêncio dos dois inibia qualquer conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que diabos tinha acontecido naquele canavial? Que grito tinha sido aquele? Perguntava ou não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marialva morava ali pertinho, se bem que naquele fim de mundo não havia pertinho. Só os dois dentro do carro, Dois em Um arriscou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seu Juvenal, que foi aquilo no canavial? Aquela luz e o grito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Num foi nada, esquece isso. Juvenal foi taxativo, não queria conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era pra Dois em Um esquecer, mas tem daquelas coisas que ficam encafifando a cabeça da gente que só tem paradeiro quando vem à tona. Não conseguiu dormir, rolava na cama com o facho de luz assombrando seus olhos e o grito machucando os ouvidos. Cardósia até quis brincar, mas as coisas do grandão não reagiam. Estavam assombradas também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal amanheceu, pôs-se na estrada. A Ceasa que esperasse, Marialva tinha de esclarecer aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bateu à porta da puta que, como toda puta, não tinha hora pra acordar e nem pudor pra atender à porta. Cara amassada e olheiras maiores que bolsa de feira, Marialva quase o manda de volta sem dizer palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso são horas de acordar gente trabalhadora, Dois em Um. Vá pra casa, homem, volte depois das duas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Peraí, Marialva, tem um negócio me deixando acabrunhado desde onte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E lá sou eu que vou desacabrunhar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Só você. Me diga o que aconteceu no canavial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deixe pra lá ou pergunte pro Juvenal da farmácia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele num quis dizer. Mas eu num consigo parar de pensar. Me diga você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Digo não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Só saio daqui depois que disser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Num digo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu pago uma trepada pra senhora dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Duas trepadas, uma garrafa de cana e um maço de Gaivota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fechado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se disser pro Juvenal que eu disse, eu te mato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Digo não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cruzou e descruzou os indicadores em frente aos beiços e os beijou, um sinal inquebrável de promessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quando o Juvenal fechou a farmácia, passou aqui pra nós fazer umas traquinage. Mas num queria fazer na cama, nem na rede, nem dentro do carro... Diz lá ele que queria fazer no mato, no meio das cana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois em Um ouvia, mas queria mesmo era o final da história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pedi dobrado. Imagina, com cama, lençol e banheiro, ter quer fazer no mato. Coisa de doido. Pedi dobrado e ele pagou adiantado. Aí nós fomos. Entramos no mato, ele quebrou uns pés de cana pra fazer um colchãozinho, tirou minha roupa e mandou tirar a dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em outra ocasião, Dois em Um teria se excitado com a prévia das prévias do casal. Mas a vontade de saber o acontecido desligava o resto do corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai, vai, conta logo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então. Nós dois deitados na caminha de cana, eu peguei a maçaranduba lá dele, enorme! Do jeito que ele fungava, pensei que já tivesse dura, mas tava era molenga que nem geléia. Daí ele pediu pra eu pegar nele. Quando eu disse que já tava pegando, ele disse que não. Ué, tu tá leproso, homem? Num tá sentindo não? Perguntei, daí ele baixou os olhos pra ver eu pegando. Daí soltou aquele gritão que tu ouviu, quase me deixa surda. Eu tava pegando era numa urutu-cruzeiro. Na hora que gritou, se cagou todo, eu atirei a bicha no mato, ele se jogou dentro das calças, até o cuecão ele deixou lá. Me jogou dentro do carro e disse que se eu contasse pra alguém ia queimar minha casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde esse dia, Dois em Um não presta mais serviço pra Juvenal, este é que faz tudo o que o grandão pede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Conto em parceria com o David Nóbrega&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2165797853740103090-1387353736715266588?l=contosdeum.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdeum.blogspot.com/feeds/1387353736715266588/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/dois-em-um.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/1387353736715266588'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2165797853740103090/posts/default/1387353736715266588'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdeum.blogspot.com/2009/01/dois-em-um.html' title='Dois Em Um'/><author><name>Marcos Pontes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10033405398503780321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_bE1zG1qQwJI/SqVIcj-hMcI/AAAAAAAABnI/TxOrKoJZLtk/S220/Marcos.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
