Tornou-se um par ímpar, diferente em quase tudo. Suas vidas intercederam-se quando, num desses encontros inexplicáveis da vida, se bateram em frente a uma estante de poesias na livraria do bairro.
Ele procurava Vinícius por paixão pela poesia do Poetinha, ela procurava em Vinícius uma companhia para as madrugadas insones.
Bearrice não dormia havia anos. Não era uma doença, somente uma companheira constante. Simplesmente não dormia. Gastava as horas lendo ou escrevendo. Não sentia cansaço, fadiga e nem mau humor. Apenas não dormia.
Lembrava que seu último sono longo fora há dois anos quando abrasava uma paixão feliz e incontrolável por Zenildo. Foi um amor de meses que se acabou com a transferência do rapaz para Santarém. Com seu próprio negócio e uma vida cheia de compromissos, ela não pôde acompanhá-lo e as noites acordadas voltaram.
Foi aí que percebeu que por toda a vida só dormira bem quando estava feliz.
Com Mateneu ocorria o oposto, dormia quando bem queria. Com vida solitária, sem amante ou grandes paixões, dormia para livrar-se dos dias vazios. Na leitura e nos sonhos vivia aventuras, romances correspondidos e completos. Seu dia se resumia às oito horas de trabalho e às obrigações chatas da vida de adulto. Cumpridos os compromissos, se atirava na cama com um livro e lia até o sono chegar. E sonhava com o que lera. Já fora D’Artagnan, Quixote, Eduardo Marciano, Macunaíma, Vadinho... Acordado era apenas mais um bedel da prefeitura. Os sonhos eram mais divertidos.
Aquele último Vinícius na prateleira encarregou-se de provocar o encontro com que ambos fantasiavam encontrar.
Cavalheirescamente, ele ofereceu à loira Bearrice a prioridade da compra. Ela, já com todos os demais livros do velho Vina na prateleira, insistiu para que ele levasse aquele. Enquanto discutiam quem ficaria com o livro, sentaram-se para um cafezinho, ali mesmo, na livraria. Aos poucos a conversa foi tomando outros rumos, suas próprias vidas, nomes, afazeres... Essas conversas próprias de quem acaba de se conhecer e que não deseja a separação breve.
Quando receberam o aviso do funcionário que a livraria estava fechando, perceberam o quanto conversaram. Era hora da decisão. Ele ganhou. Bearrice ficaria com o livro e, depois de lê-lo, o emprestaria a Mateneu. Trocaram os números de telefones com o compromisso de um novo cafezinho logo, logo.
Cada um para seu lado e um gostinho bom durante a insônia dela e as viagens noturnas dele.
Aquela madrugada ela atravessou folheando a lista telefônica, número por número, em busca do endereço do rapaz. Ele dormia com ela entre nuvens.
Nas primeiras horas da manhã ele recebeu das mãos de um estafeta o livro em embrulho colorido e dedicatória singela. Para retribuir o carinho e o presente, sem saber qual dos dois fora mais tocante, retirou do bolso o papelzinho em que anotara o nome da loura e a convidou para um jantar.
Mais uma despedida difícil à noite. A comida foi detalhe que degustaram aos pouquinhos para que não houvesse fim, não o jantar, mas a companhia. Falaram de suas vidas sem omitir detalhes, um queria que o outro soubesse tudo a seu respeito e queria saber tudo do outro. Muito foi dito, tudo foi ouvido e as horas passavam.
Alta madrugada foram novamente enxotados pelo último funcionário.
A vontade de não se separarem foi maior que a timidez e a pudicícia. Ela tomou a iniciativa e o convidou para irem à sua casa. Não houve titubeação, a resposta veio rápida.
Desde aquela noite, na mesma cama, ela dorme como uma criança, sorriso nos lábios e ele atravessa as noites velando para que a felicidade não acabe.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Bozó
Cinco filhos e uma mulher, um barraco precisando de reformas antes que caíssem os caibros nas cabeças da família, Jairino se virava para colocar pão na mesa e os apetrechos da escola da meninada, duas coisas para as quais não relaxava.
Fez da sala de estar um botequinho onde só cabia o balcão entre ele as prateleiras lotadas de garrafas de cachaça, umas puras, outras temperadas, e os clientes que se aboletavam nos quatro bancos de pernas altas.
Num bairro pobre de uma cidade pobre, o boteco é o parque de diversão dos adultos, barato e de onde todos saem com a sensação de que não existem problemas, rindo ou chorando à toa, amando ou odiando mais suas mulheres conformadas.
A féria era dividida em três partes. Uma para a alimentação, outra para as demais necessidades da molecada e a terceira, o capital de giro que aplicava aos pouquinhos na birosca.
Já conseguira comprar duas mesas que se espalhavam com banquinhos na calçada, por falta de espaço dentro, e já ensaiava a compra de uma geladeira. Se a cachaça dava um lucro considerável, a cerveja incrementaria os negócios. Abrira uma porta nos fundos que dava direto na cozinha e de onde vinha um tira-gosto de carne assada aumentada com muita farinha. Fazia volume e economizava dinheiro na enganação.
Volta e meia aparecia um espertinho com um baralho e montava-se um jogo para tirar os níqueis dos incautos bêbados ansiosos por um dinheirinho extra. Jairino observava as táticas e técnicas do espertalhão, como ele fazia para viciar o carteado, como alguns vinham com um parceiro que fingia ser desconhecido; não deixava de notar um “peru”, como chamavam os assistentes que davam pitaco no jogo de fora da mesa e o que menos falava usava óculos de lentes espelhadas e se punha atrás do adversário do dono do baralho.
Normalmente esses jogos terminavam em bate boca e confusão, hora em que Jairino desmanchava a mesa e fechava o bar antes que uma peixeira saísse da cintura de um mais afoito. O dono do baralho, sempre saía com a algibeira cheia e sorriso na cara.
Em outras oportunidades, surgia um dominó nas mãos de dois amigos que jogavam sozinhos e se divertiam, atraindo aos poucos a curiosidade dos demais. Não demorava, havia fila para jogar. Invariavelmente os dois primeiros jamais eram derrotados, causando inveja e desconfiança dos demais que montavam suas duplas, discutiam estratégias e, mesmo assim, perdiam seus trocados nas apostas.
Para não chamar atenção demasiada, os embusteiros se deixavam derrotar de vez em quando, tomavam um refresco e esperavam a oportunidade de voltarem à mesa para continuar a exploração dos adversários embriagados.
Jairino percebia os sinais, como sutis coçadas de nariz, pigarros, ajeitadas diferentes na aba do chapéu. Mas, como os barbeiros e médicos, guardava segredo, quem quisesse se deixar enganar, que arcasse com os prejuízos, a ele só cabia o lucro da venda das bebidas e tira-gostos de mais farinha e pouca carne.
Pela satisfação dos desonestos, o botequeiro passou a imaginar uma maneira de, ele também, se dar bem com tramóias inocentes. Ninguém chamava ninguém para jogar, a usura e a necessidade de dinheiro se encarregavam de levar os abestalhados a se arriscarem num jogo que não dominavam. Jairino passava horas por dia matutando o que poderia fazer de diferente para também montar sua banca de jogos. Nada de baralho, teria que contar com um cúmplice, ou dominó.
Na feira, onde ia aos sábados de manhã comprar carne barata e cachaça baldeada, viu um grupo de estivadores numa rodinha, gritando, sorrindo e apostando. Aproximou-se, curioso, sabendo, por instinto, que ali havia uma jogatina. Jogavam dados. Dados comuns, cada um apostando em um número. Ganhava toda a bolada quem acertava. Era um jogo rápido, portanto as apostas eram pequenas, coisas de centavos. Essa alta rotatividade lhe interessava. Talvez fosse o jogo que procurava. Não foi difícil encontrar uma biboca onde se vendessem dados e o bozó. Só faltava uma estratégia para nunca perder.
Naquela tarde o boteco lotou. Faltou mesa e alguém providenciou caixotes de madeira que foram usados como mesas e tamboretes. No meio de alguma discussão sobre mulher, futebol ou política, alguém mais nervozinho dava um tapa na madeira, esquecendo-se que não era uma mesa das mais sólidas e os copos de cana se espalhavam. Estava ali o que Jairino procurava!
No dia seguinte, sozinho, no meio da tarde, poucos clientes no bar, como quem não quer nada Jairino pegou os caixotes, montou sua banca e passou a jogar os dados. Com carvão desenhou doze quadrados e enumerou cada um, em ordem crescente, a partir do número 1. Punha uma pedrinha em determinado número, aleatoriamente, e despejava o bozó. Conferia os números sorteados com sua aposta, quase sempre errando. O filho, vendo aquilo, confirmou que o pai tinha apenas uma possibilidade, em doze, de acertar, menos de dez por cento. O que significava boa margem de lucro, se doze apostadores de espalhassem nas apostas.
Não demorou a se aproximar o primeiro curioso. Jairino explicou que estava se divertindo sozinho, por falta de companheiro para jogar. Que não fosse por isso, os clientes apostariam. Levava a bolada quem acertasse o número.
- Peraí! Assim, não! – Jairino ditou as regras – Se ninguém acertar, eu fico com tudo. Quem acertar leva o dobro do que apostou. Se ninguém acertar, eu fico com tudo!
Os outros fizeram as contas. Só valeria a pena se todos os quadradinhos estivessem cobertos por apostas. Juntaram-se doze homens rapidinho em volta dos caixotes. Todos fazendo suas apostas.
Sempre alguém ganhava e Jairino apenas jogava os dados, nenhum lucro. A turma bebia, ganhava e perdia, os vencedores gozando dos outros, os perdedores aguardando sua sorte. Jairino apenas jogava os dados.
A assistência já bêbada, o botequeiro balança o copinho de couro, chama pelas apostas, e coloca o bozó sobre o caixote.
- Casem o dinheiro! Casem o dinheiro!
Todos colocaram suas moedas nos devidos quadradinhos.
- Tá casado?
E o “sim” coletivo.
- Ninguém mexe nos dados. Vou mijar e já volto. Ainda tá em tempo de mudar, quem quiser.
Dito isso, saiu pelas portas dos fundos e ficou espiando pela fresta das madeiras da parede.
Urozimbo, não se contendo, levantou o bozó e olhou os dados: 8. Com o dedo indicador em riste diante dos lábios, pedia silêncio aos comparsas. Retirou a moeda que havia depositado no 10, juntou mais algumas a ela e colocou todas no quadradinho do 8. Os demais, para não saírem perdendo num jogo que já sabiam perdido, fizeram o mesmo. Todas as moedas e as primeiras cédulas, todas sobre o número 8. Gente que nem estava apostando se juntou ao grupo. Mais e mais dinheiro, uma pilha considerável. Só se preocupavam com uma coisa: Onde Jairino iria arrumar dinheiro para pagar o dobro de todas aquelas apostas.
Dinheiro casado, silêncio de sociedade entre os parceiros, aguardaram ansiosos a volta de Jairino. Este entra fechando o zíper da calça como se tivesse acabado de sair do banheiro.
- Tá casado?
O “sim” coletivo veio mais alto e mais animado.
- Ninguém quer mudar?
- Não!
Com um tapa no caixote, que fez os dados se revirarem sob o copo, Jairino gritou enquanto agia:
- Vou abrir!
Deu 3.
Fez da sala de estar um botequinho onde só cabia o balcão entre ele as prateleiras lotadas de garrafas de cachaça, umas puras, outras temperadas, e os clientes que se aboletavam nos quatro bancos de pernas altas.
Num bairro pobre de uma cidade pobre, o boteco é o parque de diversão dos adultos, barato e de onde todos saem com a sensação de que não existem problemas, rindo ou chorando à toa, amando ou odiando mais suas mulheres conformadas.
A féria era dividida em três partes. Uma para a alimentação, outra para as demais necessidades da molecada e a terceira, o capital de giro que aplicava aos pouquinhos na birosca.
Já conseguira comprar duas mesas que se espalhavam com banquinhos na calçada, por falta de espaço dentro, e já ensaiava a compra de uma geladeira. Se a cachaça dava um lucro considerável, a cerveja incrementaria os negócios. Abrira uma porta nos fundos que dava direto na cozinha e de onde vinha um tira-gosto de carne assada aumentada com muita farinha. Fazia volume e economizava dinheiro na enganação.
Volta e meia aparecia um espertinho com um baralho e montava-se um jogo para tirar os níqueis dos incautos bêbados ansiosos por um dinheirinho extra. Jairino observava as táticas e técnicas do espertalhão, como ele fazia para viciar o carteado, como alguns vinham com um parceiro que fingia ser desconhecido; não deixava de notar um “peru”, como chamavam os assistentes que davam pitaco no jogo de fora da mesa e o que menos falava usava óculos de lentes espelhadas e se punha atrás do adversário do dono do baralho.
Normalmente esses jogos terminavam em bate boca e confusão, hora em que Jairino desmanchava a mesa e fechava o bar antes que uma peixeira saísse da cintura de um mais afoito. O dono do baralho, sempre saía com a algibeira cheia e sorriso na cara.
Em outras oportunidades, surgia um dominó nas mãos de dois amigos que jogavam sozinhos e se divertiam, atraindo aos poucos a curiosidade dos demais. Não demorava, havia fila para jogar. Invariavelmente os dois primeiros jamais eram derrotados, causando inveja e desconfiança dos demais que montavam suas duplas, discutiam estratégias e, mesmo assim, perdiam seus trocados nas apostas.
Para não chamar atenção demasiada, os embusteiros se deixavam derrotar de vez em quando, tomavam um refresco e esperavam a oportunidade de voltarem à mesa para continuar a exploração dos adversários embriagados.
Jairino percebia os sinais, como sutis coçadas de nariz, pigarros, ajeitadas diferentes na aba do chapéu. Mas, como os barbeiros e médicos, guardava segredo, quem quisesse se deixar enganar, que arcasse com os prejuízos, a ele só cabia o lucro da venda das bebidas e tira-gostos de mais farinha e pouca carne.
Pela satisfação dos desonestos, o botequeiro passou a imaginar uma maneira de, ele também, se dar bem com tramóias inocentes. Ninguém chamava ninguém para jogar, a usura e a necessidade de dinheiro se encarregavam de levar os abestalhados a se arriscarem num jogo que não dominavam. Jairino passava horas por dia matutando o que poderia fazer de diferente para também montar sua banca de jogos. Nada de baralho, teria que contar com um cúmplice, ou dominó.
Na feira, onde ia aos sábados de manhã comprar carne barata e cachaça baldeada, viu um grupo de estivadores numa rodinha, gritando, sorrindo e apostando. Aproximou-se, curioso, sabendo, por instinto, que ali havia uma jogatina. Jogavam dados. Dados comuns, cada um apostando em um número. Ganhava toda a bolada quem acertava. Era um jogo rápido, portanto as apostas eram pequenas, coisas de centavos. Essa alta rotatividade lhe interessava. Talvez fosse o jogo que procurava. Não foi difícil encontrar uma biboca onde se vendessem dados e o bozó. Só faltava uma estratégia para nunca perder.
Naquela tarde o boteco lotou. Faltou mesa e alguém providenciou caixotes de madeira que foram usados como mesas e tamboretes. No meio de alguma discussão sobre mulher, futebol ou política, alguém mais nervozinho dava um tapa na madeira, esquecendo-se que não era uma mesa das mais sólidas e os copos de cana se espalhavam. Estava ali o que Jairino procurava!
No dia seguinte, sozinho, no meio da tarde, poucos clientes no bar, como quem não quer nada Jairino pegou os caixotes, montou sua banca e passou a jogar os dados. Com carvão desenhou doze quadrados e enumerou cada um, em ordem crescente, a partir do número 1. Punha uma pedrinha em determinado número, aleatoriamente, e despejava o bozó. Conferia os números sorteados com sua aposta, quase sempre errando. O filho, vendo aquilo, confirmou que o pai tinha apenas uma possibilidade, em doze, de acertar, menos de dez por cento. O que significava boa margem de lucro, se doze apostadores de espalhassem nas apostas.
Não demorou a se aproximar o primeiro curioso. Jairino explicou que estava se divertindo sozinho, por falta de companheiro para jogar. Que não fosse por isso, os clientes apostariam. Levava a bolada quem acertasse o número.
- Peraí! Assim, não! – Jairino ditou as regras – Se ninguém acertar, eu fico com tudo. Quem acertar leva o dobro do que apostou. Se ninguém acertar, eu fico com tudo!
Os outros fizeram as contas. Só valeria a pena se todos os quadradinhos estivessem cobertos por apostas. Juntaram-se doze homens rapidinho em volta dos caixotes. Todos fazendo suas apostas.
Sempre alguém ganhava e Jairino apenas jogava os dados, nenhum lucro. A turma bebia, ganhava e perdia, os vencedores gozando dos outros, os perdedores aguardando sua sorte. Jairino apenas jogava os dados.
A assistência já bêbada, o botequeiro balança o copinho de couro, chama pelas apostas, e coloca o bozó sobre o caixote.
- Casem o dinheiro! Casem o dinheiro!
Todos colocaram suas moedas nos devidos quadradinhos.
- Tá casado?
E o “sim” coletivo.
- Ninguém mexe nos dados. Vou mijar e já volto. Ainda tá em tempo de mudar, quem quiser.
Dito isso, saiu pelas portas dos fundos e ficou espiando pela fresta das madeiras da parede.
Urozimbo, não se contendo, levantou o bozó e olhou os dados: 8. Com o dedo indicador em riste diante dos lábios, pedia silêncio aos comparsas. Retirou a moeda que havia depositado no 10, juntou mais algumas a ela e colocou todas no quadradinho do 8. Os demais, para não saírem perdendo num jogo que já sabiam perdido, fizeram o mesmo. Todas as moedas e as primeiras cédulas, todas sobre o número 8. Gente que nem estava apostando se juntou ao grupo. Mais e mais dinheiro, uma pilha considerável. Só se preocupavam com uma coisa: Onde Jairino iria arrumar dinheiro para pagar o dobro de todas aquelas apostas.
Dinheiro casado, silêncio de sociedade entre os parceiros, aguardaram ansiosos a volta de Jairino. Este entra fechando o zíper da calça como se tivesse acabado de sair do banheiro.
- Tá casado?
O “sim” coletivo veio mais alto e mais animado.
- Ninguém quer mudar?
- Não!
Com um tapa no caixote, que fez os dados se revirarem sob o copo, Jairino gritou enquanto agia:
- Vou abrir!
Deu 3.
Frizo
Como só quem tem anjo-da-guarda garantido são as crianças, os velhos e os bêbados, foi dado a Frizo um daqueles parrudos, pau pra toda obra. A cada dia o tal anjo tinha que fazer trabalho dobrado para salvar a pele do seu protegido.
Frizo – na verdade, Etelvino, no batismo – se metia em qualquer enrascada que por ventura aparecesse pela frente. Dizia que ele não as provocava, elas que o chamavam. Já passou a mão em mulher de samango, já parou touro bravo na mão depois de tomar uma garrafa de jurema, já espalhou pela cidade que o promotor tirara a mulher com quem se casara do brega São João do Sabugi, já passou cinco minutos embaixo d’água para ganhar a aposta de uma garrafa de pinga... De todas as suas aprontações se salvou sem arranhão ou olho roxo. Não dava folga para o pobre anjo.
O apelido ganhara do dono da bodega, o Herbínio. O merceeiro, dono do primeiro freezer de Ipueiras, dizia que o amigo tinha a cabeça fria como um “frizo”, suficiente para o codinome se espalhar.
Como todo peso da vida tem seu contra-peso, Frizo tinha sua Geriana. Mulher de uma delicadeza e elegância únicas naquela caatinga. De manhã lavava roupas das famílias de mais posse, à tarde passava e entregava, à noite se encarregava das costuras. Não encontrava mais lugar na casa para esconder a féria de tanta labuta. Fosse onde fosse, o marido sempre encontrava e dava um desfalque para as farras. Diziam as boas e más línguas que Geriana tinha lugar garantido no céu por suportar homem tão folgado. O cabra sumia por dias, chegava bêbado, maltrapilho e cheirando a alfazema das quengas. Ela, nem um pio. Preparava o banho, dava de comer, arrumava a cama e exigia silêncio dos cinco filhos para que não perturbassem o sono de Frizo. Ele, um folgazão; ela, uma conformada.
Nosso personagem, porém, não era um mau sujeito. Fazia camaradagem fácil e terminava amigo dos desafetos, bastava uma dose de uca. Ajudava os vendilhões a arrumarem suas mercadorias, fazia frete nas costas por um níquel ou uma cachacinha ou um pedaço de jabá. Animava o ambiente em que se encontrava. Veio ao mundo para se divertir e divertir quem o cercasse. Era apenas um folgazão boa praça.
Naquele inverno choveu de matar lambari afogado. A cidade festejava a bonança que as águas de São José prometiam. Nunca se vendeu tanta aguardente, ao pé do alambique Frizo fazia ponto para ganhar suas doses por conta da comemoração.
Ficou bêbado como há muito não ficava. A festança acabou, os demais ébrios iam para suas casas ou para o bordel amparados por suas mulheres fixas ou ocasionais. Frizo ficou sozinho com o último garrafão e se aboletou no banco do coreto da pracinha.
Foi tanta água que o riacho seco virou rio, o açude chorou, casas de barro batido viraram lama. A festa acabou em choradeira. Nem a torre da igreja resistiu à enchente e veio a baixo. Criações sumiram, móveis desciam o boqueirão junto com porcos e bodes. Já se preparava uma novena pedindo arrego ao santo durante a madrugada.
A mães punham os filhos sob os braços, como galinhas chocas, enquanto rezavam em voz tão alta que uma vizinha fazia coro a outra sem saírem de suas casas. As ladainhas se confundiam com o chuá das duas corredeiras, a que caía do céu e a que rolava pelas ruas.
O coreto onde Frizo roncava teve suas pernas arrastadas e o tablado de madeira virou jangada com sua cobertura milagrosamente intacta. No seu sono, Frizo sonhava que atravessava o Atlântico comandando um navio que ia para a Arábia. Sonho gostoso, daqueles que fazem a gente sentir a sensação das ondas. A chuva caía, a correnteza das ruas virava rio e seguiam o rumo natural dos rios, o mar. Navegando em seu sono e no quiosque-jangada, ainda abraçado ao garrafão, Frizo navegava para as Arábias.
Acordou importunado pelo sol ardendo a cara. Sentou no banco esfregando os olhos. Ao abri-los deu de cara com uma multidão que o cercava. Gente de toda espécie, velhos desdentados, velhas beatas e fuxiqueiras, crianças espantadas com o espanto dos velhos, a polícia... Oxe! A polícia? O que aprontara dessa vez?
- Eta, jurema braba!
Olhando aquele amontoados de caras desconhecidas, quebrou o burburinho com a voz ainda bêbada e um bafo de desmaiar onça:
- De onde veio esse povo todo? Vai ter festa em Ipueiras?
O samango:
- Ipueiras? Tu tá em Acaraú, cabra! E o seu Cadorges do hotel tá querendo comprar sua jangada de cobertura.
- Ave Maria!, Frizo se espantava olhando o garrafão pela metade. Acho que vou tomar o resto pra ver se chego nas Arábia.
Frizo – na verdade, Etelvino, no batismo – se metia em qualquer enrascada que por ventura aparecesse pela frente. Dizia que ele não as provocava, elas que o chamavam. Já passou a mão em mulher de samango, já parou touro bravo na mão depois de tomar uma garrafa de jurema, já espalhou pela cidade que o promotor tirara a mulher com quem se casara do brega São João do Sabugi, já passou cinco minutos embaixo d’água para ganhar a aposta de uma garrafa de pinga... De todas as suas aprontações se salvou sem arranhão ou olho roxo. Não dava folga para o pobre anjo.
O apelido ganhara do dono da bodega, o Herbínio. O merceeiro, dono do primeiro freezer de Ipueiras, dizia que o amigo tinha a cabeça fria como um “frizo”, suficiente para o codinome se espalhar.
Como todo peso da vida tem seu contra-peso, Frizo tinha sua Geriana. Mulher de uma delicadeza e elegância únicas naquela caatinga. De manhã lavava roupas das famílias de mais posse, à tarde passava e entregava, à noite se encarregava das costuras. Não encontrava mais lugar na casa para esconder a féria de tanta labuta. Fosse onde fosse, o marido sempre encontrava e dava um desfalque para as farras. Diziam as boas e más línguas que Geriana tinha lugar garantido no céu por suportar homem tão folgado. O cabra sumia por dias, chegava bêbado, maltrapilho e cheirando a alfazema das quengas. Ela, nem um pio. Preparava o banho, dava de comer, arrumava a cama e exigia silêncio dos cinco filhos para que não perturbassem o sono de Frizo. Ele, um folgazão; ela, uma conformada.
Nosso personagem, porém, não era um mau sujeito. Fazia camaradagem fácil e terminava amigo dos desafetos, bastava uma dose de uca. Ajudava os vendilhões a arrumarem suas mercadorias, fazia frete nas costas por um níquel ou uma cachacinha ou um pedaço de jabá. Animava o ambiente em que se encontrava. Veio ao mundo para se divertir e divertir quem o cercasse. Era apenas um folgazão boa praça.
Naquele inverno choveu de matar lambari afogado. A cidade festejava a bonança que as águas de São José prometiam. Nunca se vendeu tanta aguardente, ao pé do alambique Frizo fazia ponto para ganhar suas doses por conta da comemoração.
Ficou bêbado como há muito não ficava. A festança acabou, os demais ébrios iam para suas casas ou para o bordel amparados por suas mulheres fixas ou ocasionais. Frizo ficou sozinho com o último garrafão e se aboletou no banco do coreto da pracinha.
Foi tanta água que o riacho seco virou rio, o açude chorou, casas de barro batido viraram lama. A festa acabou em choradeira. Nem a torre da igreja resistiu à enchente e veio a baixo. Criações sumiram, móveis desciam o boqueirão junto com porcos e bodes. Já se preparava uma novena pedindo arrego ao santo durante a madrugada.
A mães punham os filhos sob os braços, como galinhas chocas, enquanto rezavam em voz tão alta que uma vizinha fazia coro a outra sem saírem de suas casas. As ladainhas se confundiam com o chuá das duas corredeiras, a que caía do céu e a que rolava pelas ruas.
O coreto onde Frizo roncava teve suas pernas arrastadas e o tablado de madeira virou jangada com sua cobertura milagrosamente intacta. No seu sono, Frizo sonhava que atravessava o Atlântico comandando um navio que ia para a Arábia. Sonho gostoso, daqueles que fazem a gente sentir a sensação das ondas. A chuva caía, a correnteza das ruas virava rio e seguiam o rumo natural dos rios, o mar. Navegando em seu sono e no quiosque-jangada, ainda abraçado ao garrafão, Frizo navegava para as Arábias.
Acordou importunado pelo sol ardendo a cara. Sentou no banco esfregando os olhos. Ao abri-los deu de cara com uma multidão que o cercava. Gente de toda espécie, velhos desdentados, velhas beatas e fuxiqueiras, crianças espantadas com o espanto dos velhos, a polícia... Oxe! A polícia? O que aprontara dessa vez?
- Eta, jurema braba!
Olhando aquele amontoados de caras desconhecidas, quebrou o burburinho com a voz ainda bêbada e um bafo de desmaiar onça:
- De onde veio esse povo todo? Vai ter festa em Ipueiras?
O samango:
- Ipueiras? Tu tá em Acaraú, cabra! E o seu Cadorges do hotel tá querendo comprar sua jangada de cobertura.
- Ave Maria!, Frizo se espantava olhando o garrafão pela metade. Acho que vou tomar o resto pra ver se chego nas Arábia.
A Morte da Morte
Voltando pra casa, tranqüilinho, com seu livro de passar o tempo no colo, Ceraldo lia no banco do ônibus, hora e meia até chegar em casa. O gordo ao lado, fedendo a suor e cebola, o imprensava contra a janela. Só mesmo uma boa leitura para abstrair-se daquele ambiente lotado, calorento e inquieto.
Sua absorção na leitura foi quebrada por um perfume adocicado, suave, coisa feminina. Virou a cabeça esperando dar de cara com o gordo de barba grossa e perfume e deu-se olhos nos olhos com uma morena daquelas de se fazer ceder o lugar. Desnecessário, ela já estava no lugar do gordo e o olhava com um sorriso nos olhos e lábios serenos.
- Importa-se?
- O quê? An?
- Importa-se que eu sente aqui?
- Ah! Não, claro que não. Se a visse em pé, cederia meu lugar. Uma mulher como você deve sofrer num ônibus lotado de malandros.
- Uma mulher como eu? Como, como eu?
Era a chance. O livro estaria aqui amanhã, essa oportunidade poderia se única.
- Bonita, cheirosa... Deliciosa, sem ofensa.
- Já pensou que essa casca é apenas uma fantasia para atrair homens como você?
- Homens como eu? E como eu sou?
- Inteligente, bonito, viril e heterossexual. Difícil encontrar tudo isso numa mesma pessoa.
Dali por diante a conversa foi ficando mais íntima, mais amigável. Ela não respondia nada diretamente, apenas o nome, Teresa, que coincidia com o que ele lia momentos antes: Teresa, a Filósofa, de Fernando Savater. Era o mote para a conversa se aprofundar, assim como o interesse de Ceraldo.
- O que você acha da gente descer no próximo ponto e tomar alguma coisa para nos conhecermos melhor?
- Estava torcendo que fizesse o convite.
Dali para um barzinho simpático que já começava a acender as luzes para a noite que se anunciava, não custou nada. Ele pediu um chope, ela um suco de limão, sem açúcar ou gelo. Ele pediu iscas de camarão, ela filé mal passado, sangrando ainda. Ele queria saber dela, ela parecia já saber tudo dele. A conversa fluía fácil. Ele era solteiro e morava só, ela não falava de seu passado. Ele gostava de esportes, futebol no sábado à tarde, ela caminhava muito, daqui para ali, de lá para acolá. Ele trabalhava num banco, ela tinha negócio próprio.
Passavam-se os chopes e os petiscos, ela não demonstrava interesse maior do que na conversa e o animava a beber. Até a terceira tulipa ele estranhou, depois desta, se entregou. Deixa o barco correr.
Chegou a um ponto em que já enrolava a língua, as palavras mais difíceis tropeçavam nos dentes antes de sair. Melhor marcar outro encontro, se a convencesse a uma noitada mais quente, passaria vergonha. Antes de pegar seu telefone, endereço ou apenas sugerir um cinema amanhã, Teresa pôs as mãos em seus ombros, fixou seus olhos nos seus, de modo que ele não pudesse desviar o olhar e a atenção. Não sorria, olhar sério, voz mais grave e baixa, mas de uma firmeza que aprisionava Ceraldo por inteiro:
- Preste atenção que só vou falar uma vez.
O rapaz retesou-se entre as mãos firmes de Teresa e da sisudez do timbre.
- Eu sou A Morte e vim te buscar. Amanhã você não verá a luz do dia.
Estaria suficientemente bêbado para virar motivo de chacota? Que brincadeira de mau gosto ela estava propondo? Não conseguiu protestar. Antes que a voz trôpega se fizesse, ela continuou:
- Na verdade, sou apenas uma assistente, você é minha primeira encomenda, desculpe o mau jeito. Eu deveria ter virado aquele ônibus e imprensar sua cabeça entre dois bancos, mas fiquei com pena de machucar aquela senhora com as duas crianças que estavam lá no fundo.
Falando para si mesma, um momentinho de devaneio:
- Acho que vou levar um esporro da chefa, hoje...
Ceraldo ensaiou um protesto, trazendo A Morte de volta ao assunto que a trouxe ali:
- Bom, já que vou ficar de castigo mesmo e ainda não me habituei a essa função de ceifadora, vou lhe dar a chance de um último pedido, assim, que nem nos filmes de bang-bang de antigamente.
As mãos dela já não eram gadanhos, mas mãos femininas em carinho. Já não lhe apertavam os ombros, afagavam as faces como a uma criança chorosa.
- Vamos lá pra casa?
Era efeito da bebida, a irresponsabilidade do porre, o temor da morte, a incompreensão do que se passava? Pouco importava. Estava com um tesão incontido por aquela morena de olhos rasgados e tez de índia. Queria aqueles cabelos curtos emaranhados em seus dedos enquanto se esforçasse para não falhar entre suas pernas.
- É esse seu último desejo? Quer morrer em casa?
- Apenas a primeira parte dele, o resto te conto na minha cama.
A Morte não é má nem boa, apenas necessária, lição que Teresa aprendera nas instruções antes dessa missão. Já que dera ao condenado o último pedido, que cumprisse sua palavra.
Ceraldo abriu os olhos pesados do álcool da noite passada, via a luz entrar pela fresta da cortina. Era a luz do sol! Teresa devia ser uma louca ou drogada com aquele papo de último desejo, uma fantasia sexual que funcionara, como funcionara. Que noite ela havia lhe dado!
Olhou a moça desnuda sob a coberta abrir os olhos devagarzinho, um sorriso tatuado nos lábios bem desenhados e o “bom dia” preguiçoso açodando seus sentidos.
- Então, não vai mais me matar?, não conteve o tom de ironia.
- Não, acho que vou pedir à chefa pra me mandar de volta à vida. Não havia conhecido esse lado bom da última vez que passei por aqui.
Teresa levantou-se num pulo, correu para o banheiro enquanto gritava:
- Vou falar com a chefa e volto à noite para morrermos juntos mais uma vez.
Sua absorção na leitura foi quebrada por um perfume adocicado, suave, coisa feminina. Virou a cabeça esperando dar de cara com o gordo de barba grossa e perfume e deu-se olhos nos olhos com uma morena daquelas de se fazer ceder o lugar. Desnecessário, ela já estava no lugar do gordo e o olhava com um sorriso nos olhos e lábios serenos.
- Importa-se?
- O quê? An?
- Importa-se que eu sente aqui?
- Ah! Não, claro que não. Se a visse em pé, cederia meu lugar. Uma mulher como você deve sofrer num ônibus lotado de malandros.
- Uma mulher como eu? Como, como eu?
Era a chance. O livro estaria aqui amanhã, essa oportunidade poderia se única.
- Bonita, cheirosa... Deliciosa, sem ofensa.
- Já pensou que essa casca é apenas uma fantasia para atrair homens como você?
- Homens como eu? E como eu sou?
- Inteligente, bonito, viril e heterossexual. Difícil encontrar tudo isso numa mesma pessoa.
Dali por diante a conversa foi ficando mais íntima, mais amigável. Ela não respondia nada diretamente, apenas o nome, Teresa, que coincidia com o que ele lia momentos antes: Teresa, a Filósofa, de Fernando Savater. Era o mote para a conversa se aprofundar, assim como o interesse de Ceraldo.
- O que você acha da gente descer no próximo ponto e tomar alguma coisa para nos conhecermos melhor?
- Estava torcendo que fizesse o convite.
Dali para um barzinho simpático que já começava a acender as luzes para a noite que se anunciava, não custou nada. Ele pediu um chope, ela um suco de limão, sem açúcar ou gelo. Ele pediu iscas de camarão, ela filé mal passado, sangrando ainda. Ele queria saber dela, ela parecia já saber tudo dele. A conversa fluía fácil. Ele era solteiro e morava só, ela não falava de seu passado. Ele gostava de esportes, futebol no sábado à tarde, ela caminhava muito, daqui para ali, de lá para acolá. Ele trabalhava num banco, ela tinha negócio próprio.
Passavam-se os chopes e os petiscos, ela não demonstrava interesse maior do que na conversa e o animava a beber. Até a terceira tulipa ele estranhou, depois desta, se entregou. Deixa o barco correr.
Chegou a um ponto em que já enrolava a língua, as palavras mais difíceis tropeçavam nos dentes antes de sair. Melhor marcar outro encontro, se a convencesse a uma noitada mais quente, passaria vergonha. Antes de pegar seu telefone, endereço ou apenas sugerir um cinema amanhã, Teresa pôs as mãos em seus ombros, fixou seus olhos nos seus, de modo que ele não pudesse desviar o olhar e a atenção. Não sorria, olhar sério, voz mais grave e baixa, mas de uma firmeza que aprisionava Ceraldo por inteiro:
- Preste atenção que só vou falar uma vez.
O rapaz retesou-se entre as mãos firmes de Teresa e da sisudez do timbre.
- Eu sou A Morte e vim te buscar. Amanhã você não verá a luz do dia.
Estaria suficientemente bêbado para virar motivo de chacota? Que brincadeira de mau gosto ela estava propondo? Não conseguiu protestar. Antes que a voz trôpega se fizesse, ela continuou:
- Na verdade, sou apenas uma assistente, você é minha primeira encomenda, desculpe o mau jeito. Eu deveria ter virado aquele ônibus e imprensar sua cabeça entre dois bancos, mas fiquei com pena de machucar aquela senhora com as duas crianças que estavam lá no fundo.
Falando para si mesma, um momentinho de devaneio:
- Acho que vou levar um esporro da chefa, hoje...
Ceraldo ensaiou um protesto, trazendo A Morte de volta ao assunto que a trouxe ali:
- Bom, já que vou ficar de castigo mesmo e ainda não me habituei a essa função de ceifadora, vou lhe dar a chance de um último pedido, assim, que nem nos filmes de bang-bang de antigamente.
As mãos dela já não eram gadanhos, mas mãos femininas em carinho. Já não lhe apertavam os ombros, afagavam as faces como a uma criança chorosa.
- Vamos lá pra casa?
Era efeito da bebida, a irresponsabilidade do porre, o temor da morte, a incompreensão do que se passava? Pouco importava. Estava com um tesão incontido por aquela morena de olhos rasgados e tez de índia. Queria aqueles cabelos curtos emaranhados em seus dedos enquanto se esforçasse para não falhar entre suas pernas.
- É esse seu último desejo? Quer morrer em casa?
- Apenas a primeira parte dele, o resto te conto na minha cama.
A Morte não é má nem boa, apenas necessária, lição que Teresa aprendera nas instruções antes dessa missão. Já que dera ao condenado o último pedido, que cumprisse sua palavra.
Ceraldo abriu os olhos pesados do álcool da noite passada, via a luz entrar pela fresta da cortina. Era a luz do sol! Teresa devia ser uma louca ou drogada com aquele papo de último desejo, uma fantasia sexual que funcionara, como funcionara. Que noite ela havia lhe dado!
Olhou a moça desnuda sob a coberta abrir os olhos devagarzinho, um sorriso tatuado nos lábios bem desenhados e o “bom dia” preguiçoso açodando seus sentidos.
- Então, não vai mais me matar?, não conteve o tom de ironia.
- Não, acho que vou pedir à chefa pra me mandar de volta à vida. Não havia conhecido esse lado bom da última vez que passei por aqui.
Teresa levantou-se num pulo, correu para o banheiro enquanto gritava:
- Vou falar com a chefa e volto à noite para morrermos juntos mais uma vez.
Encontro Estranho
Passava pouco das duas da madrugada quando Ambrósio estacionou o carro em frente à casa de Veraneide. Vinham de uma noitada com amigos comuns, onde se conheceram. De cara o rapaz se interessara pela beleza e espontaneidade de Veraneide, de quem não desgrudara por toda a noite.
Ela não cedeu aos seus encantos e insistência, mas permitiu que a levasse para casa, uma bela casa em estilo colonial num condomínio fechado, com jardins amplos e bem cuidados, segurança permanente e armada. Naquele sossego, Ambrósio viu a oportunidade ideal e final de fazer suas investidas. Desligou o motor, já virando-se para o lado a fim de olhá-la nos olhos, seguro que a um olhar profundo e meloso, daqueles que refletem franqueza e paixão, dificilmente as meninas resistiam. Encontrou, porém, não um olhar romântico e interessado, mas cenhos franzidos virados para o enorme canteiro que separava as duas pistas.
- Que foi? Que houve?
Ao mesmo tempo em que perguntava, virava a cabeça na direção do olhar da acompanhante. Em pé, de costas para eles, uns cinqüenta metros distante, um rapaz alto, vestindo uma bermuda azul e camiseta branca, andava de um lado para o outro sem desviar a vista da casa de dois andares e luzes apagadas.
- Quem é o cara?
- Não sei, mas me lembra o Angelim.
- Quem é Angelim?
- O ex-namorado da menina que morava ali.
- Ih! Já vi esse filme. O corninho tá achando que vai reconquistar a ex no meio da madrugada. Esses manés bebem umas e ficam românticos. – Sem perder a oportunidade, emenda – Têm que aprender a ser romântico o tempo todo, assim como eu.
- Ele sabe que não vai...
- Ele quem? Sabe que não vai o quê?
- O Angelim sabe que não vai reconquistar a Belza.
- Como é que cê sabe? Ela te falou?
- Ela não mora mais ali. Não mora mais em lugar nenhum.
- Comequié? Papo estranho...
- Ela morreu.
- Vixe! Se ela morreu, o que ele tá fazendo ali? Matando a saudade?
- Isso é que é estranho. Ela se matou porque não queria casar. As famílias insistiam, o Angelim não largava do pé dela. A única saída que arrumou para fugir da pressão, foi cortar os pulsos.
De repente Ambrósio sentiu que a noite cálida e estrelada tornara-se gélida, ou talvez fosse apenas o arrepio subindo pelo espinhaço até arrepiar a nuca.
- Cruz, credo! Quem se mata vai pro Inferno. – Se benzia enquanto falava.
A noite até podia não ter esfriado, mas o fogo em sua virilha sumira. Já virava-se para se despedir e marcar alguma coisa para amanhã, quando deu-se por Veraneide abrindo a porta.
- Peraí, não vai nem dizer tchau?
- Vou lá falar com ele.
- Peraí, peraí. E se ele estiver drogado? Se estiver armado a fim de fazer uma loucura ele também? Vai, não. Fica aqui.
Ela não lhe dava ouvidos, já estava do lado de fora e batendo a porta.
Droga! O que a gente não faz por uma mulher bonita? Se fosse embora agora, perderia qualquer chance de um encontro futuro. Desceu do carro, contornou-o rapidamente impedindo o caminho da garota.
- Tá legal, eu vou lá e digo a ele que você quer conversar. Assim eu protejo você caso ele tenha uma arma.
Garoto esperto. Fazia um favor e ainda vestia a armadura de cavaleiro protetor. Ponto para ele.
Sem responder com palavras, ela acenou positivamente com a cabeça.
Não podia dar pra trás. Sem muita firmeza, virou-se em direção a Angelim, a adrenalina misturando-se no sangue, fazendo o chão ficar mais macio sob os pés que se moviam contra a vontade do cérebro, devagar, hesitante. Deu uma olhadinha para trás na esperança de ela o chamasse de volta, o que não aconteceu. Onde fora se meter?
A cada passo, mais fria a noite ficava. Já imaginava urinando nas calças, tanto era seu temor.
Deu uma paradinha, respirou fundo, encheu-se de coragem. Que porra poderia acontecer? O moleque era um palito e não um rato de academia como ele, não daria nem para o começo caso engrossasse. Era apenas um fracote chorando a morte da namorada. Otário! Com tanta mulher solta por aí...
Ouviu um rumor de pés às suas costas. Virou-se de um pulo, quase trombando com Veraneide. Irritado, quase sussurrando:
- Pô! Não disse para esperar lá? Fica aqui!
Ela ficou, mas não o olhava. Fixava a vista no rapazola que já não ia e vinha. Estava parado, de costas para eles apenas dez metros à frente, olhar grudado na janela apagada do primeiro andar.
Ambrósio voltou a andar, agora encorajado. A presença de Veraneide o ajudara a quebrar a tensão em que se encontrava. Parou a um passo de Angelim e o chamou, “ei”. Nem um músculo se mexeu como resposta. Insistiu, “ô! Cara!”. Nada. Esticou o braço, apelaria para o toque, impossível ser ignorado. Mas seu dedo não encontrou nada. Angelim sumiu como a imagem de um televisor quando falta energia. Puf!
Ambrósio não gritou, o grito saiu vivo, por vontade própria, apenas um “ah!”, curto, seco. A mão recuou como se tivesse sofrido um choque elétrico. A cor de suas faces sumiu quase tão rápido quanto a imagem de Angelim. Apavorado, urinado, virou-se a jato pronto para correr para o carro e sumir dali para sempre, deu de cara com Belza nas roupas de Veraneide abraçada a Angelim, os dois olhando-o fixo, um sorriso malévolo nas pontas do lábios.
Encontrado pelos vigilantes do condomínio na manhã seguinte, catatônico, Ambrósio vive numa clínica psiquiátrica e é medicado após cada crise que tem ao ver alguém de calça jeans e camiseta branca.
Ela não cedeu aos seus encantos e insistência, mas permitiu que a levasse para casa, uma bela casa em estilo colonial num condomínio fechado, com jardins amplos e bem cuidados, segurança permanente e armada. Naquele sossego, Ambrósio viu a oportunidade ideal e final de fazer suas investidas. Desligou o motor, já virando-se para o lado a fim de olhá-la nos olhos, seguro que a um olhar profundo e meloso, daqueles que refletem franqueza e paixão, dificilmente as meninas resistiam. Encontrou, porém, não um olhar romântico e interessado, mas cenhos franzidos virados para o enorme canteiro que separava as duas pistas.
- Que foi? Que houve?
Ao mesmo tempo em que perguntava, virava a cabeça na direção do olhar da acompanhante. Em pé, de costas para eles, uns cinqüenta metros distante, um rapaz alto, vestindo uma bermuda azul e camiseta branca, andava de um lado para o outro sem desviar a vista da casa de dois andares e luzes apagadas.
- Quem é o cara?
- Não sei, mas me lembra o Angelim.
- Quem é Angelim?
- O ex-namorado da menina que morava ali.
- Ih! Já vi esse filme. O corninho tá achando que vai reconquistar a ex no meio da madrugada. Esses manés bebem umas e ficam românticos. – Sem perder a oportunidade, emenda – Têm que aprender a ser romântico o tempo todo, assim como eu.
- Ele sabe que não vai...
- Ele quem? Sabe que não vai o quê?
- O Angelim sabe que não vai reconquistar a Belza.
- Como é que cê sabe? Ela te falou?
- Ela não mora mais ali. Não mora mais em lugar nenhum.
- Comequié? Papo estranho...
- Ela morreu.
- Vixe! Se ela morreu, o que ele tá fazendo ali? Matando a saudade?
- Isso é que é estranho. Ela se matou porque não queria casar. As famílias insistiam, o Angelim não largava do pé dela. A única saída que arrumou para fugir da pressão, foi cortar os pulsos.
De repente Ambrósio sentiu que a noite cálida e estrelada tornara-se gélida, ou talvez fosse apenas o arrepio subindo pelo espinhaço até arrepiar a nuca.
- Cruz, credo! Quem se mata vai pro Inferno. – Se benzia enquanto falava.
A noite até podia não ter esfriado, mas o fogo em sua virilha sumira. Já virava-se para se despedir e marcar alguma coisa para amanhã, quando deu-se por Veraneide abrindo a porta.
- Peraí, não vai nem dizer tchau?
- Vou lá falar com ele.
- Peraí, peraí. E se ele estiver drogado? Se estiver armado a fim de fazer uma loucura ele também? Vai, não. Fica aqui.
Ela não lhe dava ouvidos, já estava do lado de fora e batendo a porta.
Droga! O que a gente não faz por uma mulher bonita? Se fosse embora agora, perderia qualquer chance de um encontro futuro. Desceu do carro, contornou-o rapidamente impedindo o caminho da garota.
- Tá legal, eu vou lá e digo a ele que você quer conversar. Assim eu protejo você caso ele tenha uma arma.
Garoto esperto. Fazia um favor e ainda vestia a armadura de cavaleiro protetor. Ponto para ele.
Sem responder com palavras, ela acenou positivamente com a cabeça.
Não podia dar pra trás. Sem muita firmeza, virou-se em direção a Angelim, a adrenalina misturando-se no sangue, fazendo o chão ficar mais macio sob os pés que se moviam contra a vontade do cérebro, devagar, hesitante. Deu uma olhadinha para trás na esperança de ela o chamasse de volta, o que não aconteceu. Onde fora se meter?
A cada passo, mais fria a noite ficava. Já imaginava urinando nas calças, tanto era seu temor.
Deu uma paradinha, respirou fundo, encheu-se de coragem. Que porra poderia acontecer? O moleque era um palito e não um rato de academia como ele, não daria nem para o começo caso engrossasse. Era apenas um fracote chorando a morte da namorada. Otário! Com tanta mulher solta por aí...
Ouviu um rumor de pés às suas costas. Virou-se de um pulo, quase trombando com Veraneide. Irritado, quase sussurrando:
- Pô! Não disse para esperar lá? Fica aqui!
Ela ficou, mas não o olhava. Fixava a vista no rapazola que já não ia e vinha. Estava parado, de costas para eles apenas dez metros à frente, olhar grudado na janela apagada do primeiro andar.
Ambrósio voltou a andar, agora encorajado. A presença de Veraneide o ajudara a quebrar a tensão em que se encontrava. Parou a um passo de Angelim e o chamou, “ei”. Nem um músculo se mexeu como resposta. Insistiu, “ô! Cara!”. Nada. Esticou o braço, apelaria para o toque, impossível ser ignorado. Mas seu dedo não encontrou nada. Angelim sumiu como a imagem de um televisor quando falta energia. Puf!
Ambrósio não gritou, o grito saiu vivo, por vontade própria, apenas um “ah!”, curto, seco. A mão recuou como se tivesse sofrido um choque elétrico. A cor de suas faces sumiu quase tão rápido quanto a imagem de Angelim. Apavorado, urinado, virou-se a jato pronto para correr para o carro e sumir dali para sempre, deu de cara com Belza nas roupas de Veraneide abraçada a Angelim, os dois olhando-o fixo, um sorriso malévolo nas pontas do lábios.
Encontrado pelos vigilantes do condomínio na manhã seguinte, catatônico, Ambrósio vive numa clínica psiquiátrica e é medicado após cada crise que tem ao ver alguém de calça jeans e camiseta branca.
Raquina régius
Era meio da manhã de domingo quando apareceu na ponta da rua principal de Nossa Senhora da Conceição o tílburi de capota vermelha, aro das rodas dourados, um luxo desconhecido na cidade e encoberto pelo pó da estrada.
Na boléia um homem muito alto, barbas brancas bem aparadas e pontudas sob o queixo, cabelos também brancos cobertos por impecável chapéu de copa alta. Pele também alva, embora avermelhada pelo sol seco do Planalto Central. Seus trajes, linho branco, destoavam do alaranjado da poeira. Ao lado do homem uma enorme gaiola de metal dourado como os aros, base circular, quase um metro de altura. Em seu interior três periquitos australianos, um azul, um verde e o terceiro, arroxeado,
Aquele conjunto ímpar chamava a atenção dos moradores modorrentos, da criançada serelepe e dos que saíam da missa sob o repique dos sinos. Em frente à igreja o cavalo preto parou sob o comando do homem. Este, tirando o chapéu, dirigiu a palavra a dona Hadilma, que varria os degraus.
- Simpática senhora, há uma estalagem nessa simpática cidade?
- Uma o quê, moço?
- Uma estalagem, pousada, hotel...
- An, sim, tem a pensão de dona Leócia. É só seguir reto e quebrar a segunda à dereita.
Enquanto a dupla conversava, a viatura foi cercada pela meninada curiosa com os bichinhos coloridos.
- Moço, arriscou um deles, quem pintou as curicas desse jeito?
- Ora, minha querida criança, esses nobres animais não são reles curicas e, sim, sagrados Raquinas regius indianos, pássaros raros e mágicos vindos do outro lado do mundo.
- Raquina réjus? Nunca ouvi falar.
- São seres raríssimos, os últimos três existentes no universo.
Dito aquilo e sabendo que a notícia espalhar-se-ia pelo lugarejo com a velocidade de notícia de morte, seguiu caminho rumo à pensão.
A viúva Leócia, com seu jeito pouco educado e nada higiênico, impressionada com a presença de insólita figura, cuidou de arrumar-lhe o melhor quarto, justo o que dava janelas para a feira livre. Coisa melhor o visitante não poderia querer.
Por duas moedas, o moleque Anilson levou sua única mala para o quarto, enquanto o homem encarregava-se da gaiola. Demorou-se no aposento apenas tempo suficiente para vestir outro terno de linho branco, lustrar os sapatos e acertar a barba com afiada navalha.
Com a gaiola na mão foi à feira. Sentou-se em um banco sob a marquise da bodega, pediu um refresco de gabiroba e esperou o assédio que sabia que viria. A algazarra das aves chamava o público aos poucos. Tímidos, mas curiosos, os moradores se aproximavam, um esperando que outro perguntasse do que se tratavam aqueles belos animais. Zé Codó, o mais conversador e sem senso de respeito à privacidade alheia, logo se fez presente à turba que já era considerável.
- Moço, quer vender os ajurucurau?
- Não, meu nobre cidadão. Primeiro, que não são ajurucuraus, mas Raquina regius sagrados. Esses nobres animais são de espécie em extinção, os últimos exemplares daqueles que já foram numerosos na longínqua Índia.
Não poderia esperar muito pelas perguntas. Iria direto à história tantas vezes repetidas e que era aumentada a cada parada, aumentando a admiração e cobiça dos que o ouviam. Se ninguém o interrogasse logo, teria que emendar a conversa, mas ali estava Zé Codó, maranhense conversador.
- São sagrados por quê? Por que eles tão acabando?
- Meu caro amigo, lhe contarei sua história. Na antiga Índia, um pobre senhor, já quase morto de fome, encontrou uma colônia desses nobres pássaros. Vendo ali uma oportunidade de ganhar algum trocado na venda deles, conseguiu aprisionar um bom número. Com bambu, construiu uma gaiola onde coubessem todos. Como já anoitecia, deixou os bichinhos descansando e foi dormir, sonhando com a ração que teria no dia seguinte após a venda.
Os olhos do público não despregavam do orador, alguns já puxavam caixotes para sentar, olhos não piscavam. Estavam entregues.
- Ao amanhecer, na boca da manhã, o pobre Raquina, esse era o nome do faminto indiano, espantou-se ao ver todos os pássaros parados em seus poleiros, todos virados na mesma direção. Esquisita situação, algo que jamais vira em seus muitos anos de vida. Virou o rosto na direção para que apontavam os bicos dos pássaros e viu a montanha onde diziam haver um tesouro de rubis, ouro e diamantes escondido por antigo marajá quando em fuga de seus inimigos.
Tesouro! Essa palavra sempre mexia com o imaginário dos simples.
Enquanto contava sua história, ao largo passava uma carroça conduzida por um negro alto, mal vestido, homem que não chamava a atenção, ainda mais quando algo muito interessante prendia a todos. A carroça era completamente coberta por lona escura.
- Sentindo um comichão na alma, o pobre Raquina resolveu seguir aquela direção. Por um momento esquecera do mercado onde venderia seus bichinhos multicores, estava intrigado com aquilo. Num farnel colocou as últimas frutas de que dispunha e seguiu rumo às montanhas. Tomou cuidado de andar em linha reta para não desviar-se da direção indicada pelos pássaros. Foi um dia inteiro de caminhada. Ao fim da tarde, quedou-se estafado e dormiu sob a copa de uma árvore.
O público agora já era incontável. Percebia entre os espectadores, pelos trajes, homens bem apessoados para o padrão local. Eram os ricos. A coisa estava cada vez melhor.
- Ao acordar, novamente viu os pássaros todos de cabeça baixa, bicos voltados para a mesma direção. Não se fez demorar, passou a caminhas no rumo indicado, passos mais largos que a subida permitia. Andou por algumas poucas horas, gaiola na mão e nada no embornal quando percebeu novo rebuliço e gritaria na gaiola. Os pássaros gritavam, todos com seus bicos voltados para uma pedra que cobria a entrada da gruta. Não havia dúvida, era uma indicação. Escondeu a gaiola entre arbustos e colocou-se dentro da gruta por uma passagem estreita atrás da pedra. Exatamente o que estão pensando, queridos ouvintes, ali estava uma enorme arca cheia até a borda de rubis, esmeralda e linda peças de ouro.
O homem da carroça coberta já sumia no fim da rua, o público deliciava-se.
- De volta à vila, Raquina construiu um castelo, comprou terras, plantou arroz e legumes e matou a fome de seu povo. Seus pássaros, porém, jamais apontaram a mesma direção ao amanhecer. Raquina imaginou que sua missão estava cumprida, não mais tinham algo a fazer por ele, por isso os vendeu, em trios, para aqueles que sonhavam com seus próprios tesouros.
A poeira deixada pela carroça do negro já se assentava.
- Por quinhentos anos, muitas fortunas foram feitas ao redor do mundo, mas, aos poucos, os pássaros foram morrendo por maus tratos ou de velhice, hoje restam apenas esses três que comprei em Marabá e há um mês eles vêm apontando uma direção para mim. Pelo rebuliço que fizeram hoje cedo, imagino que esteja perto de minha riqueza e os deverei passar adiante logo e que seja breve porque não tenho mais recursos para alimentá-los ou a mim mesmo. Ficarei rico em poucos dias e esses nobres animais de Shiva deverão trocar de mãos.
Todos boquiabertos, queriam mais e mais, porém, o visitante alegando cansaço, disse que deveria descansar para seguir o rumo da fortuna na manhã seguinte.
À noite, enquanto tomava sua sopa rala na pensão de Leócia, recebeu a visita do fazendeiro mais rico do lugar, seu Aldamiro, descendente direto dos primeiros bandeirantes que passaram por ali. O homem queria pagar qualquer preço que o visitante pedisse pelos seus pequenos pássaros. Suas economias começavam a mostrar uma diminuição, as filhas já estavam na idade de irem estudar em Goiás, as fazendas precisavam de melhorias... Os graciosos e barulhentos Raquinas regius seriam sua salvação.
O homem de linho branco regateou, colocou dificuldades, alegou ainda não poder vendê-los, ainda não achara seu tesouro, mas o homem insistia, até não ter mais o que dar para o visitante que não aceitava terras, mercadorias, apenas dinheiro, afinal essa era a tradição deixada pelo velho Raquina indiano.
Por fim, cedeu. De manhã consultaria os pássaros e, dependendo da resposta, fariam negócio. Esfregando as mãos, ansioso pelo negócio a ser feito, Aldamiro saiu quase correndo, precisava juntar todo o dinheiro que tinha e vender algumas vacas naquela noite.
Mal saiu Aldamiro, o pensionista recebeu a visita do prefeito, capitão Alcobaz. As propostas pelo pássaro aumentavam até não mais poder e cobriam as de Aldamiro. Sai Alcobaz, chega Hernildo e o leilão continua. O converseiro baixinho, quase um sussurro, se repetiu até quase meia noite. Percebendo que ninguém cobriria a proposta de Godofredo, o homem de branco manda Anilson atrás do fazendeiro com urgência.
Não demorou, lá estava o comprador com duas sacolas de couro transbordando de cédulas e moedas. Acordara o banqueiro e o fizera quase esvaziar o cofre do banco.
Feita a venda, o visitante lhe deu orientações de como alimentar as aves, como deveria evitar o excesso de sol e barulho, a que horas deveria fazer a consulta aos bichinhos e todos os demais cuidados a serem tomados.
Acompanhou Godofredo até a porta e ali ficou até vê-lo sumir na segunda esquina.
Numa urgência de médico, mandou que Leócia lhe fechasse a conta, pagou, levou sua arca para o tílburi que atrelou ao cavalo branco com a maestria e rapidez de poucos e pôs-se quase a galope para fora da cidade, pelo norte já que todos imaginavam que ele seguia para o sul por conta de seu caminho de chegada. Não dormiria e nem descansaria até estar muito longe, onde seu parceiro o encontraria numa carroça toda coberta e carregada com várias gaiolas com trios de periquitos australianos.
Na boléia um homem muito alto, barbas brancas bem aparadas e pontudas sob o queixo, cabelos também brancos cobertos por impecável chapéu de copa alta. Pele também alva, embora avermelhada pelo sol seco do Planalto Central. Seus trajes, linho branco, destoavam do alaranjado da poeira. Ao lado do homem uma enorme gaiola de metal dourado como os aros, base circular, quase um metro de altura. Em seu interior três periquitos australianos, um azul, um verde e o terceiro, arroxeado,
Aquele conjunto ímpar chamava a atenção dos moradores modorrentos, da criançada serelepe e dos que saíam da missa sob o repique dos sinos. Em frente à igreja o cavalo preto parou sob o comando do homem. Este, tirando o chapéu, dirigiu a palavra a dona Hadilma, que varria os degraus.
- Simpática senhora, há uma estalagem nessa simpática cidade?
- Uma o quê, moço?
- Uma estalagem, pousada, hotel...
- An, sim, tem a pensão de dona Leócia. É só seguir reto e quebrar a segunda à dereita.
Enquanto a dupla conversava, a viatura foi cercada pela meninada curiosa com os bichinhos coloridos.
- Moço, arriscou um deles, quem pintou as curicas desse jeito?
- Ora, minha querida criança, esses nobres animais não são reles curicas e, sim, sagrados Raquinas regius indianos, pássaros raros e mágicos vindos do outro lado do mundo.
- Raquina réjus? Nunca ouvi falar.
- São seres raríssimos, os últimos três existentes no universo.
Dito aquilo e sabendo que a notícia espalhar-se-ia pelo lugarejo com a velocidade de notícia de morte, seguiu caminho rumo à pensão.
A viúva Leócia, com seu jeito pouco educado e nada higiênico, impressionada com a presença de insólita figura, cuidou de arrumar-lhe o melhor quarto, justo o que dava janelas para a feira livre. Coisa melhor o visitante não poderia querer.
Por duas moedas, o moleque Anilson levou sua única mala para o quarto, enquanto o homem encarregava-se da gaiola. Demorou-se no aposento apenas tempo suficiente para vestir outro terno de linho branco, lustrar os sapatos e acertar a barba com afiada navalha.
Com a gaiola na mão foi à feira. Sentou-se em um banco sob a marquise da bodega, pediu um refresco de gabiroba e esperou o assédio que sabia que viria. A algazarra das aves chamava o público aos poucos. Tímidos, mas curiosos, os moradores se aproximavam, um esperando que outro perguntasse do que se tratavam aqueles belos animais. Zé Codó, o mais conversador e sem senso de respeito à privacidade alheia, logo se fez presente à turba que já era considerável.
- Moço, quer vender os ajurucurau?
- Não, meu nobre cidadão. Primeiro, que não são ajurucuraus, mas Raquina regius sagrados. Esses nobres animais são de espécie em extinção, os últimos exemplares daqueles que já foram numerosos na longínqua Índia.
Não poderia esperar muito pelas perguntas. Iria direto à história tantas vezes repetidas e que era aumentada a cada parada, aumentando a admiração e cobiça dos que o ouviam. Se ninguém o interrogasse logo, teria que emendar a conversa, mas ali estava Zé Codó, maranhense conversador.
- São sagrados por quê? Por que eles tão acabando?
- Meu caro amigo, lhe contarei sua história. Na antiga Índia, um pobre senhor, já quase morto de fome, encontrou uma colônia desses nobres pássaros. Vendo ali uma oportunidade de ganhar algum trocado na venda deles, conseguiu aprisionar um bom número. Com bambu, construiu uma gaiola onde coubessem todos. Como já anoitecia, deixou os bichinhos descansando e foi dormir, sonhando com a ração que teria no dia seguinte após a venda.
Os olhos do público não despregavam do orador, alguns já puxavam caixotes para sentar, olhos não piscavam. Estavam entregues.
- Ao amanhecer, na boca da manhã, o pobre Raquina, esse era o nome do faminto indiano, espantou-se ao ver todos os pássaros parados em seus poleiros, todos virados na mesma direção. Esquisita situação, algo que jamais vira em seus muitos anos de vida. Virou o rosto na direção para que apontavam os bicos dos pássaros e viu a montanha onde diziam haver um tesouro de rubis, ouro e diamantes escondido por antigo marajá quando em fuga de seus inimigos.
Tesouro! Essa palavra sempre mexia com o imaginário dos simples.
Enquanto contava sua história, ao largo passava uma carroça conduzida por um negro alto, mal vestido, homem que não chamava a atenção, ainda mais quando algo muito interessante prendia a todos. A carroça era completamente coberta por lona escura.
- Sentindo um comichão na alma, o pobre Raquina resolveu seguir aquela direção. Por um momento esquecera do mercado onde venderia seus bichinhos multicores, estava intrigado com aquilo. Num farnel colocou as últimas frutas de que dispunha e seguiu rumo às montanhas. Tomou cuidado de andar em linha reta para não desviar-se da direção indicada pelos pássaros. Foi um dia inteiro de caminhada. Ao fim da tarde, quedou-se estafado e dormiu sob a copa de uma árvore.
O público agora já era incontável. Percebia entre os espectadores, pelos trajes, homens bem apessoados para o padrão local. Eram os ricos. A coisa estava cada vez melhor.
- Ao acordar, novamente viu os pássaros todos de cabeça baixa, bicos voltados para a mesma direção. Não se fez demorar, passou a caminhas no rumo indicado, passos mais largos que a subida permitia. Andou por algumas poucas horas, gaiola na mão e nada no embornal quando percebeu novo rebuliço e gritaria na gaiola. Os pássaros gritavam, todos com seus bicos voltados para uma pedra que cobria a entrada da gruta. Não havia dúvida, era uma indicação. Escondeu a gaiola entre arbustos e colocou-se dentro da gruta por uma passagem estreita atrás da pedra. Exatamente o que estão pensando, queridos ouvintes, ali estava uma enorme arca cheia até a borda de rubis, esmeralda e linda peças de ouro.
O homem da carroça coberta já sumia no fim da rua, o público deliciava-se.
- De volta à vila, Raquina construiu um castelo, comprou terras, plantou arroz e legumes e matou a fome de seu povo. Seus pássaros, porém, jamais apontaram a mesma direção ao amanhecer. Raquina imaginou que sua missão estava cumprida, não mais tinham algo a fazer por ele, por isso os vendeu, em trios, para aqueles que sonhavam com seus próprios tesouros.
A poeira deixada pela carroça do negro já se assentava.
- Por quinhentos anos, muitas fortunas foram feitas ao redor do mundo, mas, aos poucos, os pássaros foram morrendo por maus tratos ou de velhice, hoje restam apenas esses três que comprei em Marabá e há um mês eles vêm apontando uma direção para mim. Pelo rebuliço que fizeram hoje cedo, imagino que esteja perto de minha riqueza e os deverei passar adiante logo e que seja breve porque não tenho mais recursos para alimentá-los ou a mim mesmo. Ficarei rico em poucos dias e esses nobres animais de Shiva deverão trocar de mãos.
Todos boquiabertos, queriam mais e mais, porém, o visitante alegando cansaço, disse que deveria descansar para seguir o rumo da fortuna na manhã seguinte.
À noite, enquanto tomava sua sopa rala na pensão de Leócia, recebeu a visita do fazendeiro mais rico do lugar, seu Aldamiro, descendente direto dos primeiros bandeirantes que passaram por ali. O homem queria pagar qualquer preço que o visitante pedisse pelos seus pequenos pássaros. Suas economias começavam a mostrar uma diminuição, as filhas já estavam na idade de irem estudar em Goiás, as fazendas precisavam de melhorias... Os graciosos e barulhentos Raquinas regius seriam sua salvação.
O homem de linho branco regateou, colocou dificuldades, alegou ainda não poder vendê-los, ainda não achara seu tesouro, mas o homem insistia, até não ter mais o que dar para o visitante que não aceitava terras, mercadorias, apenas dinheiro, afinal essa era a tradição deixada pelo velho Raquina indiano.
Por fim, cedeu. De manhã consultaria os pássaros e, dependendo da resposta, fariam negócio. Esfregando as mãos, ansioso pelo negócio a ser feito, Aldamiro saiu quase correndo, precisava juntar todo o dinheiro que tinha e vender algumas vacas naquela noite.
Mal saiu Aldamiro, o pensionista recebeu a visita do prefeito, capitão Alcobaz. As propostas pelo pássaro aumentavam até não mais poder e cobriam as de Aldamiro. Sai Alcobaz, chega Hernildo e o leilão continua. O converseiro baixinho, quase um sussurro, se repetiu até quase meia noite. Percebendo que ninguém cobriria a proposta de Godofredo, o homem de branco manda Anilson atrás do fazendeiro com urgência.
Não demorou, lá estava o comprador com duas sacolas de couro transbordando de cédulas e moedas. Acordara o banqueiro e o fizera quase esvaziar o cofre do banco.
Feita a venda, o visitante lhe deu orientações de como alimentar as aves, como deveria evitar o excesso de sol e barulho, a que horas deveria fazer a consulta aos bichinhos e todos os demais cuidados a serem tomados.
Acompanhou Godofredo até a porta e ali ficou até vê-lo sumir na segunda esquina.
Numa urgência de médico, mandou que Leócia lhe fechasse a conta, pagou, levou sua arca para o tílburi que atrelou ao cavalo branco com a maestria e rapidez de poucos e pôs-se quase a galope para fora da cidade, pelo norte já que todos imaginavam que ele seguia para o sul por conta de seu caminho de chegada. Não dormiria e nem descansaria até estar muito longe, onde seu parceiro o encontraria numa carroça toda coberta e carregada com várias gaiolas com trios de periquitos australianos.
Limite
Foi aqui nessa casinha que aconteceu, como acontecia todos os dias, por muitos dias. Da janela, todo final de tarde, Geraldino via Sanderlice aparecer lá no alto da ladeira, a via descer e desaparecer antes da subida seguinte que demorava mais de duas horas, mais de três. Ela chegava ofegante, descabelada e com cheiro de suor de homem.
Geraldino não reclamava nem tinha tempo de reclamar. Recebia murro na orelha, pisão nas partes, gritos no ouvido porque a janta estava fria, porque a casa estava suja, por motivo nenhum, apenas por hábito.
No início a vizinhança estranhava. Como aquele homem agüentava tudo calado? Depois se conformou com o conformismo de Geraldino. A cada boca da noite, a mesma coisa. Geraldino via Sanderlice descer a ladeira e esperava a subida demorada para o lado de cá. Em quatro épocas diferentes a viu subir buchuda.
Nasceu o gazo com a cara de Judécio; nasceu um indiozinho parecido com Tucuna; nasceu um amarelinho de olhos rasgados e cabelos iguais ao do Katedi; por último a esposa pariu um negrinho, cópia perfeita de Cateu.
Geraldino nunca reclamou, não tinha tempo. Antes de falar, lá vinha o tabefe, o chute no saco, os gritos. Quando Sanderlice estava pesada em sua prenhice e se movimentava com mais dificuldade, apelava para o cabo da vassoura, a corda da rede ou qualquer coisa que causasse dor e estrago. Geraldino, calado.
Um dia, o marido lá, pôr-do-Sol, na janela, vê Sanderlice descer a ladeira de mãos dadas com Ordélia. Estranhou na primeira vez; na segunda, desconfiou; quando viu o beijo, se destemperou.
Madou os quatro filhos para a casa dos avós e deu uma surra em Sanderlice que ela jamais esqueceria. Dois meses de cama, pernas, braços e cara quebrados de tanta pancada pela sem vergonhice de trocá-lo por uma mulher.
Geraldino não reclamava nem tinha tempo de reclamar. Recebia murro na orelha, pisão nas partes, gritos no ouvido porque a janta estava fria, porque a casa estava suja, por motivo nenhum, apenas por hábito.
No início a vizinhança estranhava. Como aquele homem agüentava tudo calado? Depois se conformou com o conformismo de Geraldino. A cada boca da noite, a mesma coisa. Geraldino via Sanderlice descer a ladeira e esperava a subida demorada para o lado de cá. Em quatro épocas diferentes a viu subir buchuda.
Nasceu o gazo com a cara de Judécio; nasceu um indiozinho parecido com Tucuna; nasceu um amarelinho de olhos rasgados e cabelos iguais ao do Katedi; por último a esposa pariu um negrinho, cópia perfeita de Cateu.
Geraldino nunca reclamou, não tinha tempo. Antes de falar, lá vinha o tabefe, o chute no saco, os gritos. Quando Sanderlice estava pesada em sua prenhice e se movimentava com mais dificuldade, apelava para o cabo da vassoura, a corda da rede ou qualquer coisa que causasse dor e estrago. Geraldino, calado.
Um dia, o marido lá, pôr-do-Sol, na janela, vê Sanderlice descer a ladeira de mãos dadas com Ordélia. Estranhou na primeira vez; na segunda, desconfiou; quando viu o beijo, se destemperou.
Madou os quatro filhos para a casa dos avós e deu uma surra em Sanderlice que ela jamais esqueceria. Dois meses de cama, pernas, braços e cara quebrados de tanta pancada pela sem vergonhice de trocá-lo por uma mulher.
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