segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Delirium Pen Club

Era hora da reunião diária do Delirium Pen Club. Todos os artistas da cidade se dirigiam à sede com seus barretes dourados, coletes com arabescos bordados em fios d’ouro e os brilhosos sapatos marrom.

Os administradores da cidade haviam percebido a dispersão dos escritores, pintores, poetas, ficcionistas, enfim, dos artista e intelectuais. Com sua popularidade em baixa, viram ali uma boa oportunidade de trazer cabeças pensantes para o seu lado, o que fazia com que boa parte da população, seguindo seus ídolos, viesse a reboque, melhorando a popularidade do prefeito e seus correligionários.

O secretário de cultura foi rápido em executar o plano silencioso. Desapropriou terreno, construiu prédio suntuoso, nomeou um fotógrafo, um pintor e um contista como administradores, fez uma enorme festa durante a qual convidou a inteligentzia local para compor o clube como colaboradores. Na primeira reunião ficou determinado o estatuto e as normas de convivência. Leis simples, de fácil aplicação e fiscalização, tinham como principal artigo a total liberdade de manifestação.

O sucesso veio rápido, a notícia espalhava-se pela cidade e pela zona rural. A visitação do público foi franqueada, podendo este assistir às reuniões, ter acesso às obras produzidas e até associar-se, bastava comprovar ser eleitor.

Estava formada uma salada das mais diversas ideologias, todas as cores, idades (desde que maior de dezoito anos, afinal eram os votos que interessavam ao prefeito, cultura era algo secundário. O alcaide já confessara publicamente jamais ter lido um livro). Isso não significava, porém, que só havia gente inteligente, talentosa e crítica.

Volta e meia surgia um mais exaltado disposto a bater e apanhar pelo prefeito, como se este fosse o responsável pela criação das artes, ao invés de apenas um canal para sua reunião e disseminação. Surgiam os mais sutis que manipulavam a opinião dos mais crédulos ou mais ingênuos. Entre esses se destacavam os maria-vai-com-as-outras, caracterizados pelo ego gigantesco, comum aos artistas, mas senso crítico e capacidade de análise quase nulos.

Com o afluxo de tanta gente às reuniões, foi criado o uniforme para que se identificasse mais facilmente quem era associado e quem era apenas assistente: barrete dourado, colete com arabescos em fios de ouro e sapatos marrom. Mesmo os mais rebeldes, e entre artistas eles são muitos, se sujeitavam a essas convenções, não havia razão para não seguir determinação tão simples.

Naquela noite, porém, Catalina veio de sapatos de saltos altos pretos. Estava instaurado o caos. Como aceitar aquela cor entre os pares que calçavam marrom? Justo Catalina que sempre fora uma boa moça, simpática com todos e por todos admirada por seu caráter e talento inquestionáveis?

Um dos três administradores do Delirium Pen Club, o contista, pediu, ou melhor, deu-se a palavra atropelando toda a pauta pré-concebida. Nada iria adiante antes de se discutir os sapatos pretos de Catalina. Mais justo seria expulsá-la, independentemente de seu talento ou seu caráter. Os sapatos comprados baratinhos na liquidação da esquina, de repente se tornaram mais importantes que seus poemas.

A cisão não demorou. Três grupos formaram-se: os que apoiavam o administrador, os que apoiavam Catalina e os que não se manifestavam publicamente.

O grupo dos partidários do contista era formado pelos que concordavam com seus argumentos por afinidade de pensamento, e era minoria; e os que se recusavam a contrariar qualquer resolução dos detentores do poder, por menor que fosse o poder de um administrador de clube cultural de cidadezinha perdida no meio do nada.

Os que defendiam o direito de Catalina eram claros e assumiam publicamente essa defesa. Era o menor grupo. Um pequeno exército de Brancaleone entre aqueles monstros das letras, das telas, das lentes e da política sub-reptícia. Pouco ligavam se os sapatos da moça eram marrons ou multicores, apenas acreditavam na liberdade de cada um vestir-se ou calçar-se como bem desejasse. Isso não faz do indivíduo melhor ou pior, no máximo, diferente.

O terceiro grupo, numeroso, era heterogêneo. De boca calada em público, pelos corredores, em pequenas rodas, punham-se a favor desse ou daquele contendor. Ao pé do ouvido, segurando as palavras pelas penas do rabo para que não voassem para ouvidos mais distantes, sussurravam o apoio ao administrador ou a Catalina. Mandavam bilhetinhos de defesa veemente a um ou outra, sempre com um post scripitum: destrua depois de ler.

Os componentes desse grupo, embora maior que os outros dois juntos, escondiam sua preferência. Na hora do voto decidiriam o destino de Catalina no clube, mas exigiam o voto secreto. Eram incógnita para quem não estivesse em suas pequenas rodas. Fosse qual fosse o resultado da votação, colocar-se-iam, silenciosamente, em apoio ao vencedor e fariam afagos no revoltado, solidarizando-se com este pela covardia de que fora vítima. Gente perigosa, essa.

Foram dias de discussão. Defesas e acusações de lado a lado. Catalina na berlinda e os discursos inflamados alternando-se no púlpito. O terceiro grupo a tudo ouvia e fazia cara de que pouco ligava. Por conta da cor dos sapatos de Catalina, a produção artística da cidade estava parada.

Para defender ou acusar a associada os discursos partiam para a honra dos debatedores, até nomes de mães foram proferidos com pouco respeito.

Já havia uma semana de debates quando surgiram as primeiras dissidências. Artistas que só queriam saber de arte passaram a se afastar, um a um, aos pouquinhos. Catalina foi a primeira a perceber o esvaziamento gradual do Pen Club. Para evitar o fim da associação, pediu desligamento. De nada adiantou. A cor de seus sapatos já não importava, a briga persistiu por amor à briga e não ao uniforme maculado. A discussão já era sobre o lanche mal servido nas reuniões, sobre o adultério do porteiro, sobre a cor das paredes do salão de festas, enfim, qualquer coisa, menos os sapatos da poetisa já esquecida.

Com tantas discórdias, dissidências e desistências, o clube teve suas portas cerradas, restando apenas um contista solitário e enlouquecido proferindo um interminável e raivoso discurso no púlpito empoeirado.

Avenida Paulista

A de verde vai ao banco o de azul vem do dentista atropelo de gente rapazes tão jovens recém-saídos dos cueiros universitários já fantasiados de homens sérios em seus indefectíveis ternos negros indo e vindo calçadas largas acima e abaixo em casa as mães choram pelos filhos que foram à guerra das grandes corporações tatuagens da moda espalhadas das testas aos calcanhares e cabelos milimetricamente desarrumados para darem aparência de desleixo ricos de produtos químicos caros e com as marcas dos dedos dos cabeleireiros caros hippies de Mercedes é tão bom ser irresponsável e underground quando se tem em casa um pai morrendo do coração e de estresse para pagar as faturas dos cartões de crédito das farras do filho artista incompreendido gente de isopor e cérebro ainda mais leve rebeldinhos do Dante Alighieri e outras academias tais tanto faz de conta tanta fantasia mal dissimulada caras e consciências maquiladas nos salões refrigerados todos tão iguais em seus esforços de se fazerem únicos o casal homo masculino em seus jeans apertados e camisetas idem o casal homo feminino com seus penteados espetados de longas suíças e os poucos casais hétero a homossexualidade é moda e rebeldes ou medrosos são os que não aderem mentes que mentem e negam o óbvio cinemas cult livrarias abarrotadas quanta cultura quanto lixo cultural que se perde no comportamento de quem o ingere na obrigação de se mostrar culto para os amigos que foram à Europa e a Porto Seguro destinos obrigatórios para as festas inacabadas que deixam histórias a serem contadas como troféus sotaques e gostos expostos nas suas vitrines pessoais como fazem eu me arrepender de um dia ter querido atravessar o Atlântico não vejo marcas culturais profundas nos que voltam apenas cicatrizes leves a serem exibidas e mal ouvidas pelos interlocutores pobrezas de espírito atravesso as pistas mas o universo é o mesmo de feições fechadas medo absoluto de quem anda ao lado desprezo por quem anda ao lado nojo do mendigo que mendiga ao lado sob as calçadas os trens renovam as caras que entram e saem dos buracos mas mantém as características a mesma feiúra artificial de gente fabricada em série modelos de diferentes jogos emos hippies mendigos peruas drogados executivos metrossexuais clubbers intelectuais intelectualóides alienados modernos engajados sem graça eco-xiitas de apartamento e carro do ano os mesmo tipos repetidos à exaustão sob a sombra dos arranha-céus.

Anjos de Furgão

Era apenas mais um dia de trabalho para Barteno, embora poucos na cidade fossem dar expediente naquele dia. No final da tarde deu um beijo na mulher, fez um carinho dos três pequenos e recomendou que esses cuidassem da mãe, pegou sua bicicleta e pedalou até a pequena fábrica de cimento onde o auto-forno recém instalado não podia ser desligado. O equipamento, caríssimo, tinha que manter-se ativo vinte e quatro horas por dia. Em caso de desligamento haveria perda de componentes do equipamento, causando grande prejuízo para a fábrica e a conseqüente demissão de vários trabalhadores que atuavam em três turnos. Com uma família já grande e outro rebento por vir, não poderia sequer imaginar a possibilidade de ficar desempregado.

No caminho entre a casa e o trabalho, a noite surgindo, observa as casas mais abastadas enfeitadas de lâmpadas, músicas e cores. Ouvia a animação por detrás dos muros, as harpas soando pelas caixas de som. As ruas com seus postes e árvores enfeitados, muita luz, muito brilho, as pessoas com rostos amáveis que não mostravam no restante do ano. Algumas lojas abarrotadas de retardatários que haviam deixado para a última hora a compra de seus presentes, muitos pais de família caminhando apressados, mas felizes, com suas sacolas de mimos ou a última guloseima da ceia.

Ouvindo todo aquele burburinho que tomava a cidade que atravessa, o peito de Barteno apertava. O filho mais velho pedira uma bicicleta, a filha do meio esperava a bonequinha do anúncio da revista e o caçula sonhava com aquele caminhãozinho vermelho de bombeiros que vira na vitrine quando voltava da escola. As lágrimas vinham aos olhos do pai que desejava dar tudo aquilo, mas como? O que sobrava do parco salário era aplicado em telhas, tijolos e canos para poder ampliar o casebre nas próximas férias. A vontade era muita de presentear toda a família, além de dar o que as crianças pediam, queria também que Suleima, a esposa, pudesse vestir-se com aquele vestido de seda que ela mesma desenhara e redesenhara dezenas de vezes, sonhando em tê-lo pelo menos por uma noite. Barteno sabia que veria os sorrisos mais lindos do mundo se pudesse realizar esses desejos, por isso chorava em silêncio enquanto pedalava.

Eram tantos os rostos sorridentes, as risadas que ouvia, as sacolas e pacotes que passavam por seus olhos que os sentimentos misturavam-se. Se alegrava com a alegria alheia, mas sentia uma pontinha de inveja, frustração de um pai sem recursos, vergonha por não poder ver aqueles mesmos sorrisos nos rostos da própria família. Ao passar diante da igreja, viu o padre e os voluntários enchendo o baú de um caminhão com milhares de brinquedos arrecadados que, provavelmente seriam distribuídos entre as crianças do orfanato ou aos moradores de alguma favela. E ficou mais triste um pouquinho. Talvez bastasse ele freqüentar as missas para que suas crianças fossem lembradas por aqueles voluntários, mas por não ver em Deus uma figura tão provedora como diziam os fiéis, se afastara Dele. Por que Deus permitia que alguns tivessem tanto e outros o mínimo ou nem isso? Deixara de acreditar na justiça divina e nas crenças da maioria. Deus nada lhe deu nem lhe daria, ele precisava suar e aspirar aquela sílica, encarar pó, calor do forno, suar em bicas, desgastar os músculos oito horas madrugada a dentro, seis dias por semana para dar o mínimo de alimentação e conforto para os seus, Deus nada tinha a ver com aquilo.

Apeou da bicicleta ao chegar à fábrica, misturou as lágrimas ao suor que escorria na face, identificou-se na guarita e seguiu para o trabalho. Durante seu turno que iria das oito da noite às quatro da manhã, procuraria concentrar-se apenas no trabalho, sua ocupação e diversão. Se por um lado era um trabalho desgastante, com uma hora para descanso e um lanche de pão com manteiga e com copo de leite dados pelos patrões, por outro lado era o que permitia que o mesmo pão e o mesmo leite não faltassem em casa. Entregou-se à labuta com afinco, atenção total ao serviço para não se permitir pensar em mais nada.

Já madrugada alta, a sirene toca. Barteno e os vinte iguais a tomam um meio banho das torneiras do pátio, apenas de calça, retiram parte do pó fino e acinzentado que cobrem todo o corpo, quase fazendo uma argamassa nos cabelos, cospem uma papa também acinzentada imaginando quanto daquela poeira fora parar em seus pulmões. Pega a bicicleta, cansado, desejando encontrar o sorriso de Suleima que sempre o esperava no portão com um copo de café. Pobre Suleima, dormia depois das crianças, acordava antes dele chegar e trabalhava o dia inteiro arrumando as crianças para a escola, fazendo o almoço, limpando a casa, mantendo suas roupas lavadas e passadas, tomando a lição de casa dos pequenos, ... Não tinha como não amar aquela mulher, tão forte, tão bonita e a amiga que qualquer homem desejaria tê-la por perto. Seu maior tesouro e estímulo para agüentar a vida dura que prometia ser assim para sempre.

As ruas ainda mostravam suas luzes, a maioria das casas já se encontrava apagada, mas em uma ou outra ainda se ouviam o vozerio dos bêbados, os filhos dos pais alcoolizados brincavam com seus presentes novos, alguns já destruídos, uma ou outra cantoria, a ambulância suas luzes e sirene apressada, provavelmente para socorrer algum bêbado que dirigia ou algum bêbado em coma alcoólica. Por todo seu caminho as ruas cheias de papéis coloridos que antes cobriam presentes. As lágrimas voltavam depois de oito horas de descanso. Sabia que ao chegar em casa receberia o beijo pontual da mulher, tomaria seu café, se banharia de verdade e cairia na cama. Ao acordar veria o rostinho triste dos filhos que choramingavam a não vinda de Papai Noel, de novo. Isso lhe rasgava o peito como uma navalha cega.

Ao dobrar a esquina, absorto em suas tristezas, foi despertado pela buzina do caminhão, o mesmo que vira horas antes na porta da igreja. Quase batia de frente. Assustado, desviou para a direita, parou junto ao meio-fio, e ficou olhando aquele Papai Noel de aço que fizera a alegria de alguns pequenos cristãos. Se ele pelo menos fosse à igreja... Espantou os pensamentos e as lágrimas e retomou o caminho de casa, já pertinho, logo ali no próximo quarteirão.

Lá vinha em sua direção um molequinho em sua bicicleta nova, bambaleando como bambaleiam as crianças que terminaram de aprender a pedalar. Ele pouco viu a bicicleta do garoto, o que lhe chamava a atenção e deu-lhe um calor gostoso no peito, foi aquele sorriso enorme onde faltavam dois dentinhos de leite recém caídos.

- Pai! Pai! O Papai Noel trouxe minha bicicletinha! O Papai Noel lembrou de mim!

Barteno, as lágrimas agora incontroláveis, virou a cabeça e ainda viu a traseira do caminhão-baú desaparecer na esquina lá em frente. O sol ensaiava suas cores no horizonte, Suleima amarelada pelo sol, escorada no caixilho da porta, sorriso tatuado nos lábios, não trouxera seu café pontual, olhava a filha feliz com a boneca que fala e o pequenino salvando vidas com sua escada Magirus.

Ele ou Eu

Ah, o ciúme... Cedo ou tarde ele tenta dar as cartas entre os amantes. Para se manifestar nem precisa de sentido, razão ou motivo, apenas se mostra e espera o estrago.

Entre Marcélio e Aradine, depois de cinco anos de casamento feliz, ele mostrou as garras.

- Ou o Zelão ou eu!
- Que é isso, meu bem? Diz que é brincadeira.
- Brincadeira nada. Tô falando sério.

Casal bonito, felicidade estampada em cada gesto a ponto de causar inveja entre os amigos e desconhecidos. Quem tinha seus relacionamentos mal parados ou os que estavam sozinhos, no caritó, criavam maledicências e fofocas com a facilidade com que limo nasce em pedras de beira rio. Para o casal perfeito era bobagem, sua felicidade é que importava. Profissionais bem sucedidos, casa própria, carro do ano... As coisinhas práticas do dia-a-dia não atrapalhavam. O ciúme tinha que surgir e surgiu para ameaçar a perfeição.

- Mas, Marcinho, ele sempre esteve no meio de nós e nunca houve problema.
- No meio de nós uma pinóia. Ele esteve esse tempo todo no seu meio.
- Não seja grosso!
- Ah, eu que sou grosso. Pensei que estivesse feliz com a grossura dele.
- Que decepção. Estou casada há cinco anos com um troglodita e não sabia.
- Desculpa, amor, mas é que não estou agüentando mais essa situação. Você só fala nele, só quer saber dele, só sente falta dele, faz propaganda dele pras suas amigas... Não tá sendo fácil sustentar a fleuma assim.
- Você parou pra pensar no que está falando? Isso não faz sentido.
- Vai negar que é assim? Sinto sua falta, aí lhe telefono e qual a primeira coisa que pergunta? “Como ele está?” É ou não é?
- É?
- É. Chego em casa morrendo de vontade de você e o que é que tenho que suportar? Primeiro dá um beijo nele e só depois fala direito comigo.
-...- olhos arregalados de surpresa.
- No cinema eu lhe abraço, cheio de carinho, lhe puxo pra ficarmos juntinhos e você lá, fazendo cafuné nele.
- Mas...
- Mas, nada! Não acabei. Diz que vai comprar roupas pra mim, mas só se preocupa com o conforto dele, se a calça dele é confortável.
- Ma...
- Ainda tem mais, mocinha. Ontem, quando cheguei ao restaurante onde ficamos de nos encontrar, flagrei direitinho os olhares que você dava pra ele.
- Amor...
- Nem vem, nem vem. Não tá dando pra segurar. Até festinha de aniversário pra ele você faz, toda de lingerie de enfermeira, salto dez, brinquedinhos eróticos... Chega! Ou ele ou eu!
- Amor, é a você que eu amo. Como que eu vou te amar e separar vocês dois? O Zelão é a melhor parte de ti e eu o adoro..

Em Terra Firme

Dagoberto, funcionário do Iate Clube, passava o dia limpando por dentro e por fora aqueles barcos milionários em troca de alguns vinténs. Sonhava em cruzar os mares pilotando o seu próprio, tendo a bem-amada Lucinda ao seu lado, abraçadinhos na ponte de comando, vendo o pôr-do-sol como nas propagandas de uísque.

Sua conta bancária, sempre no vermelho, o trazia, desanimado, à realidade.A loteria estava acumulada em muitos milhões. Embora nunca jogasse, o endividado Dagoberto foi à igreja e prometeu a São Judas Tadeu que se ganhasse sozinho aquela fortuna compraria seu iate e daria cinco voltas ao mundo sem pisar em terra firme.

O santo deve ter pensado “essa eu pago pra ver!” e deu a sorte grande ao lavador de barcos alheios.

Não demorou cinco minutos o trabalho de convencimento de Dagoberto sobre Lucinda para que ela o acompanhasse na aventura, afinal um homem de muitos milhões não pede, manda.

A bordo do próprio barco, uma lancha de duas cabines e trinta pés, lá se foram oceanos a dentro. Para não quebrar a promessa, a mulher descia nos portos para contratar os serviços de recolhimento de dejetos e comprar mantimentos. Sete meses depois da partida completavam a primeira das cinco voltas.

A aventura chamou a atenção da imprensa, que foi a bordo do “São Judas Herói” entrevistar o agora capitão em sua primeira parada em Natal.

Grandes empresários resolveram divulgar suas empresas por meio do intrépido navegante e lotearam os anos restantes. Uma rede de hotéis, uma indústria de combustíveis, outra de material esportivo e uma de telefonia móvel revezavam-se no financiamento da viagem. Cada uma pagaria as despesas por uma volta. Dagoberto, além de não precisar mais gastar seu próprio dinheiro, ainda ganhava uma bolada a mais. Lembrava-se de seu pai, conformado com a pobreza, que vaticinava “o rio só corre pro mar”, referindo-se à facilidade que os ricos têm de duplicarem suas fortunas, enquanto os pobres dobram sua pobreza.

No final da segunda volta ao mundo, Lucinda aportou mostrando sua barriguinha de três meses de gravidez.

Quando completou a terceira volta, a capital potiguar conheceu o pequeno Dagoberto Júnior no colo do pai orgulhoso e barbudo.

Fez-se a quarta volta sem novidades, mares de almirante. Nos portos estrangeiros eram recebidos como velhos amigos e mais uma grande festa na chegada à esquina do nordeste brasileiro.

Já conhecendo os segredos dos oceanos, a última viagem não mostrou dificuldade. Navegação tranqüila mesmo quando se deparavam com uma tempestade ou encarando as vagas perigosas abaixo da Terra do Fogo. Havia somente a ansiedade de se pagar a promessa feita ao santo.

Por quase cinco anos Dagoberto viveu em seu barco sem conhecer os portos, as ilhas, os arrecifes ou qualquer piso sem o balanço das ondas. Por todo esse tempo honrou o que prometera e ficava feliz em fazer o que dissera ao santo que faria. Seu pai o havia ensinado a sempre cumprir com sua palavra, assim se fazem os verdadeiros homens.

Ao avistarem as terras de Natal, foram cercados por dezenas de barcos de todos os calados e tamanho, duas corvetas da Marinha de Guerra os escoltaram, no porto a banda marcial, almirantes, governador, prefeito, o arcebispo, repórteres de todos os lugares e todas as imprensas, juízes do Guiness Book, milhares de estudantes com bandeirinhas do Brasil e do estado, os patrocinadores... A cidade parara para receber a família aventureira com chuva de papel picado e serpentina. Uma festa como há muito não se via.

O trapiche onde desembarcaria e por onde desfilaria estava limpo e decorado com flores e fitas verdes e amarelas. A multidão gritava seu nome e aplaudia.

Quando pisou na esteira de madeira, sentiu a falta das marolas. Desacostumara de andar em piso que não balançava. Ao tentar dar o primeiro passo sentiu vertigem, o corpo tombou penso para o lado direito, Dagoberto procurava o equilíbrio que não vinha e, como um bêbado, despencou no mar.

A Carta

Queridos papai e mamãe,



O Sandroberto de Didinha esteve por aqui no último final de semana e acho que ele entendeu tudo errado e tenho medo que conte coisas pra vocês o que não correspondem à realidade.



Na sexta-feira à noite nos encontramos em uma boate, mas não é nenhum prostíbulo de luxo, como parece que ele achou que fosse. Nós, as meninas, não estávamos em roupas sumárias porque fazíamos programa, apenas estávamos fantasiadas para comemorarmos a despedida de solteira da Floriana, nossa colega de faculdade, e o dinheiro que os rapazes nos davam não era nenhum pagamento, mas, sim, a parte que lhes cabia nas despesas da festa, coisa que havíamos combinado na véspera e também sua cota para o presente dos noivos.



Ele me viu ir embora com um senhor muito bonito e grisalho, mas, lhes garanto, que não era nenhum cliente. Aquele senhor é meu professor, gente muito boa que gosta de estar com os jovens, ele próprio tem espírito jovem. Vocês sabem que não gosto muito de festas, por isso já me encontrava incomodada naquele ambiente e ele, muito solícito, se ofereceu para me levar em casa.O Sandroberto, intrometido, nos seguiu e nos viu entrar em um prédio nos Jardins. Eu posso explicar. Depois que saímos da boate tive uma queda abrupta de pressão e o professor Eberval, que também é médico, me levou ao seu apartamento onde usou o tensiômetro em mim e me medicou. O remédio que ele me deu fez-me ficar mole e com sono, sem condições de ir pra república. Como é um cavalheiro, o professor me ofereceu uma cama em seu quarto de hóspede. Só tenho que agradecer por sua boa vontade.



No sábado à tarde o Sandroberto, depois de pedir meu endereço a uma das minhas colegas que se encontrava na boate, para onde ele voltou depois de nos ver entrar no prédio do professor, encontrou-se em um apartamento em Higienópolis. Quem dera eu morasse ali... Como vocês sabem, eu ainda moro no alojamento da faculdade. Aquele apartamento é de uma colega, cujo pai é muito rico, dono de uma empresa de ônibus. Eu estava ali porque havíamos combinado, eu e a Anderléia, de estudarmos para a prova que teríamos na segunda-feira.



Eu sei que o Sandroberto vai dizer que conseguiu o endereço subornando um segurança da boate, mas é mentira. Ele é capaz de inventar essa história para criar uma versão mais crível para vocês. Na verdade, ele deu em cima de mim e ficou chateado quando cortei suas intenções, coisa de homem inseguro. Eu estou aqui para estudar e conseguir meu diploma, não tenho tempo para envolvimentos amorosos, ainda mais com um analfabeto como o Sandroberto.



Ele vai dizer que minhas roupas são de grife e que tenho um carro importado na garagem. É tudo parte de uma enorme mentira. Minhas roupas são apenas bonitinhas e as poucas grifes foram presentes de aniversário que minhas amigas deram, e o carro importado que ele viu é do síndico do prédio da Anderléia. Como eu disse, moro no alojamento da faculdade e lá nem tem garagem.



Por favor, acreditem em mim e não no mentiroso do Sandroberto. Ele é um despeitado e fofoqueiro.



Preciso ir, tens uns rapazes me esperando para estudarmos anatomia, os exames estão chegando. Noutra hora escrevo com mais tempo.



Amo vocês para sempre.



Beijos eternos de sua filha Cordelina.

A Carta - Resposta

Querida filhinha Cordelina,

Por sorte nos enviou a carta alertando para as maledicências do malcriado Sandroberto de Didinha, aquele despeitado que não consegue ser promovido da função de caixa do banco. Com certeza ele tem inveja de você que vai nos dar o prazer de se formar doutora médica, enquanto ele só terá o dinheiro que você terá na hora de depositar seus honorários.

Quanta alma boa está cercando você, filhinha, isso é um conforto pra meu coração apertadinho de mãe.

Todas as noites rezo para que São Benedito abra os caminhos do doutor professor Eberval. Que o santo dê a ele o dobro do que ele tem lhe dado em carinho, atenção e cuidados. Não deixe de convidá-lo a nos visitar quando você vier de férias. Faço questão de agradecer tudo que ele faz por você, minha menininha. Mas não abuse do pobre homem, importante como ele é, deve ter coisas mais urgentes para cuidar.

E suas amiguinhas, que divertidas elas são. Fazer uma festa de roupas íntimas só pra agradar uma amiga. Que lindo isso! E os rapazes, que cavalheiros, cumpriram direitinho suas obrigações na divisão das despesas. Coisas assim me deixam mais tranqüila quando penso em você, sem mamãe a papai, nessa cidade grande.

Só o Sandroberto mesmo para ver maldade nessas confraternizações inocentes e juvenis.

Não se desgaste tanto, meu docinho, nessas viradas de noite estudando anatomia. Deus proverá! Deus proverá! Ele está vendo lá da nuvenzinha dele seus esforços e há de compensá-la com o sucesso. Toda noites rezo por isso também e chamo a atenção de Santa Luzia para que ela interceda por você junto ao Pai.

Deve ser difícil esse negócio de anatomia. Quando me lembro que só aos quinze anos que consegui diferenciar a mão direita da mão esquerda, fico imaginando seu aperreio em saber os nomes de todos os ossos e veias do nosso corpo. Cruz, credo! É coisa demais pra minha cabeça dura. Só você mesmo, minha geniazinha, para aprender tudo isso. Deus haverá de te dar um diploma de melhor doutora dessa e de todas as terras.

Seu paizinho está te preparando uma surpresa, mas eu não resisto e vou te contar. Se prepare que ele está resgatando os títulos que tem no banco, penhorou nossa casa e vendeu duas vaquinhas leiteiras para comprar um apartamento só pra você, assim poderá sair daquele alojamento infestado de percevejos que a universidade dispõe pra você. Nossa princesinha precisa de conforto e sossego pra continuar com seus estudos sem esses aperreios.

E pode ficar sossegada que Sandroberto não vai mais lhe perturbar e nem lhe seguir. Seu pai deu-lhe uma descompostura que ele nunca mais vai esquecer. Seu pai chamou ele de fofoqueiro, fuinha e maledicente, e que se ele voltasse aqui seria enxotado com os reios de dar nos burros chucros. Duvi-dê-o-dó que ele se meta a besta de novo. Mas, se ele voltar a importunar você, é só nos mandar uma cartinha que seu pai coloca a língua dele dentro da boca de novo.

Fique sempre bem na guarda de Nossa Senhora e todos os santos que convoco todas as manhãs e noites para protegê-la.

De sua mãe Lilivandra e seu pai Marcionílio com muitos beijos e carinhos.

P.S.: Segue um dinheirinho para você fazer aquele exame de Elisa que você pediu no telegrama.