segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

De Braço Dado Com a Noite - Parte 3

Estava entregue à matilha.

Morderam, chuparam, lambuzaram, comeram e recomeram. Alternavam-se nas funções enquanto sua única função era ser passiva e obedecer Às ordens, nunca amáveis. Morde aqui, chupa ali, abre mais, fecha, vira, de ponta cabeça, esfrega, alisa, geme, grita, xinga...

Com aluguel a pagar, conta na boutique a saldar, telefone em vias de ser cortado e sem ele o trabalho sumiria, Adalgiza Bright, codinome criado inspirado na miss Brasil misturado com um cintilante inglês, sujeitava-se.

Rijos por conta da overdose de excitantes químicos, os algozes só descansaram por falta de preparo físico, facilmente denunciada pelas barrigas salientes e flácidas.

Aliviada, Adalgiza preparou-se pra abandonar sua masmorra. Tentou se levantar do carpete surrado onde havia sido abandonada como um animal surrados, mas foi impedida pela para grossa e cabeluda que a empurrou de volta ao chão.

- Calma aí, piranha. Isso é apenas nosso recreio. Te arrasta até ele.

O “ele” ao qual o outro indicava era o mastodonte dos três, sujeito enorme com barba cerrada que deixara marcas na pele fina de Adalgiza. “Ele” estava ajoelhado com um pires na mão. Dentro do pires um pó branco que ela sempre evitara provar, mas que sabia bem do que se tratava.

Tentou não ir, não se sujeitaria àquilo, mas o pontapé nas suas costelas demoveu-a do intento de rebelar-se. Naquele pardieiro fantasiado de hotel três estrelas, sabia que seus gritos por socorro não seriam atendidos. Arrastava-se devagar, pesando o que seria pior, levar uma surra pela desobediência ou correr o risco de perder a consciência depois de provar a droga.

Não chegara a uma conclusão quando viu-se puxada pelos cabelos e o rosto enfiado no pires.

- Cafunga! Cafunga, vaca! Limpa o pires!


*Esta é minha parte num conto coletivo com mais três escritores.

O Conto

Cabisbaixo, mãos nos bolsos, anda sem rumo seguindo as calçadas. Chuta latinhas e pedregulhos, à toa, madrugada a dentro. Ficara até aquela hora, duas e meia, tentando escrever o conto encomendado pelo jornal literário. Até achou que havia conseguido um tema - gêmeos que se reencontram anos depois da separação e se vêem como num espelho, mesmo gosto de vestir, mesmo corte de cabelo, mesmos gestos. Terminou caindo nos clichês e desistiu.

Fumou, tomou uma taça de vinho enquanto folheava Machado de Assis em busca de inspiração, mesmo que fosse plágio. O editor aguardava o e-mail até as oito horas da manhã seguinte, ele não poderia falhar. Mais do que a graninha que deixaria de ganhar, feriria sua reputação ainda iniciante de bom contista, jamais seria convidado por aquele grupo editorial e isso não era pouco. Quando alguém a quem todos bajulam e com quem gostariam de trabalhar, não o aceita mais, a praga se espalha e todos os demais se recusam a arriscar com um rejeitado. Ele seria o rejeitado.

Se plagiasse Machado, poderia usar do argumento, quando descoberto e desmascarado, que havia sido inconsciente, provavelmente fora traído pela memória que lhe apresentou o velho conto revestido como algo novo. Não ficaria queimado no mercado, apenas chamuscado, mas com a vantagem de que ganharia tempo para compor algo realmente original.

A idéia demorou pouco. Não se sujeitaria a algo tão desonesto e tacanha, embora, por si, a idéia já era bem original. Isso poderia dar conto.

Tentou, mas as palavras fugiam quando se sentava em frente à tela brilhosa. A idéia estava viva, sentia-a pulsar nas circunvoluções cerebrais, mas se perdiam como em um labirinto. Não desenvolvia, andava em círculos. Pegava papel e lápis e ensaiava uma tempestade cerebral: o personagem tinha que escrever um conto; adiara até a última hora desprezando os quinze dias que lhe foram dados; na véspera de enviar os escritos para o editor, a inspiração não vinha e ele se exasperava; resolvia escrever um conto sobre isso, o que para ele era uma crônica-desabafo, para os leitores seria um conto. Até aí tudo bem, mas o que acontecia depois? Nada! Não conseguia desenvolver.

A taça de vinho virou uma garrafa, o cigarrinho do descanso virou uma carteira de inquietação, a tempestade cerebral não passou de chuvinha de verão, o início da noite virava silêncio nas avenidas. Melhor tentar outra coisa. Sabia que não era um tacanha qualquer com aspirações de escritor, sabia que tinha talento, tanto que o maior editor de literatura de que tinha conhecimento lhe encomendara um conto, não seria, portanto, tão difícil encontrar um tema.

Pegou o álbum de fotografias que levava a cada mudança, entre as muitas que tivera pela vida. Imaginava que revendo os amigos de infância, os passeios de escola, as namoradas já esquecidas e casadas e descasadas, os parentes chatos em dias de Natal, os colegas do tempo de bancário... Alguma história viria a ser contada. Talvez transformasse em ficção alguma realidade desaparecida e amarelada no tempo.

Mãe e pai, a irmã Zilinha, os primos dos quais mal lembrava um ou outro nome, Tramandaí, Neve em São Joaquim, Bonito e mergulho no rio, Brasília e o primeiro porre na rodoviária, Helena e o primeiro beijo, Sara e o último sexo, Belo Horizonte e o carro capotado, dez pontos da cabeça e costelas quebradas, Salvador e o primeiro abadá, o primeiro assalto com direito a ficar nu em Maceió, Paris e a primeira francesa... Via que não tivera uma vida dura, que conhecera mundos e gentes, que fizera o que a maioria dos mortais jamais conseguiria fazer, que tivera bons pais que lhe forneceram isso tudo e mais do que merecia. As maravilhas de uma vida bem vivida não lhe davam, porém, uma única historinha para contar.

Abriu a segunda garrafa e a última carteira de cigarro. Lembrou de João Ubaldo fazendo a auto-crítica dos tempo em que bebia: bêbado escrevia coisas maravilhosas que, sóbrio no dia seguinte, concluía serem lixo. Com o tempo se esvaindo como passageiros do metrô no rush, não se queixaria de escrevesse uma das maiores porcarias literárias da humanidade, mesmo que o álcool lhe dissesse ser uma obra-prima. Prometia-se não revisar, sequer reler, desde que nascesse uma história completa.

Bebia, escrevia, relia e apagava. Ainda não estava suficientemente bêbado para desprezar a autocrítica. Na maioria das tentativas, nem autocrítica era necessário, simplesmente não conseguia desenvolver a narrativa.

Fumava e esquecia do computador, apelava para papel e caneta. Eram tantos os rabiscos, tantas as idéias mal nascidas e abortadas depois das primeira linhas que já se amontoavam ao redor do cesto as bolinhas de papel. O lápis já fora apontado incontidas vezes, resumindo-se a um toco que nada gerava.

A última taça de vinho e o último cigarro. Recusava-se a tomar café, refrigerante, chá ou qualquer coisa minimante saudável, queria maltratar-se, autoflagelação por causa da esterilidade mental. Que viesse a má inspiração alcoólica de Ubaldo, pelo menos isso. Que viesse o espírito do pior contista morto reencarnar em si, desde que tivesse algo a psicografar.

Jogou a guimba do cigarro também no cesto entulhado de papel, recolheu o casaco mal jogado no encosto da poltrona e saiu em busca de álcool e cigarros. Nunca fizera isso, mas se desse de cara com um traficante, compraria uma droga qualquer se o vendedor prometesse que ela abriria o cérebro como dizem os junkies.

Cabisbaixo, mãos nos bolsos, anda sem rumo seguindo as calçadas esperando surgir uma porta de boteco aberta àquela hora. De repente, o estalo. Veio-lhe clara e aberta a história do escritor estéril. Via como se num filme o desenrolar da história, seu final surpreendente e engraçado. Apalpa os bolsos em busca de uma caneta, o toco do lápis – precisa anotar antes que perca -, nada! Volta-se correndo em direção a casa, correndo pelo meio da rua que tem menos obstáculos que as calçadas acidentadas. Atrás de si ouve o motor acelerado e as sirenes, salta de volta para a calçada evitando o atropelamento pelo carro dos bombeiros. Recobrado do susto, retoma a corrida, repetindo mentalmente o grande final do conto ainda em gestação.

Dobra a esquina e estanca lívido. Os bombeiros atiram água na casa em labaredas altas, vítima de um cigarro aceso na lixeira.

Bolero

As sextas-feiras eram cruéis, lentas para Divanilma, as horas não passavam. O expediente da enfermeira não se acabava. Quando, por fim, o relógio marcava seis horas, era a primeira a bater o ponto de saída e correr para o ponto em que a espera pelo ônibus era uma eternidade.

Descia a duas quadras de casa e percorria a distância sem sentir nenhum cansaço nas pernas que trabalharam de um lado para outro durante todo o dia. Ao abrir a porta, o casaco já estava na mão, o sapato desafivelado era jogado em qualquer canto, da bolsa só retirava a carteira que transferia para outra bolsa menor, de alça fina e longa. Despia-se apressada em direção ao banho. O melhor xampu, o sabonete especial que não usava em dias de trabalho, não ficava bem uma enfermeira rescindindo a sândalo e amêndoas enquanto limpava urinóis e fazia curativos.

O perfume caro, metade do salário, a saia rodada e colorida com a blusa de seda vermelha passadas de véspera e deixadas sobre a cama antes de sair para o batente, a meia-calça sóbria e os sapatos de salto agulha que a deixavam mais alta, elegante e com leveza no andar, andar de modelo, como ela gostava de dizer.

Um olhar demorado e analítico no grande espelho. Nada podia estar errado, nem mesmo um fio de cabelo. Uma olhada no relógio de parede, havia tirado o de pulso, não achava elegante uma dama usar relógio em tais circunstâncias, além de não querer dar bola para o tempo depois que saísse.

Caminhava pelas ruas de paralelepípedos uma nova Divanilma, despertando olhares enquanto se dirigia para o baile de Valvido, onde dezenas de cavalheiros, já impacientes, a esperavam e dançavam com qualquer uma para que a espera fosse menos dolorosa. Cada um alimentava a esperança de que essa noite teria sorte de tirá-la para dançar.

Para consolo das rivais, nenhum conseguiria. Sabiam que Divanilma esperava o par perfeito, o homem com e para quem dançaria para o resto da vida.

Sua mesa à margem da pista estava pronta como sempre. Valvido a recebia na porta, consorte com sorte e vítima das invejas masculinas. A conduzia até a mesa, lhe puxava a cadeira e, célere, fazia sua cuba libre com mais cola e gelo que rum.

O passo seguinte era o cortejo dos dançarinos solicitando seu par, educadamente dispensado.

Naquela sexta-feira, porém, um homem novato no baile, desavisado da história de Divanilma, não temeu a dispensa já esperada pelos demais.

Paletó e calça brancos, camisa vermelha contrastando com fina gravata azul, sapatos pretos primorosamente lustrados, Ferizódio, encostado com os cotovelos no balcão, encantou-se com a morena desde que a viu entrar, braços dados com Valvido. Observando suas ancas balançantes e as batatas das pernas fortes e grossas equilibrando-se graciosamente sobre os saltos finos, Ferizódio percebeu o potencial do par perfeito para o bolero.

Com a ginga segura de quem sabe usar muito bem as pernas na pista, Ferizódio aproximou-se. Com exceção do bolero, silêncio total, dezenas de pares de olhos observavam sua aproximação, inclusive os de Divanilma. Os homens torciam para ela livrar-se do invasor ousado; as mulheres, enciumadas, não queriam ver mais um homem fisgado pelo charme passivo de Divanilma.

- Bela senhorita, Ferizódio, seu criado. Muita satisfação.Enquanto apresentava-se, tomava a mão da moça e a beijava.

- Tão bela dama dar-me-ia o prazer de acompanhar-me numa dança?

Dançaram juntos pelo resto da noite e há vinte anos continuam dançando todas as sextas-feiras no baile de Valvido.

Perdão

Vanderlânia, minha flor, aceita eu de volta.

Tu sabe que tu é única no meu viver, as outras é apenas passatempo, quero dizer, eram, acabei com todas, só tu me interessa.

O pobrema é que a carne é fraca e o diabo atenta e eu, que também sou filho de Deus, sô mais tentado ainda pelo Cão que quer os homem bom como eu no exército dele. Mas eu me arrenego a ir pro lado dele e voltei pro bom caminho, minha santa.

Salve aleluia, salve!

Pra tu e por tu eu vou fazer tudo, pra tu eu vou viver cada segundo e fazer tudo que tu quiser pra te deixar feliz. Eu capino o quintal que deve de tá uma floresta, como já prometi antes e não fiz, dessa vez eu faço; eu vou almunçar com tu na casa da tua mãe nos domingo e fazer de conta que eu adoro ela, do jeito que tu sempre quis que eu fizesse e sempre me faltou corage; prometo consertar o telhado e arresolver aquelas pingueira na cunzinha, no banheiro e no nosso quarto, mesmo correndo o risco de me estabacar lá de riba e quebrar a cabeça; vou consertar as perna da cama das criança, mesmo sabendo que sou ruim de martelo e arriscar perder a cabeça do dedão numa martelada errada; garanto a você que acordo cedinho todos os dia, preparo o café e levo as menina pra escola; juro que vou te levar pra praia todo final de semana que não chuver e a gente nem vamos levar a farofa de carne de sol e a galinha assada. Tu vai comer é aqueles camarão grandão e o peixe frito dos bom que eles vende lá; vou trabaiá de sol a sol, final de semana e feriado pra nunca faltar nada pra tu e pras nossas filhas.

Se eu esqueci de prometer alguma coisa pra te fazer feliz, pode me alembrar que eu prometo tomém. Tudo o que tu quiser, minha nega.

Prometo até ir com tu pros culto da igreja e tratar o pastor com todo o respeito e cortesia. Vou pras festa da igreja, seguro o estandarte, aprendo os hinos e todas as oração, participo do coral... Faço todas as obrigação e ainda pago o dízimo, tudo por tu, muié que amo mais que tudo no mundo.

Mas eu vou poder tomar uma cervejinha com os amigo de vez inquando, vou não? Prometo que num vai ter niuma muié com nós, só os homem, nada de muié!

Sei não, alguma coisa me diz que tu num vai aceitar isso, num vai creditar nim eu...

Quer saber? Esquece tudo que prometi. Quero voltar mais não. Vou ficar sozinho mesmo, sem tuas aporrinhação no pé das minha zureia o dia todo, todo dia.

Fica com Deus e seja muito feliz. Dá um beijo nas criança e diz que eu amo elas.

Daquele que foi teu um dia, Brenolivaldo.

O Preço

Àquela hora da madrugada o passeio era desaconselhável, mas a caminhada era inevitável. O último navio havia sido carregado para seguir rumo ao nascer do dia, a ele, Ademar, não havia alternativa, recebia ordens e as cumpria da melhor forma, seu pão e leite dependiam disso. Se o navio precisava receber a carga, ele e os demais trapicheiros, o faziam, fosse de dia ou tarde da noite, isso pouco contava, o que importava era o dinheirinho aquecendo a algibeira.

Fora o último a se desocupar, os companheiros já haviam saído depois de receber a féria do dia e talvez se encontrassem em algum mafuá tomando cachaça e passando as mãos nas putas. Ademar tinha uma missão a mais, desligar os guindastes, entregar as chaves ao preposto das docas e passar no escritório para receber o dinheiro acumulado em dois dias diretos de muito suor e pouca água.

O silêncio do cais só era arranhado pelo marulho batendo no muro de arrimo. Por economia e falta de necessidade, poucas lâmpadas iluminavam o pátio; o vento, ao balançar as lâmpadas incandescentes e amarelas, provocava estranheza.

Desde que o corpo de Amarildo foi encontrado entre containeres no dia seguinte ao pagamento, sem um tostão nos bolsos e a garganta cortada de lado a lado, o medo tem feito a turma sair junta, uns zelando pelos outros. Nessa noite, porém, o cansaço coletivo não permitiu que os demais esperassem por ele.

Ouvia o eco de seus sapatos vindo dos caixotes enormes, das paredes, nos cascos altos dos navios em espera. Nenhum outro som que seus ouvidos assustados e atentos tentavam encontrar soltos no ar da quase madrugada. No máximo um chiado de rato ou uma pequena peça, um pedaço de metal, um porrete improvisado de madeira se arrastando, provavelmente pelos mesmos ratos.

Tentou andar mais rápido, sair dali acelerado, mas a reverberação das pisadas se confundia com os demais sons que pudessem surgir, não poderia ouvir o inimigo de punhal que esperava por ele e seu suado pagamento. Reduziu o ritmo das passadas, alargando os passos. Se alguém o visse caminhando assim, imaginaria que contava o tamanho do caminho que percorria. Ninguém o observava, tinha certeza, nem mesmo o ladrão. Estava assustando-se à toa.

Súbito frio na espinha e estancar das pernas ao ver surgirem duas bolinhas verdes piscantes por detrás de uma caixa de ripas. Apenas os olhos de um gato em busca de comida e diversão refletindo as luzes que vinham das costas de Ademar. Entre dentes, para não se assustar ainda mais, xingou o gato, “vai assustar a mãe!”. Respirou fundo de alívio e tensão. Voltou à caminhada medida e larga.

Já olhava o portão que permitiria sua passagem para a rua. Longe, mais longe do que nunca esteve. Apressava o passo novamente ou se tranqüilizava esperando o portão se aproximar em seu próprio ritmo?

Evitava olhar para os lados, medo de ver o que não queria. Qualquer sombra poderia ser confundida com o bandido que o cercava. E se este serzinho desprezível e odioso aparecesse à sua frente, punhal em punho, ou seria uma peixeira?, o que faria? Entregava tudo e se fingia de morto?, se acovardaria?, enfrentaria o sujeito com a força de suas mãos calejadas e fortes?. Era forte, mas nunca brigara na vida, não teria chance com as mãos desarmadas, ainda mais contra um assassino sem qualquer hesitação ou escrúpulo. À direita, sob a empilhadeira, viu um pedaço de vergalhão (como essas coisas iam parar no pátio das docas? Sempre se perguntava isso quando encontrava algo que não combinasse com o cenário). Desviou-se da rota, ajoelhou-se ao lado da máquina e esticou o braço para pegar sua arma improvisada. Ao pegar o metal, a vista desviou-se para as botas do outro lado do veículo. Dois pés, tudo o que via, parados de frente para si, como se o olhando nos olhos. Serpentes negras de olho na vítima.

Esqueceu-se do vergalhão, soltou um grito de socorro e saiu em carreira com seus mais de cem quilos em direção ao portão que teimava em afastar-se.

Sentia o quente da urina descer pelas pernas enquanto corria, ou tentava, gritava como uma menininha que via uma aranha em sua casinha de bonecas, não tinha tempo de envergonhar-se, apenas corria e gritava. Pensava passar pelo portão como um centro avante que dribla o beque, bateu o ombro, rodopiou sobre o próprio eixo vertical estatelando-se na calçada. O ombro doía, tentou apoiar-se nesse braço para se levantar e continuar a corrida até o boteco onde imaginava que se encontravam os colegas. A dor aumentou, a força não veio, bateu a cara no cimento. Já imaginava o algoz a poucos metros, tentava arrastar-se como um soldado sob arames farpados com a ajuda de um único braço, era muito peso para um só braço. A eternidade se resumia naqueles poucos segundos. A voz já não saía, garganta seca, pulmões ardendo.

Sentiu a pisada forte nas costas empurrando-o de volta ao solo. Na nuca o frio da ponta de uma faca que imaginava brilhante sob a luz do poste. Ninguém o salvaria? Onde estavam os vigias? Fez força com o braço bom para tentar levantar-se, mas a pisada o imobilizava. Morreria como um porco no punhal do magarefe?

“Pai nosso que estais no céu...”, baixinho pedia proteção. O pé que o continha foi substituído pelo joelho e uma voz rouca, num sussurro, acompanhada por um bafo de cigarro barato, ao pé do seu ouvido:

- O dinheiro.

A resposta num filete sem força:
- No-no bolso.
- Pega.
- Que-brei-o-bra-bra-ço.
-Pega!, percebia que a voz vinha com raiva.

A careta de dor foi inevitável. Via sua única chance de sair com vida dando o dinheiro que penara para ganhar. Não era pouco, pelo menos para seu padrão de fortuna. Dois dias inteiro de trabalho, quatorze horas seguidas em cada dia. Tentava controlar os movimentos limitados pela dor. As pontas dos dedos já tocavam as cédulas quando sentiu o corpo do bandido cair pesado, inteiro sobre o seu, sufocando-o. Veio o alívio de sentir o corpo sendo retirado de sobre o seu. Vira de barriga para cima e vê seus companheiros atirando o corpo como faziam com os fardos de algodão nos porões dos navios. O baque surdo do bandido inerte na calçada.

Com um pedaço de madeira numa das mãos, Olivério lhe esticava a outra como auxílio para levantar-se. Seis estivadores formavam um semicírculo com ele e o corpo desmaiado no centro.

Levantou-se com a ajuda de dois deles. Antes, porém, de mostrar sua gratidão ou mesmo odiar aquele que o mataria, recebeu de Olivério a sentença inesperada:

- Tua vida custa mais do que você ganhou hoje. Passa pra gente.

Despedida

Dorinha, faz essa cara de pena, não. Não careço de pena. Vivi o que pude viver e não foi mais pior nem melhor do que a vida dos que vivem bem desde a nascença. Cada um tem sua cruz, amiga, ou muitas cruzes, e eu tive as minhas. A vida me escolheu, depois, escolhi a vida.

Se a vida levou minha mãe quando nasci e meu pai pelas estradas antes d’eu nascer e, mesmo me deixando sozinha, sem leite e sem banho, ela não quis me levar, estava dizendo que, já que eu fiquei, vivesse tudo o que tinha que viver. E vivi, Dorinha.

Não levo nada e nem deixo qualquer coisa pra ninguém, mal tive pra mim, pra meu sustento roto, como deixar algo para os outros? Bem que eu gostaria de ter uma casa, jóias caras, uma terrinha, um bangalô na praia... Nada disso pro meu luxo, mas pra deixar algo bom pra você, amiga, que me deu comida, teto e carinho nesses últimos tempos, tempo mais ruim que todos os tempos ruins que já vivi. Deixar alguma coisa de boa para Philóphio, coitado do Philóphio, vinte anos de cadeia pra me salvar do capiroto do Alesso. Se não fosse Philóphio chegar com a peixeira, Alesso tinha me matado, tudo por causa dos dez reais que ele não quis pagar pela trepada. Nunca mais fode ninguém! Mas fodeu com a vida do pobre Philóphio por vinte anos. Pobre Philóphio...

Queria deixar algo bom pra Zineide também. A melhor amiga que eu poderia ter naqueles tempos. Não sei o que é ter mãe, mas sei o que é ser mãe, mesmo sem saber quem era o pai do meu filho que a morte não deixou nascer. Eu era bonita, Dorinha, os homens babavam para as minhas coxas, pra minha bunda, pros meus peitos grandes e duros. Eu não podia perder a chance de ganhar dinheiro com a única coisa que eu tinha. Não fazia gosto ruim, foram muitos homens, de toda cor, cheiro, gosto. Se pagasse, eu ia, e fui muito. Ganhei uma fortuna naqueles tempos. Mas Deus não gosta de mim, Dorinha. Bem que ele poderia me dizer por causa de quê me tratou como bastarda.

Justo quando eu estava podendo cuidar de mim, dinheiro no banco, roupas novas e bonitas, casa pra morar, de um lado ganhei um filho, de outro, a doença. Daria tudo se morresse eu e ficasse meu filhinho que nem nasceu. E a Zineide foi quem me deixou viva.

Eu tinha jurado pra ela: Zineide, não quero mais ser rameira. Se Deus me curar e salvar meu filho, saio da vida, arrumo um emprego e vou viver pra ele. Deus levou meu bebê e quem me salvou foram os remédios que a Zineide comprava com o dinheiro que ela tinha pra comer, depois de eu ter gastado tudo com os médicos e laboratórios. Deus não fez a parte dele, eu não tinha que fazer a minha.

Agora vem essa outra, sem cura e sem jeito. Pra quê tanto remédio se não se pode matar a bicha? Vou tomar nenhum! Não vou mais dar dinheiro pra médico, nem pra farmacêutico, nem pra laboratório. Nem o meu, nem o seu! E não vou mais acordar de madrugada para entrar na fila sem fim da previdência. Se não há cura, pra quê sacrifício?

Tenha dó não, Dorinha. Já sou uma velha nesses meus trinta e dois anos. Não vê as rugas na cara? As da alma são mais fundas. Eu morri em vida, amiga. Se há pecado, tenho crédito, muito crédito. Sofri mais do que pequei. Eu mereço o céu.

Mas não quero ir pra cantar hosanas e passear de mãos dadas com os anjinhos – entre eles deve estar o meu que não nasceu -, quero ir para encarar Deus nos olhos e exigir que me responda por que me odiou tanto.

Piroga e Tiririca

Na liberdade da infância, Iraquitã e Belson eram donos do domingo. Acostumados com a mata e os animais não temiam os perigos.

No pequeno distrito de Parintins, onde moravam, eram donos e reis, como cada curumim e cunhataí tinham seu próprio reino.

De manhã cedinho pegaram a piroga que não iria à pesca com seus pais e se aventuraram, anzóis e zagaias a bordo, para o grande rio. Já se achavam homens em seus dez anos. Os igarapés já não lhes tinham mistérios. Mas os segredos do pará ainda eram segredos para eles. As ondas altas naturais e as marolas dos rastros das catraias ainda não conheciam.

Ambos tremeram de receio, não sabiam o que era medo, ao chegarem ao meio do rio e perceberem que a água que entrava rápido exigia grande esforço e velocidade nos braços para ser retirada, mas não passariam por fracos e nada disseram de sua caruara uma para o outro.

A terceira vaga encheu a canoa e suas providências não deram conta para evitar o naufrágio.

- Nada, Belson, nada!

O instinto os guiava, antes que as palavras combinassem, em direção à praia de onde partiram, mas não conheciam os segredos da correnteza. Mais de três quilômetros da margem, as águas os levando rumo ao mar que não conheciam senão do Atlas Escolar milhares de outros quilômetros adiante, e teimavam em voltar ao ponto de partida.

Por quarenta minutos nadavam lado a lado, mas o mar doce os separou numa braçada de Iara.

Iraquitã desviava dos troncos que vinham boiando sabe-se lá de onde, tentava avisar o amigo, mas a voz não saía; tentava avistá-lo, mas as paredes de água que se alternavam não permitiam. Agora, admitia, estava com medo, medo de nunca mais ver Belson, nome dado em gratidão ao missionário canadense que ajudara sua mãe no parto. As lágrimas de Iraquitã aumentavam o volume do rio.

Precisava chegar à margem, à vila e avisar aos adultos para procurarem o amigo, mesmo que isso lhe custasse uma surra de cipó.

As forças vieram do fundo d’alma. Remava seu corpo desengonçado com toda a força que seus braços finos permitiam. Imaginava seus pés serem nadadeiras de cauda do tucunaré e nadava, nadava, lágrimas juntando-se às águas do pará, nadava, nadava...

Muito tempo se passou até alcançar as tiriricas da beira-rio. Não havia tempo para descansar, todo o corpo, porém, exigia. Tentou levantar-se, as pernas se negavam. Nas tentativas frustradas de ir em frente desmaiou e, postado sobre aquelas folhas que pareciam navalhas quando molhadas, ficou desacordado.

Sonhava com o amigo perdido nas águas que amava, nas águas que lhe davam o peixe e as brincadeiras. Não havia mais nada a fazer senão entregar-se à inconsciência, por mais que pelejasse contra.

Acordou com a mão suave lhe arrumando os cabelos pretos e lisos. Suas pálpebras pesavam mais que um cacho de pupunha, mas conseguiu abri-los e viu que já era noite. As dezenas de vaga-lumes aproximavam-se e viravam lamparinas. A mão que o afagava e o colo que o abrigava eram de dona Jussara, mãe de Belson.

Olhando os olhos negros de Jussara, mais escuro por falta de estrelas no céu negro de nuvens, chorou e pediu desculpas. Os aldeões se aproximavam. Uma lamparina se destacou das demais e veio rápido, à velocidade de uma carreira de menino.

Belson entregou a lamparina para a mãe e abraçou o amigo que já tinha como morto.