Atanagildo havia aceitado o convite de Siderlene, sua musa das noites mal dormidas, para fazer rapel. Domingo, cedinho, a garota o pegou em casa e partiram para o campo. No carro de Siderlene iam mais duas amigas e todas aquelas tralhas de cordas e mosquetões.
Aos poucos, enquanto despertava de vez, Atanagildo começa a tomar consciência da besteira que fizera. Para impressionar a garota, amante da vida ao ar livre e de esportes radicais, e sob o efeito de duas doses de uísque aceitara o convite sem ter-se questionado se seria capaz de realizar tal tarefa. Estava percebendo sua acrofobia adormecida acordar.
Garoto do interior, onde os prédios mais altos não passavam de sobrados de dois andares, Atanagildo lembrava agora do dia em que fora visitar o primo, morador do décimo primeiro andar de um prédio na Barra, em Salvador. Impressionado com a vista que se tinha do mar, saiu para a varanda. Lembrava agora como se agora estivesse vivendo aquilo, do frio que sentiu percorrer o espinhaço, da vertigem, da sudorese quando olhou para baixo e viu a avenida com seus carrinhos de brinquedo, de como teve que segurar-se com força no parapeito da varanda para não desmaiar, de como gritava histérico e de como o primo teve que conduzi-lo de volta para dentro do apartamento.
De volta à realidade, perguntava-se por que fora tão covarde a ponto de não admitir seu medo de altura. Ela entenderia, saberia que não é uma coisa consciente, mas, não, o bobão tinha que topar o convite e se via dentro de um carro, com três lindas e aventureiras garotas, tendo a certeza que estaria sendo motivo de piedade e chacota dentro de uma hora.
Meia hora de subida por uma estrada de terra sinuosa, por entre árvores e pastos, chegaram ao platô onde já havia uma pequena multidão os esperando. Naquele ambiente em que se era possível sentir não só o cheiro, mas uma névoa de adrenalina, a adrenalina de Atanagildo empestava o ambiente e sua cueca.
Um bonitão com cara de super-herói de quadrinhos convocou os novatos para as instruções sobre o uso do equipamento e as medidas de segurança.
Atanagildo ficou um pouquinho aliviado ao perceber que, além dele, haviam mais doze novatos. Entre tantos poderia se esconder melhor e, talvez, passar desapercebido.
Tudo ia bem enquanto as instruções não passavam de nós, cordas, grampos, posição, como segurar a corda, o que evitar fazer e coisas tais. O instrutor instruía e Atanagildo fazia caras e bocas, demonstrando que entendia tudinho, que não teria dificuldade em praticar. Uma segurança de faz de conta.
Aos poucos começaram as descidas numa seqüência acordada entre os veteranos. Descia um antigo, depois um novato e assim se sucederiam. Um veterano, um novato, um veterano, um novato... Cavalheirescamente, Atanagildo ofereceu-se para ser o último. Para os outros foi uma atitude simpática, para ele foi um tempo a mais para pensar o que fazer para não descer. Chegar à beira do precipício estava totalmente fora de cogitação.
Siderlene foi a quarta veterana. Vendo-se sem os olhares de simpatia e admiração da amiga, sem ter pensado em nenhuma saída honrosa, Atanagildo embrenhou-se na mata e levou três dias de caminhada para cobrir os sessenta quilômetros, evitando estradas e humanos, até sua casa, de onde não sai há um mês.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Quase Pai
O bebê nasceria a qualquer momento. Adanálio alertou os colegas de trabalho e os chefes que, assim que a esposa telefonasse dando o alarme, deixaria tudo como estivesse e partiria correndo, não perderia por nada o parto de seu primeiro filho.
Precavido, durante toda a semana voltava para casa pelas ruas que denominava rota de fuga, ruas laterais onde o trânsito era bem menor que o das grandes vias. O trajeto ficava um pouco mais longo, mas poderia ser percorrido em vinte minutos, enquanto que pelas vias principais poderia levar quarenta minutos ou mais. Familiarizava-se com cada buraco, esquina, semáforo.
O expediente matutino estava no meio quando o celular tocou.
- Amor, vai ser agora.
A mensagem curta sequer foi ouvida até o final. Pulou da cadeira gritando "tá na hora!". Estabanado saiu correndo do escritório em direção aos elevadores antes dos colegas recuperarem-se do susto com o grito que quebrara a calma habitual.
- O elevador! Segura o elevador!, bradava durante a corrida. Para sua sorte a porta abria-se no justo momento. Entrou, a porta fechou-se. Estava subindo. Droga!
Apertou o botão 6 do andar imediatamente superior. A porta abriu-se mais lenta que sempre. Saltou. As escadas. Desceu como um atleta de cem metros rasos. Passou a toda pelo saguão, pela portaria, pela porta rumo ao estacionamento.
O carro na vaga 1. As chaves! Esquecera-as no bolso do paletó pendurado na cadeira. Cérebro rápido como um ladrão, pega o celular e liga para o escritório. Os dois toques antes do atendimento pareciam um ano.
- Sanderléia, rápido, esqueci a chave no bolso do paletó. Rápido! Joga pela janela.
Sanderléia prestativa, mas com um raciocínio lento, esbaforida abre a janela, vê Adanálio na calçada fazendo gestos como um operador de taxiagem, não entende o que sinalizava o quase pai, atira o paletó com a chave no bolso.
Aberta ao vento, a roupa faz acrobacias e cai sobre a marquise, lenta como um pára-quedas. Xingava enquanto corria para a portaria, "mulher burra!".
O porteiro não entendia nada pela segunda vez em poucos minutos ao vê-lo passar como um raio. Nada de elevadores. Escadas subidas de dois em dois degraus. Corredor. Abre a porta da sala de espera do escritório do advogado num supetão. A secretária solta um grito, atira os papéis que segurava para o alto, tropeça no bebedouro derrubando o garrafão quase cheio que se arrebenta no chão. Cachoeira mineral que alaga o carpete e os documentos.
Em sua carreira irrompe no escritório. O advogado, em choque, vê sua peruca voar enquanto despenca da cadeira aos gritinhos. A cliente idosa reage apenas com o esbugalhar dos olhos e a cara de pânico. A janela travada por causa do ar condicionado. Pega a cadeira vazia do advogado, agora encolhido no canto da sala em posição fetal, e a arremessa contra o vidro, lançando cacos em todas as direções e o barulho de um trovão seguido da sirene do alarme.
Salta para a marquise, pega o paletó. Tem vontade de se jogar dali direto para a rua, mas, sensato, percebe que altura não recomenda. Salta de volta para o escritório. Na porta já coalhavam curiosos. A secretária histérica grita "pega! Pega!". O contador tenta segurá-lo, a dentista, o office-boy, a pequena multidão. Com os braços agitados como um nadador frenético, tentava se desvencilhar enquanto berrava "sai! Meu filho vai nascer!". O cotovelo acertou um nariz, o dedo entrou num olho, a palma da mão acertou uma orelha, viu uma dentadura voando.
Sob impropérios e palavrões a escada que desceu voando. Portaria. Uma peitada no moto-boy jogando cada um para um lado aos tropeções, reequilibra-se como Pelé e vê um capacete no ar seguido por dois envelopes. Calçada. Estacionamento.
- Moto-boy filho de uma égua!
Xingava não pela trombada, mas pela moto estacionada fechando seu carro. Tentou arrastá-la. Não conseguiu, as rodas travadas. Atirou a moto no chão e, com uma força que não sabia ter, afastou-a para longe do caminho dos pneus. Abriu a porta, atirou o paletó no banco do carona e partiu a mil. Ainda pôde ver a turba saindo pela portaria à sua caça.
Viraria à direita no primeiro semáforo. Fechado! Um ano para abrir e os carros da frente impedindo que cometesse uma infração. Abriu. Vira. Acelera.
Como previra, o trânsito era tranqüilo naquelas ruas. Poderia aumentar a velocidade, na maioria vias preferenciais. E se houvessem crianças brincando na rua? Um cachorro? Um velhinho atravessando? Corria apertando a buzina com força desejando que fosse uma sirene.
Voava pelo asfalto liso. Ao passar por uma esquina, teve a impressão de ter visto um policial numa moto na transversal à direita. Estava certo, era um policial que se apresentava à sua retaguarda, sirene e luzes ligadas.
A cidade estava muito violenta, a polícia muito tensa. Melhor parar para não correr o risco de receber um tiro de um policial afoito que já se comunicava pelo rádio, provavelmente pedindo reforço, via pelo retrovisor. Seta para a direita, reduz a velocidade e encosta no meio-fio. O policial pára alguns metros atrás, saca a arma, agacha-se atrás da moto.
- Rápido, seu guarda, rápido. Multa logo e me libera, falava entre dentes.
- Abra a porta devagar e saia do carro, gritava o policial.
Pombas! Tem que ser devagar?. Obedeceu, mãos para o alto.
Ele não queria sair devagar, desejava apressar as coisas, mas não faria nada impensado que pudesse fazer seu filho nascer órfão de pai.
O policial com a pose de autoridade que é peculiar à função, talvez esperando uma oferta de propina que não viria jamais do correto Adanálio, ou apenas exercitando o poder, dava sermão e multa. Inquieto o quase novo pai ousou interromper e explicar que a esposa o aguardava para que a levasse à maternidade, daí tanta pressa.
- Por que o senhor não disse antes? A minha também está grávida e eu imagino seu desespero. Não se desespere, cidadão! Siga-me que lhe farei a escolta, falava de peito inchado o policial do alto do seu coturno e importância.
Agora eram dois sem freio pelas ruas do bairro: o policial, sua moto e sua sirene, e Adanálio com seu desespero e a camisa empapada de suor.
Oitenta, cem quilômetros por hora pelas ruas estreitas. Os poucos carros que vinham à frente encostavam ao som e luzes da polícia. Agora as coisas estavam quase perfeitas.
Malditos vândalos! Roubaram a tampa do bueiro!
O policial viu a tempo de reduzir a velocidade, mas não de evitar a queda. Saiu catando cavaco pelo asfalto, moto estraçalhada quicando sem rumo, a freada brusca de Adanálio que mal espera o carro parar e já salta correndo em direção ao policial deitado que mantinha a pose de herói:
- Vá, cidadão, sua esposa precisa mais do senhor do que eu nesse momento.
Com o celular na mão e ligando para o serviço de ambulância, Adanálio sabia que não poderia abandonar o soldado sozinho sobre o asfalto fervente e sob o sol escaldante.
Já juntava gente. Turba, burburinho, os moleques depenando a moto, as velhas e seus "coitadinho", os inventores de histórias e suas várias versões, o calor infernal e nada de ambulância.Juntos chegam o socorro e a rádio patrulha. Pressa no socorro, vagar nas explicações. O próprio guarda ferido fala a um colega o ocorrido, ajudando a liberar Adanálio.
Dificuldade em se livrar da multidão. Atenção no caminho, velocidade controlada e nervos quase. Nada mais poderia dar errado. E não deu. Caminho livre e sereno até o edifício onde morava no oitavo andar.
"Olá" para o porteiro, corrida até o elevador, aperta o botão e a luz não acende.
- Tá sem energia, doutor, faltou agorinha.
Escada. Por sorte não parara com o futebol domingueiro, o preparo físico seria essencial. Subida, dois em dois degraus, oito andares. Rezava enquanto subia.
Na porta do apartamento o bilhete curto e duro: "Fui de táxi, seu irresponsável!".
Exausto, sentou-se no chão, recostou-se na porta, respirou fundo e tomou uma decisão definitiva e irrevogável:
- Vasectomia.
Precavido, durante toda a semana voltava para casa pelas ruas que denominava rota de fuga, ruas laterais onde o trânsito era bem menor que o das grandes vias. O trajeto ficava um pouco mais longo, mas poderia ser percorrido em vinte minutos, enquanto que pelas vias principais poderia levar quarenta minutos ou mais. Familiarizava-se com cada buraco, esquina, semáforo.
O expediente matutino estava no meio quando o celular tocou.
- Amor, vai ser agora.
A mensagem curta sequer foi ouvida até o final. Pulou da cadeira gritando "tá na hora!". Estabanado saiu correndo do escritório em direção aos elevadores antes dos colegas recuperarem-se do susto com o grito que quebrara a calma habitual.
- O elevador! Segura o elevador!, bradava durante a corrida. Para sua sorte a porta abria-se no justo momento. Entrou, a porta fechou-se. Estava subindo. Droga!
Apertou o botão 6 do andar imediatamente superior. A porta abriu-se mais lenta que sempre. Saltou. As escadas. Desceu como um atleta de cem metros rasos. Passou a toda pelo saguão, pela portaria, pela porta rumo ao estacionamento.
O carro na vaga 1. As chaves! Esquecera-as no bolso do paletó pendurado na cadeira. Cérebro rápido como um ladrão, pega o celular e liga para o escritório. Os dois toques antes do atendimento pareciam um ano.
- Sanderléia, rápido, esqueci a chave no bolso do paletó. Rápido! Joga pela janela.
Sanderléia prestativa, mas com um raciocínio lento, esbaforida abre a janela, vê Adanálio na calçada fazendo gestos como um operador de taxiagem, não entende o que sinalizava o quase pai, atira o paletó com a chave no bolso.
Aberta ao vento, a roupa faz acrobacias e cai sobre a marquise, lenta como um pára-quedas. Xingava enquanto corria para a portaria, "mulher burra!".
O porteiro não entendia nada pela segunda vez em poucos minutos ao vê-lo passar como um raio. Nada de elevadores. Escadas subidas de dois em dois degraus. Corredor. Abre a porta da sala de espera do escritório do advogado num supetão. A secretária solta um grito, atira os papéis que segurava para o alto, tropeça no bebedouro derrubando o garrafão quase cheio que se arrebenta no chão. Cachoeira mineral que alaga o carpete e os documentos.
Em sua carreira irrompe no escritório. O advogado, em choque, vê sua peruca voar enquanto despenca da cadeira aos gritinhos. A cliente idosa reage apenas com o esbugalhar dos olhos e a cara de pânico. A janela travada por causa do ar condicionado. Pega a cadeira vazia do advogado, agora encolhido no canto da sala em posição fetal, e a arremessa contra o vidro, lançando cacos em todas as direções e o barulho de um trovão seguido da sirene do alarme.
Salta para a marquise, pega o paletó. Tem vontade de se jogar dali direto para a rua, mas, sensato, percebe que altura não recomenda. Salta de volta para o escritório. Na porta já coalhavam curiosos. A secretária histérica grita "pega! Pega!". O contador tenta segurá-lo, a dentista, o office-boy, a pequena multidão. Com os braços agitados como um nadador frenético, tentava se desvencilhar enquanto berrava "sai! Meu filho vai nascer!". O cotovelo acertou um nariz, o dedo entrou num olho, a palma da mão acertou uma orelha, viu uma dentadura voando.
Sob impropérios e palavrões a escada que desceu voando. Portaria. Uma peitada no moto-boy jogando cada um para um lado aos tropeções, reequilibra-se como Pelé e vê um capacete no ar seguido por dois envelopes. Calçada. Estacionamento.
- Moto-boy filho de uma égua!
Xingava não pela trombada, mas pela moto estacionada fechando seu carro. Tentou arrastá-la. Não conseguiu, as rodas travadas. Atirou a moto no chão e, com uma força que não sabia ter, afastou-a para longe do caminho dos pneus. Abriu a porta, atirou o paletó no banco do carona e partiu a mil. Ainda pôde ver a turba saindo pela portaria à sua caça.
Viraria à direita no primeiro semáforo. Fechado! Um ano para abrir e os carros da frente impedindo que cometesse uma infração. Abriu. Vira. Acelera.
Como previra, o trânsito era tranqüilo naquelas ruas. Poderia aumentar a velocidade, na maioria vias preferenciais. E se houvessem crianças brincando na rua? Um cachorro? Um velhinho atravessando? Corria apertando a buzina com força desejando que fosse uma sirene.
Voava pelo asfalto liso. Ao passar por uma esquina, teve a impressão de ter visto um policial numa moto na transversal à direita. Estava certo, era um policial que se apresentava à sua retaguarda, sirene e luzes ligadas.
A cidade estava muito violenta, a polícia muito tensa. Melhor parar para não correr o risco de receber um tiro de um policial afoito que já se comunicava pelo rádio, provavelmente pedindo reforço, via pelo retrovisor. Seta para a direita, reduz a velocidade e encosta no meio-fio. O policial pára alguns metros atrás, saca a arma, agacha-se atrás da moto.
- Rápido, seu guarda, rápido. Multa logo e me libera, falava entre dentes.
- Abra a porta devagar e saia do carro, gritava o policial.
Pombas! Tem que ser devagar?. Obedeceu, mãos para o alto.
Ele não queria sair devagar, desejava apressar as coisas, mas não faria nada impensado que pudesse fazer seu filho nascer órfão de pai.
O policial com a pose de autoridade que é peculiar à função, talvez esperando uma oferta de propina que não viria jamais do correto Adanálio, ou apenas exercitando o poder, dava sermão e multa. Inquieto o quase novo pai ousou interromper e explicar que a esposa o aguardava para que a levasse à maternidade, daí tanta pressa.
- Por que o senhor não disse antes? A minha também está grávida e eu imagino seu desespero. Não se desespere, cidadão! Siga-me que lhe farei a escolta, falava de peito inchado o policial do alto do seu coturno e importância.
Agora eram dois sem freio pelas ruas do bairro: o policial, sua moto e sua sirene, e Adanálio com seu desespero e a camisa empapada de suor.
Oitenta, cem quilômetros por hora pelas ruas estreitas. Os poucos carros que vinham à frente encostavam ao som e luzes da polícia. Agora as coisas estavam quase perfeitas.
Malditos vândalos! Roubaram a tampa do bueiro!
O policial viu a tempo de reduzir a velocidade, mas não de evitar a queda. Saiu catando cavaco pelo asfalto, moto estraçalhada quicando sem rumo, a freada brusca de Adanálio que mal espera o carro parar e já salta correndo em direção ao policial deitado que mantinha a pose de herói:
- Vá, cidadão, sua esposa precisa mais do senhor do que eu nesse momento.
Com o celular na mão e ligando para o serviço de ambulância, Adanálio sabia que não poderia abandonar o soldado sozinho sobre o asfalto fervente e sob o sol escaldante.
Já juntava gente. Turba, burburinho, os moleques depenando a moto, as velhas e seus "coitadinho", os inventores de histórias e suas várias versões, o calor infernal e nada de ambulância.Juntos chegam o socorro e a rádio patrulha. Pressa no socorro, vagar nas explicações. O próprio guarda ferido fala a um colega o ocorrido, ajudando a liberar Adanálio.
Dificuldade em se livrar da multidão. Atenção no caminho, velocidade controlada e nervos quase. Nada mais poderia dar errado. E não deu. Caminho livre e sereno até o edifício onde morava no oitavo andar.
"Olá" para o porteiro, corrida até o elevador, aperta o botão e a luz não acende.
- Tá sem energia, doutor, faltou agorinha.
Escada. Por sorte não parara com o futebol domingueiro, o preparo físico seria essencial. Subida, dois em dois degraus, oito andares. Rezava enquanto subia.
Na porta do apartamento o bilhete curto e duro: "Fui de táxi, seu irresponsável!".
Exausto, sentou-se no chão, recostou-se na porta, respirou fundo e tomou uma decisão definitiva e irrevogável:
- Vasectomia.
Se gostou, muito obrigado. Leia os demais; se não, sinto muito, fiz o meu melhor.
Aleivosia
Era aleivosia mesmo, Teófes, tô te dizeno! Como eu num havéra de sabê a deferença entre aleivosia e gente de carne e osso? Lósco que era coisa do ôtro mundo, tô te falano.
Purque eu sei, ora. Óia, falá cumigo inté que ela falô, mai eu num posso dizê o que foi, tu num ia gostá de sabê.
Num inséste, Teófes, num posso falá, não. Dosulivre!
Que ôme teimoso! Se eu tô falano que era aleivosia, é purque era, disgrama.
E como que tu sabe que num inzéste?
Ah, o pade disse... Logo o pade. Num é esse pade que fala que é pecado, vai prosinferno quem deseja a muié dos ôtro? E apois. É o mesmo pade que reza a missa todin-a oiando pus juêio de dona Zândi de Urbino da farmaça. Num é ele que diz que é pecado negoçá fora do casamento? Pois num é ele mesmo que coiseia com umas trêis carola lá na sacristia e todo mundo sabe? Pur que eu havéra de querditar nele quando diz que num inzéste visage? Apois eu lhe afirmo que inzéste e eu vi com esses zói que hai de vê Jesus Cristin-o no dia do juízo. Tu vai crê ni mim ô num pade mintiroso?
Oxe! Quando que eu mintí pa tu?
Ah, mai num tem valença. Nóis tava interessado na mesma muié e dizem que no amô e na guerra vale tudo, num dizem? E apois? Mai tu tomém mentia pa eu, ô tua acha que eu num sei que quem mandava aquelas frô pa ela era tu? O peó é que ela num ficô nem cum eu nem cum tu. Terminô fugino com o engomadin-o lá das Grota Grande. A gente perdemo junto.
Como? Só vai crê n’eu se eu dissé o que ela falô? Posso não, Teófes, num vai sê bom pa tu sabê.
Tá, foi ansim. Eu tava lá nos fundo do cercado. Era meia noite quando iscuitei os porco fazeno algazarra. Peguei a socadêra e fui lá pensano que pudia sê cobra, cachorro do mato, filiça ô outro bicho.
Rodei o terrêro todo, cavuca de cá, cavuca de lá e nada. E os porco grunindo. A lua tava cheiona, amarela, alumiano tudo, facim de vê tudo derredó. Mai eu num via nada.
Cansado de percurá, sentei na cerca, iscorei a ispingarda no morão, peguei uma paia e fiquei ali pitano, isperano aparecê o bicho que causava o rebuliço. Aos pôco a porcada foi carmano, carmano e vortô o silênço. Só os grilo, os sapo, os vaga-lume e os bacurau imbaxo do lua, e eu pitando aquela gostozura que Deus deu.
Cabei o cigarro, vi que tava tudo na paiz do Sinhô e arresorvi vortá pra rede. Quando dici da cerca e me virei pa pegá a socadêra, ela tava impé do lado. Muito alta, branca mais branca que a luz da lua, cum vistido branco inté os pé que num tocava o chão, os zói azuzim, azuzim, oiando pa eu.
Subiu um gelo pelo ispin-aço, sinti os cabelo ripiá, minhas perna bambeô, a boca secô. Num cunsiguia mais me mexê. Ela oiava pa eu com os zoião azul. Daí ela me preguntô um-a coisa que eu, gaguim que nem o Zelotéro, quaix sem voz, respundi. Daí ela falô ôtra coisa e sumiu no ar.
Posso dizê não, Teófes, num inséste.
Que caba mais teimoso!
Ah, é? Só querdita se eu dissé? Intonce vô dizê.
Ela priguntô se eu era o Teófes Figueira dos Anjo. Eu dixe que num era. Aí ela dixe que eu adiscurpasse ela, que ela que ela quiria falar era cum o Teófes. Pronto, tu priguntô, eu falei.
Péra, Teófes! Vorta aqui! Num dianta se iscondê, não, Teófes, uma noite ela te acha! Vorta, Teófes!
Num te falei, Raonílio, que esse tar de Teófes é um cagão? Ganhei a aposta? Intonce paga a pinga.
Purque eu sei, ora. Óia, falá cumigo inté que ela falô, mai eu num posso dizê o que foi, tu num ia gostá de sabê.
Num inséste, Teófes, num posso falá, não. Dosulivre!
Que ôme teimoso! Se eu tô falano que era aleivosia, é purque era, disgrama.
E como que tu sabe que num inzéste?
Ah, o pade disse... Logo o pade. Num é esse pade que fala que é pecado, vai prosinferno quem deseja a muié dos ôtro? E apois. É o mesmo pade que reza a missa todin-a oiando pus juêio de dona Zândi de Urbino da farmaça. Num é ele que diz que é pecado negoçá fora do casamento? Pois num é ele mesmo que coiseia com umas trêis carola lá na sacristia e todo mundo sabe? Pur que eu havéra de querditar nele quando diz que num inzéste visage? Apois eu lhe afirmo que inzéste e eu vi com esses zói que hai de vê Jesus Cristin-o no dia do juízo. Tu vai crê ni mim ô num pade mintiroso?
Oxe! Quando que eu mintí pa tu?
Ah, mai num tem valença. Nóis tava interessado na mesma muié e dizem que no amô e na guerra vale tudo, num dizem? E apois? Mai tu tomém mentia pa eu, ô tua acha que eu num sei que quem mandava aquelas frô pa ela era tu? O peó é que ela num ficô nem cum eu nem cum tu. Terminô fugino com o engomadin-o lá das Grota Grande. A gente perdemo junto.
Como? Só vai crê n’eu se eu dissé o que ela falô? Posso não, Teófes, num vai sê bom pa tu sabê.
Tá, foi ansim. Eu tava lá nos fundo do cercado. Era meia noite quando iscuitei os porco fazeno algazarra. Peguei a socadêra e fui lá pensano que pudia sê cobra, cachorro do mato, filiça ô outro bicho.
Rodei o terrêro todo, cavuca de cá, cavuca de lá e nada. E os porco grunindo. A lua tava cheiona, amarela, alumiano tudo, facim de vê tudo derredó. Mai eu num via nada.
Cansado de percurá, sentei na cerca, iscorei a ispingarda no morão, peguei uma paia e fiquei ali pitano, isperano aparecê o bicho que causava o rebuliço. Aos pôco a porcada foi carmano, carmano e vortô o silênço. Só os grilo, os sapo, os vaga-lume e os bacurau imbaxo do lua, e eu pitando aquela gostozura que Deus deu.
Cabei o cigarro, vi que tava tudo na paiz do Sinhô e arresorvi vortá pra rede. Quando dici da cerca e me virei pa pegá a socadêra, ela tava impé do lado. Muito alta, branca mais branca que a luz da lua, cum vistido branco inté os pé que num tocava o chão, os zói azuzim, azuzim, oiando pa eu.
Subiu um gelo pelo ispin-aço, sinti os cabelo ripiá, minhas perna bambeô, a boca secô. Num cunsiguia mais me mexê. Ela oiava pa eu com os zoião azul. Daí ela me preguntô um-a coisa que eu, gaguim que nem o Zelotéro, quaix sem voz, respundi. Daí ela falô ôtra coisa e sumiu no ar.
Posso dizê não, Teófes, num inséste.
Que caba mais teimoso!
Ah, é? Só querdita se eu dissé? Intonce vô dizê.
Ela priguntô se eu era o Teófes Figueira dos Anjo. Eu dixe que num era. Aí ela dixe que eu adiscurpasse ela, que ela que ela quiria falar era cum o Teófes. Pronto, tu priguntô, eu falei.
Péra, Teófes! Vorta aqui! Num dianta se iscondê, não, Teófes, uma noite ela te acha! Vorta, Teófes!
Num te falei, Raonílio, que esse tar de Teófes é um cagão? Ganhei a aposta? Intonce paga a pinga.
Ari Burro
Aristodemo não teve o amor de mãe, morta no parto. “E daí?”, respondia para fazer pouco caso de sua perda, “se mãe fosse bom Jesus não tinha deixado a dele”. Em troca recebeu a vingança do pai, Deleutério, que o culpou por toda a vida por sua viuvez. Nem de longe isso afetou o garoto ingênuo que via em tudo ensinamentos e fortaleza. Sequer percebia o ódio mal contido do pai.
Não fosse a Dozinha, sua tia mais nova, para dar-lhe leite, trocar-lhe os cueiros e todos os cuidados mínimos, porém capengas, já que Dozinha tinha pouco mais de dez anos de idade e cuidava do bebê como se de uma boneca, Aristodemo teria morrido à mingua ou sufocado em suas próprias sujeiras.
Cresceu descalço e nu até que uma alma caridosa da vizinhança lhe presenteava com um calção velho que já não servia mais para os próprios filhos.
Quando não estava carregando água para a limpeza da casa, para o banho de Deleutério, indo e voltando da venda de onde trazia alguma farinha, rapadura e cachaça, varrendo o terreiro, alimentando os porcos e galinhas, que por sorte andavam livres pelo quintal, diminuindo suas tarefas, o moleque pé-de-vento estava correndo de um lado para os outro pelas ruas do lugarejo. Metia-se nas conversas, hora enxotado, hora afagado, carregava sacolas na feira, sentava na calçada para ouvir o velho cego que tocava pífano na porta da igreja em troca de alguma moeda. Ajudava as lavadeiras com suas trouxas rumo ao rio, pegava na vassoura junto com o coroinha depois da missa para deixar o adro da matriz sem pó, ajudava as velhinhas a atravessarem as ruas evitando as bicicletas e carroças. Não parava.
Um dia perguntou ao pai por que recebera tal nome, ao que, sem medir sua maldade, Deleutério dissera que era o nome do burro que ganhara do avô. Sem entender a ofensa, deixou de lado até que o Calafeu, filho do dono da venda, perguntou-lhe a mesma coisa. Inocentemente contou a origem do seu batismo – batismo por assim dizer, nunca fora batizado. Virou motivo de gozação da molecada, sem dar-se conta da crueldade por trás.
Dona Dorazilda, a professora, penalizada, tentou consolá-lo, mesmo ele nunca ter-se sentido ofendido, explicando que o burro era um animal forte, trabalhador, o melhor amigo do sertanejo. O efeito foi o contrário do esperado pela velha. A partir de então o próprio Aristodemo se apresentava como o menino-burro, orgulhoso, era forte, trabalhador e o melhor amigo das pessoas do lugar. Virou o Ari Burro e a chacota perdeu a força, virou nome.
Ari Burro crescia com um sorriso nos lábios, pernas rápidas, raciocínio pronto e sabendo fazer de tudo.
Um dia chegaram as freiras. Montaram uma escola. Saíam pela periferia daquela periferia catando as crianças mais pobres e as levavam para o semi-internato. Em troca da disciplina rígida, dos ensinamentos puxados de álgebra e gramática, acrescentavam-se os religiosos, de arte, canto e a inseparável palmatória. Davam roupas limpas, cadernos, lápis e três refeições por dia. A última parte interessou a Ari Burro.
Se fosse necessário aprender a ler, a somar e estudar a Bíblia naquelas intermináveis horas em troca de uma comidinha quentinha e feita por mulheres tão limpinhas, estava disposto ao sacrifício.
Não foi fácil domar o xucro Aristodemo. Foram palmatórias e mais palmatórias, vara de marmelo na bunda, puxões de orelha, ficar em pé por duas horas, imóvel, sob o sol quente, castigo de joelho no milho, mas aos poucos as irmãs o moldavam. Ele agüentava pela sopa, o pão, o café com leite, o arroz com galinha à cabidela nos dias festivos e os doces de batata que, volta e meia, aparecia em suas mesas.
Já não se via mais Ari Burro correndo pelas ruas, ajudando a quem precisasse, carregando embrulhos ou trouxas de roupas. As beatas varriam o terreiro da igreja, as velhinhas atravessavam as ruas sozinhas. Nem Deleutério tinha mais chance de espinafrar o filho que, quando em casa, se refugiava no fundo do quintal sob a jaqueira com seus livros e cadernos.
Em sua primeira semana no colégio das freiras, lhe perguntaram o que gostaria de ser quando crescesse.
- Deus.
- Ninguém pode ser Deus, Ele é Único!, assustou-se irmã Anunciata.
- Mas eu quero ser Deus.
- Não blasfeme, garoto, ou vai para o castigo.
- Irmã, a senhora não perguntou o que eu queria ser? Eu quero ser Deus.
- Você não quer ser padre?
- Eu até queria, mas agora eu quero ser Deus.
- E posso saber por que o senhor quer ser Deus?
- Porque ele é rico.
- Quem disse que Deus é rico?
- Eu sei.
- E como o senhor sabe?
- Todo dia o padre não passa um saquinho na missa recolhendo dinheiro do povo e diz que é pra Deus? Se fosse pro padre eu queria ser padre, mas já que é pra Deus, eu quero ser Deus.
Surra de vara de marmelo! Castigo! Um dia sem comer.
Desistiu de ser Deus. Padre já estava bom.
Já no seminário, um dia recostou-se na janela observando a vida na cidadezinha e viu um garotinho pretinho como ele, descalço, vestindo um calçãozinho rasgado e sujo, atravessando a praça correndo em direção à venda do seu Sodó. Pouco depois o garoto saía correndo de novo com um pacote de velas na mão, um sorriso na cara e a velocidade de um alazão.
Algo despertou em Aristodemo. Empertigou-se, clareou o cenho antes carregado, como se iluminado por divina luz. O que estava fazendo consigo?
- Ora, ora, ora. Não é que estou me tornando um burro mesmo? Eu não era Ari Burro à toa...
Arrancou a batina, saiu do prédio e voltou à sua vida livre de antes com seu pífano, sua sandália, a pouca roupa e ajudando de verdade as pessoas a quem sempre teve tanto bem e não percebia.
Não fosse a Dozinha, sua tia mais nova, para dar-lhe leite, trocar-lhe os cueiros e todos os cuidados mínimos, porém capengas, já que Dozinha tinha pouco mais de dez anos de idade e cuidava do bebê como se de uma boneca, Aristodemo teria morrido à mingua ou sufocado em suas próprias sujeiras.
Cresceu descalço e nu até que uma alma caridosa da vizinhança lhe presenteava com um calção velho que já não servia mais para os próprios filhos.
Quando não estava carregando água para a limpeza da casa, para o banho de Deleutério, indo e voltando da venda de onde trazia alguma farinha, rapadura e cachaça, varrendo o terreiro, alimentando os porcos e galinhas, que por sorte andavam livres pelo quintal, diminuindo suas tarefas, o moleque pé-de-vento estava correndo de um lado para os outro pelas ruas do lugarejo. Metia-se nas conversas, hora enxotado, hora afagado, carregava sacolas na feira, sentava na calçada para ouvir o velho cego que tocava pífano na porta da igreja em troca de alguma moeda. Ajudava as lavadeiras com suas trouxas rumo ao rio, pegava na vassoura junto com o coroinha depois da missa para deixar o adro da matriz sem pó, ajudava as velhinhas a atravessarem as ruas evitando as bicicletas e carroças. Não parava.
Um dia perguntou ao pai por que recebera tal nome, ao que, sem medir sua maldade, Deleutério dissera que era o nome do burro que ganhara do avô. Sem entender a ofensa, deixou de lado até que o Calafeu, filho do dono da venda, perguntou-lhe a mesma coisa. Inocentemente contou a origem do seu batismo – batismo por assim dizer, nunca fora batizado. Virou motivo de gozação da molecada, sem dar-se conta da crueldade por trás.
Dona Dorazilda, a professora, penalizada, tentou consolá-lo, mesmo ele nunca ter-se sentido ofendido, explicando que o burro era um animal forte, trabalhador, o melhor amigo do sertanejo. O efeito foi o contrário do esperado pela velha. A partir de então o próprio Aristodemo se apresentava como o menino-burro, orgulhoso, era forte, trabalhador e o melhor amigo das pessoas do lugar. Virou o Ari Burro e a chacota perdeu a força, virou nome.
Ari Burro crescia com um sorriso nos lábios, pernas rápidas, raciocínio pronto e sabendo fazer de tudo.
Um dia chegaram as freiras. Montaram uma escola. Saíam pela periferia daquela periferia catando as crianças mais pobres e as levavam para o semi-internato. Em troca da disciplina rígida, dos ensinamentos puxados de álgebra e gramática, acrescentavam-se os religiosos, de arte, canto e a inseparável palmatória. Davam roupas limpas, cadernos, lápis e três refeições por dia. A última parte interessou a Ari Burro.
Se fosse necessário aprender a ler, a somar e estudar a Bíblia naquelas intermináveis horas em troca de uma comidinha quentinha e feita por mulheres tão limpinhas, estava disposto ao sacrifício.
Não foi fácil domar o xucro Aristodemo. Foram palmatórias e mais palmatórias, vara de marmelo na bunda, puxões de orelha, ficar em pé por duas horas, imóvel, sob o sol quente, castigo de joelho no milho, mas aos poucos as irmãs o moldavam. Ele agüentava pela sopa, o pão, o café com leite, o arroz com galinha à cabidela nos dias festivos e os doces de batata que, volta e meia, aparecia em suas mesas.
Já não se via mais Ari Burro correndo pelas ruas, ajudando a quem precisasse, carregando embrulhos ou trouxas de roupas. As beatas varriam o terreiro da igreja, as velhinhas atravessavam as ruas sozinhas. Nem Deleutério tinha mais chance de espinafrar o filho que, quando em casa, se refugiava no fundo do quintal sob a jaqueira com seus livros e cadernos.
Em sua primeira semana no colégio das freiras, lhe perguntaram o que gostaria de ser quando crescesse.
- Deus.
- Ninguém pode ser Deus, Ele é Único!, assustou-se irmã Anunciata.
- Mas eu quero ser Deus.
- Não blasfeme, garoto, ou vai para o castigo.
- Irmã, a senhora não perguntou o que eu queria ser? Eu quero ser Deus.
- Você não quer ser padre?
- Eu até queria, mas agora eu quero ser Deus.
- E posso saber por que o senhor quer ser Deus?
- Porque ele é rico.
- Quem disse que Deus é rico?
- Eu sei.
- E como o senhor sabe?
- Todo dia o padre não passa um saquinho na missa recolhendo dinheiro do povo e diz que é pra Deus? Se fosse pro padre eu queria ser padre, mas já que é pra Deus, eu quero ser Deus.
Surra de vara de marmelo! Castigo! Um dia sem comer.
Desistiu de ser Deus. Padre já estava bom.
Já no seminário, um dia recostou-se na janela observando a vida na cidadezinha e viu um garotinho pretinho como ele, descalço, vestindo um calçãozinho rasgado e sujo, atravessando a praça correndo em direção à venda do seu Sodó. Pouco depois o garoto saía correndo de novo com um pacote de velas na mão, um sorriso na cara e a velocidade de um alazão.
Algo despertou em Aristodemo. Empertigou-se, clareou o cenho antes carregado, como se iluminado por divina luz. O que estava fazendo consigo?
- Ora, ora, ora. Não é que estou me tornando um burro mesmo? Eu não era Ari Burro à toa...
Arrancou a batina, saiu do prédio e voltou à sua vida livre de antes com seu pífano, sua sandália, a pouca roupa e ajudando de verdade as pessoas a quem sempre teve tanto bem e não percebia.
Insônia e Vigília
Tornou-se um par ímpar, diferente em quase tudo. Suas vidas intercederam-se quando, num desses encontros inexplicáveis da vida, se bateram em frente a uma estante de poesias na livraria do bairro.
Ele procurava Vinícius por paixão pela poesia do Poetinha, ela procurava em Vinícius uma companhia para as madrugadas insones.
Bearrice não dormia havia anos. Não era uma doença, somente uma companheira constante. Simplesmente não dormia. Gastava as horas lendo ou escrevendo. Não sentia cansaço, fadiga e nem mau humor. Apenas não dormia.
Lembrava que seu último sono longo fora há dois anos quando abrasava uma paixão feliz e incontrolável por Zenildo. Foi um amor de meses que se acabou com a transferência do rapaz para Santarém. Com seu próprio negócio e uma vida cheia de compromissos, ela não pôde acompanhá-lo e as noites acordadas voltaram.
Foi aí que percebeu que por toda a vida só dormira bem quando estava feliz.
Com Mateneu ocorria o oposto, dormia quando bem queria. Com vida solitária, sem amante ou grandes paixões, dormia para livrar-se dos dias vazios. Na leitura e nos sonhos vivia aventuras, romances correspondidos e completos. Seu dia se resumia às oito horas de trabalho e às obrigações chatas da vida de adulto. Cumpridos os compromissos, se atirava na cama com um livro e lia até o sono chegar. E sonhava com o que lera. Já fora D’Artagnan, Quixote, Eduardo Marciano, Macunaíma, Vadinho... Acordado era apenas mais um bedel da prefeitura. Os sonhos eram mais divertidos.
Aquele último Vinícius na prateleira encarregou-se de provocar o encontro com que ambos fantasiavam encontrar.
Cavalheirescamente, ele ofereceu à loira Bearrice a prioridade da compra. Ela, já com todos os demais livros do velho Vina na prateleira, insistiu para que ele levasse aquele. Enquanto discutiam quem ficaria com o livro, sentaram-se para um cafezinho, ali mesmo, na livraria. Aos poucos a conversa foi tomando outros rumos, suas próprias vidas, nomes, afazeres... Essas conversas próprias de quem acaba de se conhecer e que não deseja a separação breve.
Quando receberam o aviso do funcionário que a livraria estava fechando, perceberam o quanto conversaram. Era hora da decisão. Ele ganhou. Bearrice ficaria com o livro e, depois de lê-lo, o emprestaria a Mateneu. Trocaram os números de telefones com o compromisso de um novo cafezinho logo, logo.
Cada um para seu lado e um gostinho bom durante a insônia dela e as viagens noturnas dele.
Aquela madrugada ela atravessou folheando a lista telefônica, número por número, em busca do endereço do rapaz. Ele dormia com ela entre nuvens.
Nas primeiras horas da manhã ele recebeu das mãos de um estafeta o livro em embrulho colorido e dedicatória singela. Para retribuir o carinho e o presente, sem saber qual dos dois fora mais tocante, retirou do bolso o papelzinho em que anotara o nome da loura e a convidou para um jantar.
Mais uma despedida difícil à noite. A comida foi detalhe que degustaram aos pouquinhos para que não houvesse fim, não o jantar, mas a companhia. Falaram de suas vidas sem omitir detalhes, um queria que o outro soubesse tudo a seu respeito e queria saber tudo do outro. Muito foi dito, tudo foi ouvido e as horas passavam.
Alta madrugada foram novamente enxotados pelo último funcionário.
A vontade de não se separarem foi maior que a timidez e a pudicícia. Ela tomou a iniciativa e o convidou para irem à sua casa. Não houve titubeação, a resposta veio rápida.
Desde aquela noite, na mesma cama, ela dorme como uma criança, sorriso nos lábios e ele atravessa as noites velando para que a felicidade não acabe.
Ele procurava Vinícius por paixão pela poesia do Poetinha, ela procurava em Vinícius uma companhia para as madrugadas insones.
Bearrice não dormia havia anos. Não era uma doença, somente uma companheira constante. Simplesmente não dormia. Gastava as horas lendo ou escrevendo. Não sentia cansaço, fadiga e nem mau humor. Apenas não dormia.
Lembrava que seu último sono longo fora há dois anos quando abrasava uma paixão feliz e incontrolável por Zenildo. Foi um amor de meses que se acabou com a transferência do rapaz para Santarém. Com seu próprio negócio e uma vida cheia de compromissos, ela não pôde acompanhá-lo e as noites acordadas voltaram.
Foi aí que percebeu que por toda a vida só dormira bem quando estava feliz.
Com Mateneu ocorria o oposto, dormia quando bem queria. Com vida solitária, sem amante ou grandes paixões, dormia para livrar-se dos dias vazios. Na leitura e nos sonhos vivia aventuras, romances correspondidos e completos. Seu dia se resumia às oito horas de trabalho e às obrigações chatas da vida de adulto. Cumpridos os compromissos, se atirava na cama com um livro e lia até o sono chegar. E sonhava com o que lera. Já fora D’Artagnan, Quixote, Eduardo Marciano, Macunaíma, Vadinho... Acordado era apenas mais um bedel da prefeitura. Os sonhos eram mais divertidos.
Aquele último Vinícius na prateleira encarregou-se de provocar o encontro com que ambos fantasiavam encontrar.
Cavalheirescamente, ele ofereceu à loira Bearrice a prioridade da compra. Ela, já com todos os demais livros do velho Vina na prateleira, insistiu para que ele levasse aquele. Enquanto discutiam quem ficaria com o livro, sentaram-se para um cafezinho, ali mesmo, na livraria. Aos poucos a conversa foi tomando outros rumos, suas próprias vidas, nomes, afazeres... Essas conversas próprias de quem acaba de se conhecer e que não deseja a separação breve.
Quando receberam o aviso do funcionário que a livraria estava fechando, perceberam o quanto conversaram. Era hora da decisão. Ele ganhou. Bearrice ficaria com o livro e, depois de lê-lo, o emprestaria a Mateneu. Trocaram os números de telefones com o compromisso de um novo cafezinho logo, logo.
Cada um para seu lado e um gostinho bom durante a insônia dela e as viagens noturnas dele.
Aquela madrugada ela atravessou folheando a lista telefônica, número por número, em busca do endereço do rapaz. Ele dormia com ela entre nuvens.
Nas primeiras horas da manhã ele recebeu das mãos de um estafeta o livro em embrulho colorido e dedicatória singela. Para retribuir o carinho e o presente, sem saber qual dos dois fora mais tocante, retirou do bolso o papelzinho em que anotara o nome da loura e a convidou para um jantar.
Mais uma despedida difícil à noite. A comida foi detalhe que degustaram aos pouquinhos para que não houvesse fim, não o jantar, mas a companhia. Falaram de suas vidas sem omitir detalhes, um queria que o outro soubesse tudo a seu respeito e queria saber tudo do outro. Muito foi dito, tudo foi ouvido e as horas passavam.
Alta madrugada foram novamente enxotados pelo último funcionário.
A vontade de não se separarem foi maior que a timidez e a pudicícia. Ela tomou a iniciativa e o convidou para irem à sua casa. Não houve titubeação, a resposta veio rápida.
Desde aquela noite, na mesma cama, ela dorme como uma criança, sorriso nos lábios e ele atravessa as noites velando para que a felicidade não acabe.
Bozó
Cinco filhos e uma mulher, um barraco precisando de reformas antes que caíssem os caibros nas cabeças da família, Jairino se virava para colocar pão na mesa e os apetrechos da escola da meninada, duas coisas para as quais não relaxava.
Fez da sala de estar um botequinho onde só cabia o balcão entre ele as prateleiras lotadas de garrafas de cachaça, umas puras, outras temperadas, e os clientes que se aboletavam nos quatro bancos de pernas altas.
Num bairro pobre de uma cidade pobre, o boteco é o parque de diversão dos adultos, barato e de onde todos saem com a sensação de que não existem problemas, rindo ou chorando à toa, amando ou odiando mais suas mulheres conformadas.
A féria era dividida em três partes. Uma para a alimentação, outra para as demais necessidades da molecada e a terceira, o capital de giro que aplicava aos pouquinhos na birosca.
Já conseguira comprar duas mesas que se espalhavam com banquinhos na calçada, por falta de espaço dentro, e já ensaiava a compra de uma geladeira. Se a cachaça dava um lucro considerável, a cerveja incrementaria os negócios. Abrira uma porta nos fundos que dava direto na cozinha e de onde vinha um tira-gosto de carne assada aumentada com muita farinha. Fazia volume e economizava dinheiro na enganação.
Volta e meia aparecia um espertinho com um baralho e montava-se um jogo para tirar os níqueis dos incautos bêbados ansiosos por um dinheirinho extra. Jairino observava as táticas e técnicas do espertalhão, como ele fazia para viciar o carteado, como alguns vinham com um parceiro que fingia ser desconhecido; não deixava de notar um “peru”, como chamavam os assistentes que davam pitaco no jogo de fora da mesa e o que menos falava usava óculos de lentes espelhadas e se punha atrás do adversário do dono do baralho.
Normalmente esses jogos terminavam em bate boca e confusão, hora em que Jairino desmanchava a mesa e fechava o bar antes que uma peixeira saísse da cintura de um mais afoito. O dono do baralho, sempre saía com a algibeira cheia e sorriso na cara.
Em outras oportunidades, surgia um dominó nas mãos de dois amigos que jogavam sozinhos e se divertiam, atraindo aos poucos a curiosidade dos demais. Não demorava, havia fila para jogar. Invariavelmente os dois primeiros jamais eram derrotados, causando inveja e desconfiança dos demais que montavam suas duplas, discutiam estratégias e, mesmo assim, perdiam seus trocados nas apostas.
Para não chamar atenção demasiada, os embusteiros se deixavam derrotar de vez em quando, tomavam um refresco e esperavam a oportunidade de voltarem à mesa para continuar a exploração dos adversários embriagados.
Jairino percebia os sinais, como sutis coçadas de nariz, pigarros, ajeitadas diferentes na aba do chapéu. Mas, como os barbeiros e médicos, guardava segredo, quem quisesse se deixar enganar, que arcasse com os prejuízos, a ele só cabia o lucro da venda das bebidas e tira-gostos de mais farinha e pouca carne.
Pela satisfação dos desonestos, o botequeiro passou a imaginar uma maneira de, ele também, se dar bem com tramóias inocentes. Ninguém chamava ninguém para jogar, a usura e a necessidade de dinheiro se encarregavam de levar os abestalhados a se arriscarem num jogo que não dominavam. Jairino passava horas por dia matutando o que poderia fazer de diferente para também montar sua banca de jogos. Nada de baralho, teria que contar com um cúmplice, ou dominó.
Na feira, onde ia aos sábados de manhã comprar carne barata e cachaça baldeada, viu um grupo de estivadores numa rodinha, gritando, sorrindo e apostando. Aproximou-se, curioso, sabendo, por instinto, que ali havia uma jogatina. Jogavam dados. Dados comuns, cada um apostando em um número. Ganhava toda a bolada quem acertava. Era um jogo rápido, portanto as apostas eram pequenas, coisas de centavos. Essa alta rotatividade lhe interessava. Talvez fosse o jogo que procurava. Não foi difícil encontrar uma biboca onde se vendessem dados e o bozó. Só faltava uma estratégia para nunca perder.
Naquela tarde o boteco lotou. Faltou mesa e alguém providenciou caixotes de madeira que foram usados como mesas e tamboretes. No meio de alguma discussão sobre mulher, futebol ou política, alguém mais nervozinho dava um tapa na madeira, esquecendo-se que não era uma mesa das mais sólidas e os copos de cana se espalhavam. Estava ali o que Jairino procurava!
No dia seguinte, sozinho, no meio da tarde, poucos clientes no bar, como quem não quer nada Jairino pegou os caixotes, montou sua banca e passou a jogar os dados. Com carvão desenhou doze quadrados e enumerou cada um, em ordem crescente, a partir do número 1. Punha uma pedrinha em determinado número, aleatoriamente, e despejava o bozó. Conferia os números sorteados com sua aposta, quase sempre errando. O filho, vendo aquilo, confirmou que o pai tinha apenas uma possibilidade, em doze, de acertar, menos de dez por cento. O que significava boa margem de lucro, se doze apostadores de espalhassem nas apostas.
Não demorou a se aproximar o primeiro curioso. Jairino explicou que estava se divertindo sozinho, por falta de companheiro para jogar. Que não fosse por isso, os clientes apostariam. Levava a bolada quem acertasse o número.
- Peraí! Assim, não! – Jairino ditou as regras – Se ninguém acertar, eu fico com tudo. Quem acertar leva o dobro do que apostou. Se ninguém acertar, eu fico com tudo!
Os outros fizeram as contas. Só valeria a pena se todos os quadradinhos estivessem cobertos por apostas. Juntaram-se doze homens rapidinho em volta dos caixotes. Todos fazendo suas apostas.
Sempre alguém ganhava e Jairino apenas jogava os dados, nenhum lucro. A turma bebia, ganhava e perdia, os vencedores gozando dos outros, os perdedores aguardando sua sorte. Jairino apenas jogava os dados.
A assistência já bêbada, o botequeiro balança o copinho de couro, chama pelas apostas, e coloca o bozó sobre o caixote.
- Casem o dinheiro! Casem o dinheiro!
Todos colocaram suas moedas nos devidos quadradinhos.
- Tá casado?
E o “sim” coletivo.
- Ninguém mexe nos dados. Vou mijar e já volto. Ainda tá em tempo de mudar, quem quiser.
Dito isso, saiu pelas portas dos fundos e ficou espiando pela fresta das madeiras da parede.
Urozimbo, não se contendo, levantou o bozó e olhou os dados: 8. Com o dedo indicador em riste diante dos lábios, pedia silêncio aos comparsas. Retirou a moeda que havia depositado no 10, juntou mais algumas a ela e colocou todas no quadradinho do 8. Os demais, para não saírem perdendo num jogo que já sabiam perdido, fizeram o mesmo. Todas as moedas e as primeiras cédulas, todas sobre o número 8. Gente que nem estava apostando se juntou ao grupo. Mais e mais dinheiro, uma pilha considerável. Só se preocupavam com uma coisa: Onde Jairino iria arrumar dinheiro para pagar o dobro de todas aquelas apostas.
Dinheiro casado, silêncio de sociedade entre os parceiros, aguardaram ansiosos a volta de Jairino. Este entra fechando o zíper da calça como se tivesse acabado de sair do banheiro.
- Tá casado?
O “sim” coletivo veio mais alto e mais animado.
- Ninguém quer mudar?
- Não!
Com um tapa no caixote, que fez os dados se revirarem sob o copo, Jairino gritou enquanto agia:
- Vou abrir!
Deu 3.
Fez da sala de estar um botequinho onde só cabia o balcão entre ele as prateleiras lotadas de garrafas de cachaça, umas puras, outras temperadas, e os clientes que se aboletavam nos quatro bancos de pernas altas.
Num bairro pobre de uma cidade pobre, o boteco é o parque de diversão dos adultos, barato e de onde todos saem com a sensação de que não existem problemas, rindo ou chorando à toa, amando ou odiando mais suas mulheres conformadas.
A féria era dividida em três partes. Uma para a alimentação, outra para as demais necessidades da molecada e a terceira, o capital de giro que aplicava aos pouquinhos na birosca.
Já conseguira comprar duas mesas que se espalhavam com banquinhos na calçada, por falta de espaço dentro, e já ensaiava a compra de uma geladeira. Se a cachaça dava um lucro considerável, a cerveja incrementaria os negócios. Abrira uma porta nos fundos que dava direto na cozinha e de onde vinha um tira-gosto de carne assada aumentada com muita farinha. Fazia volume e economizava dinheiro na enganação.
Volta e meia aparecia um espertinho com um baralho e montava-se um jogo para tirar os níqueis dos incautos bêbados ansiosos por um dinheirinho extra. Jairino observava as táticas e técnicas do espertalhão, como ele fazia para viciar o carteado, como alguns vinham com um parceiro que fingia ser desconhecido; não deixava de notar um “peru”, como chamavam os assistentes que davam pitaco no jogo de fora da mesa e o que menos falava usava óculos de lentes espelhadas e se punha atrás do adversário do dono do baralho.
Normalmente esses jogos terminavam em bate boca e confusão, hora em que Jairino desmanchava a mesa e fechava o bar antes que uma peixeira saísse da cintura de um mais afoito. O dono do baralho, sempre saía com a algibeira cheia e sorriso na cara.
Em outras oportunidades, surgia um dominó nas mãos de dois amigos que jogavam sozinhos e se divertiam, atraindo aos poucos a curiosidade dos demais. Não demorava, havia fila para jogar. Invariavelmente os dois primeiros jamais eram derrotados, causando inveja e desconfiança dos demais que montavam suas duplas, discutiam estratégias e, mesmo assim, perdiam seus trocados nas apostas.
Para não chamar atenção demasiada, os embusteiros se deixavam derrotar de vez em quando, tomavam um refresco e esperavam a oportunidade de voltarem à mesa para continuar a exploração dos adversários embriagados.
Jairino percebia os sinais, como sutis coçadas de nariz, pigarros, ajeitadas diferentes na aba do chapéu. Mas, como os barbeiros e médicos, guardava segredo, quem quisesse se deixar enganar, que arcasse com os prejuízos, a ele só cabia o lucro da venda das bebidas e tira-gostos de mais farinha e pouca carne.
Pela satisfação dos desonestos, o botequeiro passou a imaginar uma maneira de, ele também, se dar bem com tramóias inocentes. Ninguém chamava ninguém para jogar, a usura e a necessidade de dinheiro se encarregavam de levar os abestalhados a se arriscarem num jogo que não dominavam. Jairino passava horas por dia matutando o que poderia fazer de diferente para também montar sua banca de jogos. Nada de baralho, teria que contar com um cúmplice, ou dominó.
Na feira, onde ia aos sábados de manhã comprar carne barata e cachaça baldeada, viu um grupo de estivadores numa rodinha, gritando, sorrindo e apostando. Aproximou-se, curioso, sabendo, por instinto, que ali havia uma jogatina. Jogavam dados. Dados comuns, cada um apostando em um número. Ganhava toda a bolada quem acertava. Era um jogo rápido, portanto as apostas eram pequenas, coisas de centavos. Essa alta rotatividade lhe interessava. Talvez fosse o jogo que procurava. Não foi difícil encontrar uma biboca onde se vendessem dados e o bozó. Só faltava uma estratégia para nunca perder.
Naquela tarde o boteco lotou. Faltou mesa e alguém providenciou caixotes de madeira que foram usados como mesas e tamboretes. No meio de alguma discussão sobre mulher, futebol ou política, alguém mais nervozinho dava um tapa na madeira, esquecendo-se que não era uma mesa das mais sólidas e os copos de cana se espalhavam. Estava ali o que Jairino procurava!
No dia seguinte, sozinho, no meio da tarde, poucos clientes no bar, como quem não quer nada Jairino pegou os caixotes, montou sua banca e passou a jogar os dados. Com carvão desenhou doze quadrados e enumerou cada um, em ordem crescente, a partir do número 1. Punha uma pedrinha em determinado número, aleatoriamente, e despejava o bozó. Conferia os números sorteados com sua aposta, quase sempre errando. O filho, vendo aquilo, confirmou que o pai tinha apenas uma possibilidade, em doze, de acertar, menos de dez por cento. O que significava boa margem de lucro, se doze apostadores de espalhassem nas apostas.
Não demorou a se aproximar o primeiro curioso. Jairino explicou que estava se divertindo sozinho, por falta de companheiro para jogar. Que não fosse por isso, os clientes apostariam. Levava a bolada quem acertasse o número.
- Peraí! Assim, não! – Jairino ditou as regras – Se ninguém acertar, eu fico com tudo. Quem acertar leva o dobro do que apostou. Se ninguém acertar, eu fico com tudo!
Os outros fizeram as contas. Só valeria a pena se todos os quadradinhos estivessem cobertos por apostas. Juntaram-se doze homens rapidinho em volta dos caixotes. Todos fazendo suas apostas.
Sempre alguém ganhava e Jairino apenas jogava os dados, nenhum lucro. A turma bebia, ganhava e perdia, os vencedores gozando dos outros, os perdedores aguardando sua sorte. Jairino apenas jogava os dados.
A assistência já bêbada, o botequeiro balança o copinho de couro, chama pelas apostas, e coloca o bozó sobre o caixote.
- Casem o dinheiro! Casem o dinheiro!
Todos colocaram suas moedas nos devidos quadradinhos.
- Tá casado?
E o “sim” coletivo.
- Ninguém mexe nos dados. Vou mijar e já volto. Ainda tá em tempo de mudar, quem quiser.
Dito isso, saiu pelas portas dos fundos e ficou espiando pela fresta das madeiras da parede.
Urozimbo, não se contendo, levantou o bozó e olhou os dados: 8. Com o dedo indicador em riste diante dos lábios, pedia silêncio aos comparsas. Retirou a moeda que havia depositado no 10, juntou mais algumas a ela e colocou todas no quadradinho do 8. Os demais, para não saírem perdendo num jogo que já sabiam perdido, fizeram o mesmo. Todas as moedas e as primeiras cédulas, todas sobre o número 8. Gente que nem estava apostando se juntou ao grupo. Mais e mais dinheiro, uma pilha considerável. Só se preocupavam com uma coisa: Onde Jairino iria arrumar dinheiro para pagar o dobro de todas aquelas apostas.
Dinheiro casado, silêncio de sociedade entre os parceiros, aguardaram ansiosos a volta de Jairino. Este entra fechando o zíper da calça como se tivesse acabado de sair do banheiro.
- Tá casado?
O “sim” coletivo veio mais alto e mais animado.
- Ninguém quer mudar?
- Não!
Com um tapa no caixote, que fez os dados se revirarem sob o copo, Jairino gritou enquanto agia:
- Vou abrir!
Deu 3.
Frizo
Como só quem tem anjo-da-guarda garantido são as crianças, os velhos e os bêbados, foi dado a Frizo um daqueles parrudos, pau pra toda obra. A cada dia o tal anjo tinha que fazer trabalho dobrado para salvar a pele do seu protegido.
Frizo – na verdade, Etelvino, no batismo – se metia em qualquer enrascada que por ventura aparecesse pela frente. Dizia que ele não as provocava, elas que o chamavam. Já passou a mão em mulher de samango, já parou touro bravo na mão depois de tomar uma garrafa de jurema, já espalhou pela cidade que o promotor tirara a mulher com quem se casara do brega São João do Sabugi, já passou cinco minutos embaixo d’água para ganhar a aposta de uma garrafa de pinga... De todas as suas aprontações se salvou sem arranhão ou olho roxo. Não dava folga para o pobre anjo.
O apelido ganhara do dono da bodega, o Herbínio. O merceeiro, dono do primeiro freezer de Ipueiras, dizia que o amigo tinha a cabeça fria como um “frizo”, suficiente para o codinome se espalhar.
Como todo peso da vida tem seu contra-peso, Frizo tinha sua Geriana. Mulher de uma delicadeza e elegância únicas naquela caatinga. De manhã lavava roupas das famílias de mais posse, à tarde passava e entregava, à noite se encarregava das costuras. Não encontrava mais lugar na casa para esconder a féria de tanta labuta. Fosse onde fosse, o marido sempre encontrava e dava um desfalque para as farras. Diziam as boas e más línguas que Geriana tinha lugar garantido no céu por suportar homem tão folgado. O cabra sumia por dias, chegava bêbado, maltrapilho e cheirando a alfazema das quengas. Ela, nem um pio. Preparava o banho, dava de comer, arrumava a cama e exigia silêncio dos cinco filhos para que não perturbassem o sono de Frizo. Ele, um folgazão; ela, uma conformada.
Nosso personagem, porém, não era um mau sujeito. Fazia camaradagem fácil e terminava amigo dos desafetos, bastava uma dose de uca. Ajudava os vendilhões a arrumarem suas mercadorias, fazia frete nas costas por um níquel ou uma cachacinha ou um pedaço de jabá. Animava o ambiente em que se encontrava. Veio ao mundo para se divertir e divertir quem o cercasse. Era apenas um folgazão boa praça.
Naquele inverno choveu de matar lambari afogado. A cidade festejava a bonança que as águas de São José prometiam. Nunca se vendeu tanta aguardente, ao pé do alambique Frizo fazia ponto para ganhar suas doses por conta da comemoração.
Ficou bêbado como há muito não ficava. A festança acabou, os demais ébrios iam para suas casas ou para o bordel amparados por suas mulheres fixas ou ocasionais. Frizo ficou sozinho com o último garrafão e se aboletou no banco do coreto da pracinha.
Foi tanta água que o riacho seco virou rio, o açude chorou, casas de barro batido viraram lama. A festa acabou em choradeira. Nem a torre da igreja resistiu à enchente e veio a baixo. Criações sumiram, móveis desciam o boqueirão junto com porcos e bodes. Já se preparava uma novena pedindo arrego ao santo durante a madrugada.
A mães punham os filhos sob os braços, como galinhas chocas, enquanto rezavam em voz tão alta que uma vizinha fazia coro a outra sem saírem de suas casas. As ladainhas se confundiam com o chuá das duas corredeiras, a que caía do céu e a que rolava pelas ruas.
O coreto onde Frizo roncava teve suas pernas arrastadas e o tablado de madeira virou jangada com sua cobertura milagrosamente intacta. No seu sono, Frizo sonhava que atravessava o Atlântico comandando um navio que ia para a Arábia. Sonho gostoso, daqueles que fazem a gente sentir a sensação das ondas. A chuva caía, a correnteza das ruas virava rio e seguiam o rumo natural dos rios, o mar. Navegando em seu sono e no quiosque-jangada, ainda abraçado ao garrafão, Frizo navegava para as Arábias.
Acordou importunado pelo sol ardendo a cara. Sentou no banco esfregando os olhos. Ao abri-los deu de cara com uma multidão que o cercava. Gente de toda espécie, velhos desdentados, velhas beatas e fuxiqueiras, crianças espantadas com o espanto dos velhos, a polícia... Oxe! A polícia? O que aprontara dessa vez?
- Eta, jurema braba!
Olhando aquele amontoados de caras desconhecidas, quebrou o burburinho com a voz ainda bêbada e um bafo de desmaiar onça:
- De onde veio esse povo todo? Vai ter festa em Ipueiras?
O samango:
- Ipueiras? Tu tá em Acaraú, cabra! E o seu Cadorges do hotel tá querendo comprar sua jangada de cobertura.
- Ave Maria!, Frizo se espantava olhando o garrafão pela metade. Acho que vou tomar o resto pra ver se chego nas Arábia.
Frizo – na verdade, Etelvino, no batismo – se metia em qualquer enrascada que por ventura aparecesse pela frente. Dizia que ele não as provocava, elas que o chamavam. Já passou a mão em mulher de samango, já parou touro bravo na mão depois de tomar uma garrafa de jurema, já espalhou pela cidade que o promotor tirara a mulher com quem se casara do brega São João do Sabugi, já passou cinco minutos embaixo d’água para ganhar a aposta de uma garrafa de pinga... De todas as suas aprontações se salvou sem arranhão ou olho roxo. Não dava folga para o pobre anjo.
O apelido ganhara do dono da bodega, o Herbínio. O merceeiro, dono do primeiro freezer de Ipueiras, dizia que o amigo tinha a cabeça fria como um “frizo”, suficiente para o codinome se espalhar.
Como todo peso da vida tem seu contra-peso, Frizo tinha sua Geriana. Mulher de uma delicadeza e elegância únicas naquela caatinga. De manhã lavava roupas das famílias de mais posse, à tarde passava e entregava, à noite se encarregava das costuras. Não encontrava mais lugar na casa para esconder a féria de tanta labuta. Fosse onde fosse, o marido sempre encontrava e dava um desfalque para as farras. Diziam as boas e más línguas que Geriana tinha lugar garantido no céu por suportar homem tão folgado. O cabra sumia por dias, chegava bêbado, maltrapilho e cheirando a alfazema das quengas. Ela, nem um pio. Preparava o banho, dava de comer, arrumava a cama e exigia silêncio dos cinco filhos para que não perturbassem o sono de Frizo. Ele, um folgazão; ela, uma conformada.
Nosso personagem, porém, não era um mau sujeito. Fazia camaradagem fácil e terminava amigo dos desafetos, bastava uma dose de uca. Ajudava os vendilhões a arrumarem suas mercadorias, fazia frete nas costas por um níquel ou uma cachacinha ou um pedaço de jabá. Animava o ambiente em que se encontrava. Veio ao mundo para se divertir e divertir quem o cercasse. Era apenas um folgazão boa praça.
Naquele inverno choveu de matar lambari afogado. A cidade festejava a bonança que as águas de São José prometiam. Nunca se vendeu tanta aguardente, ao pé do alambique Frizo fazia ponto para ganhar suas doses por conta da comemoração.
Ficou bêbado como há muito não ficava. A festança acabou, os demais ébrios iam para suas casas ou para o bordel amparados por suas mulheres fixas ou ocasionais. Frizo ficou sozinho com o último garrafão e se aboletou no banco do coreto da pracinha.
Foi tanta água que o riacho seco virou rio, o açude chorou, casas de barro batido viraram lama. A festa acabou em choradeira. Nem a torre da igreja resistiu à enchente e veio a baixo. Criações sumiram, móveis desciam o boqueirão junto com porcos e bodes. Já se preparava uma novena pedindo arrego ao santo durante a madrugada.
A mães punham os filhos sob os braços, como galinhas chocas, enquanto rezavam em voz tão alta que uma vizinha fazia coro a outra sem saírem de suas casas. As ladainhas se confundiam com o chuá das duas corredeiras, a que caía do céu e a que rolava pelas ruas.
O coreto onde Frizo roncava teve suas pernas arrastadas e o tablado de madeira virou jangada com sua cobertura milagrosamente intacta. No seu sono, Frizo sonhava que atravessava o Atlântico comandando um navio que ia para a Arábia. Sonho gostoso, daqueles que fazem a gente sentir a sensação das ondas. A chuva caía, a correnteza das ruas virava rio e seguiam o rumo natural dos rios, o mar. Navegando em seu sono e no quiosque-jangada, ainda abraçado ao garrafão, Frizo navegava para as Arábias.
Acordou importunado pelo sol ardendo a cara. Sentou no banco esfregando os olhos. Ao abri-los deu de cara com uma multidão que o cercava. Gente de toda espécie, velhos desdentados, velhas beatas e fuxiqueiras, crianças espantadas com o espanto dos velhos, a polícia... Oxe! A polícia? O que aprontara dessa vez?
- Eta, jurema braba!
Olhando aquele amontoados de caras desconhecidas, quebrou o burburinho com a voz ainda bêbada e um bafo de desmaiar onça:
- De onde veio esse povo todo? Vai ter festa em Ipueiras?
O samango:
- Ipueiras? Tu tá em Acaraú, cabra! E o seu Cadorges do hotel tá querendo comprar sua jangada de cobertura.
- Ave Maria!, Frizo se espantava olhando o garrafão pela metade. Acho que vou tomar o resto pra ver se chego nas Arábia.
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