segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Limite

Foi aqui nessa casinha que aconteceu, como acontecia todos os dias, por muitos dias. Da janela, todo final de tarde, Geraldino via Sanderlice aparecer lá no alto da ladeira, a via descer e desaparecer antes da subida seguinte que demorava mais de duas horas, mais de três. Ela chegava ofegante, descabelada e com cheiro de suor de homem.

Geraldino não reclamava nem tinha tempo de reclamar. Recebia murro na orelha, pisão nas partes, gritos no ouvido porque a janta estava fria, porque a casa estava suja, por motivo nenhum, apenas por hábito.

No início a vizinhança estranhava. Como aquele homem agüentava tudo calado? Depois se conformou com o conformismo de Geraldino. A cada boca da noite, a mesma coisa. Geraldino via Sanderlice descer a ladeira e esperava a subida demorada para o lado de cá. Em quatro épocas diferentes a viu subir buchuda.

Nasceu o gazo com a cara de Judécio; nasceu um indiozinho parecido com Tucuna; nasceu um amarelinho de olhos rasgados e cabelos iguais ao do Katedi; por último a esposa pariu um negrinho, cópia perfeita de Cateu.

Geraldino nunca reclamou, não tinha tempo. Antes de falar, lá vinha o tabefe, o chute no saco, os gritos. Quando Sanderlice estava pesada em sua prenhice e se movimentava com mais dificuldade, apelava para o cabo da vassoura, a corda da rede ou qualquer coisa que causasse dor e estrago. Geraldino, calado.

Um dia, o marido lá, pôr-do-Sol, na janela, vê Sanderlice descer a ladeira de mãos dadas com Ordélia. Estranhou na primeira vez; na segunda, desconfiou; quando viu o beijo, se destemperou.

Madou os quatro filhos para a casa dos avós e deu uma surra em Sanderlice que ela jamais esqueceria. Dois meses de cama, pernas, braços e cara quebrados de tanta pancada pela sem vergonhice de trocá-lo por uma mulher.

Escada a Baixo

Foi um garoto criado em berço de ouro e acabado no gueto de lodo.

Pietro Saint-Arnour Friedrich ganhara um nome bem ao gosto europeizado dos pais, gente rica das terras roxas, plantadores de café e de vacas leiteiras holandesas, lógico. Assim fechavam o ciclo. O pai, Antenor, tinha planos de plantar trigo em alguma terra a ser comprada no sul, assim venderia o breakfast completo.

Ao pimpolho todos os luxos, desde a ama de leite até o enxoval de seda chinesa; dos tutores, não apenas professores particulares, ao tratamento semanal de beleza completa, cabelos, pele e unhas; dos passeios às estâncias minerais às aulas de piano e valsa. Um pequeno lorde no calor interiorano que não dispensava o suéter de cashemere.

A mãe, refinada dama estudada na França, fazia questão dos mimos. O pai, sujeito mal talhado para as finas rodas aceitava, não discutia. Dera o golpe do baú, teria que pagar um preço, fosse qual fosse, desde que não se indispusesse com a família da esposa a quem dedicara todo o tipo de puxação de saco e agrados até conseguir sua confiança. Pietro não trabalharia na lida do campo, de qualquer maneira, não precisaria se sujar de terra e nem tratar com os peões. Tanto melhor, assim ninguém meteria o bedelho nos negócios que fazia.

Quando o garoto fez quinze anos, o pai insistiu em mandá-lo para o internato na capital. Argumentava com a esposa que sua educação estaria completa, que se envolveria com pessoas de sua classe e categoria, ficaria distante daqueles bugres e trogloditas doidos para enfiar uma filha mal cheirosa sob as cobertas do rapazola. Tanto falou, dia após dia, que terminou convencendo madame Therèse.

Acabou janeiro, o garoto voltando de suas férias em Bariloche, sequer desfez as malas. Partiu na manhã seguinte para São Paulo. Seguiram-se três anos de internato, aulas de piano e dança, francês e italiano, compras e saraus, descidas a algum resort na praia com colegas da high society, filhos de industriais, senadores, generais e almirantes, a crème de la crème.

Saudades de casa? Qual o quê! Umas cartinhas e visitas sazonais da mãe curavam isso rapidinho, ou um passeio demorado pelas lojas de grife. A mesada era maior que a folha salarial de todos os professores que tinha. Nada mais contava. Provavelmente as fazendas iam muito bem, o pai enriquecia e não esquecia dele, embora jamais um telegrama, um telefone, qualquer notícia.

Um dia a bomba.

Madame Therèse havia morrido. Antenor envolvera-se com uma amante argentina perdulária e luxenta. Junto com a missiva o documento registrado em cartório, firma reconhecida e deferimento do doutor juiz, três testemunhas idôneas: Pietro recebia sua emancipação. Nada mais de mesada, nada mais de paparicos, a rematrícula no internato não fora confirmada.

Procurou advogados, mas lhe tiraram as esperanças, estava por sua conta e risco. Muitas contas, diga-se de passagem, e riscos que não conhecia.

Expulso dos alojamentos, mudou-se para um hotel, o mais luxuoso, lógico. Uma semana bastou para perceber que não teria como manter-se ali. Começava a descer os degraus sociais, de hotel em hotel até chegar a uma pensão no subúrbio. Paralelamente a isso, procurava emprego de dia, jogava-se na esbórnia à noite. Os amigos ricos sumiram, as moçoilas casadoiras desaparecerem com a fumaça de seu último cigarro importado. Os convites para festas e saraus, sumiram junto com o carteiro.

Num desses bares, que também diminuíam em qualidade, bêbado, desesperado e solitário, assistiu a um espetáculo de dança, uma pantomima esdrúxula, na qual três rapazes faziam as vezes de mulheres e ocupavam-se em disputar as atenções e o dinheiro de um rapazola bem apessoado e de algibeira gorda.

Algo lhe atraiu ali. Não sabia se a desenvoltura dos travestis ou a beleza do rapaz disputado. Envergonhado, percebeu que se excitara com todos os quatro.

Voltou na noite seguinte e arrumou um jeito de ir ao camarim depois do show. Na tristeza em que andava, a alegria do quarteto o contagiou. A princípio tenso com a libertinagem que sentia nos abraços, pegações e beijos do quarteto entre si, logo viu-se com vontade de formar um quinteto.

Não tinha mais nada a perder na vida, a não ser as culpas judaico-romanas que lhe foram incutidas desde a infância. Mas aquela infância fora para outra vida adulta, não a que levava agora. Um pária.

Foi aceito no grupo. Recebeu lições de como vestir-se e despir-se, de como andar e dançar, do que beber e com quem sair.

Tornou-se, em pouco tempo, a estrela das noites de quinta-feira, a noite dos motoristas e motorneiros. Quando não está no palco ou nos braços de um homem fedendo a suor e tráfego, está trancado no quarto com seu narguilé de ópio.

O Inferno Antes do Outro

Mais um dia de caos no Hospital Zulmiro Sedósio, nome de antigo, corrupto e incompetente prefeito (que me desculpem a redundância), batismo ideal e apropriado para uma casa pública de serviços de muito duvidosa qualidade.

Encolhido numa desconfortável cadeira de plástico um homem amarelo reclamava baixinho das dores no peito, ao seu lado uma jovem senhora maltratada pelo tempo limpava o nariz de um bebê que teimava em chorar no meio daquela catarrada esverdeada. Jogado a um canto um homem com um buraco na canela por onde se via o branco da tíbia quebrada. A prenha de gêmeos gemia na maca, pernas abertas esperando a hora, como se a natureza fosse esperar os médicos e formulários. A mocinha com conjuntivite, o rapazola hipocondríaco, a velha com a língua solta, o bêbado de cor indefinida e o fígado estufado... Nem num circo de Buñuel existiriam tantos tipos bisonhos.

Escorados no balcão, para protegerem a atendente da agressão de algum descontente, , dois seguranças. Ao lado da porta, outros dois. Médicos não apareciam, apenas uma ou outra enfermeira com seu jaleco branco e sua cara de que as nuvens deslizavam sob seus pés e nada as atingia, superiores às mazelas dos pobres mortais desgraçados espalhados pelo salão. Médicos? Esses devem ter uma entrada secreta, um teletransportador, ou moravam numa cartola, ninguém os via. Na contagem final, eram vistos mais guardas do que médicos ou enfermeiros.

Aquele povo jogado de qualquer jeito pela sala lotada, escura, sem ventilação e recheada de vírus e bactérias até que queria, mas de onde tirar forças para brigar, contestar? Sem falar do medo de depois serem ainda mais maltratados por um doutor vingativo e onipotente.

Muito de vez em quando a atendente chamava por um nome. Se o convocado conseguisse andar ou se arrastar, ia até o balcão de onde era encaminhado por um corredor de azulejos até um dos consultórios. Se não conseguisse se locomover, dois indelicados mastodontes o atiravam sobre a maca ou na cadeira de rodas como se fosse um saco de batatas e os despejava numa daquelas saletas claras e ventiladas.

Num mesmo instante foram chamados a grávida com a bolsa rompida e o homem de perna quebrada. Os mastodontes siameses tiveram que se separar. Um empurrou a maca da mulher, o outro atirou o homem sobre uma cadeira de rodas. Nem gemeu, desmaiou de dor.

Atendidos, operados e internados para a recuperação, a mulher acordou com três pinos de platina na perna e o homem com um curativo cobrindo a cesariana.

De Braço Dado Com a Noite - Parte 3

Estava entregue à matilha.

Morderam, chuparam, lambuzaram, comeram e recomeram. Alternavam-se nas funções enquanto sua única função era ser passiva e obedecer Às ordens, nunca amáveis. Morde aqui, chupa ali, abre mais, fecha, vira, de ponta cabeça, esfrega, alisa, geme, grita, xinga...

Com aluguel a pagar, conta na boutique a saldar, telefone em vias de ser cortado e sem ele o trabalho sumiria, Adalgiza Bright, codinome criado inspirado na miss Brasil misturado com um cintilante inglês, sujeitava-se.

Rijos por conta da overdose de excitantes químicos, os algozes só descansaram por falta de preparo físico, facilmente denunciada pelas barrigas salientes e flácidas.

Aliviada, Adalgiza preparou-se pra abandonar sua masmorra. Tentou se levantar do carpete surrado onde havia sido abandonada como um animal surrados, mas foi impedida pela para grossa e cabeluda que a empurrou de volta ao chão.

- Calma aí, piranha. Isso é apenas nosso recreio. Te arrasta até ele.

O “ele” ao qual o outro indicava era o mastodonte dos três, sujeito enorme com barba cerrada que deixara marcas na pele fina de Adalgiza. “Ele” estava ajoelhado com um pires na mão. Dentro do pires um pó branco que ela sempre evitara provar, mas que sabia bem do que se tratava.

Tentou não ir, não se sujeitaria àquilo, mas o pontapé nas suas costelas demoveu-a do intento de rebelar-se. Naquele pardieiro fantasiado de hotel três estrelas, sabia que seus gritos por socorro não seriam atendidos. Arrastava-se devagar, pesando o que seria pior, levar uma surra pela desobediência ou correr o risco de perder a consciência depois de provar a droga.

Não chegara a uma conclusão quando viu-se puxada pelos cabelos e o rosto enfiado no pires.

- Cafunga! Cafunga, vaca! Limpa o pires!


*Esta é minha parte num conto coletivo com mais três escritores.

O Conto

Cabisbaixo, mãos nos bolsos, anda sem rumo seguindo as calçadas. Chuta latinhas e pedregulhos, à toa, madrugada a dentro. Ficara até aquela hora, duas e meia, tentando escrever o conto encomendado pelo jornal literário. Até achou que havia conseguido um tema - gêmeos que se reencontram anos depois da separação e se vêem como num espelho, mesmo gosto de vestir, mesmo corte de cabelo, mesmos gestos. Terminou caindo nos clichês e desistiu.

Fumou, tomou uma taça de vinho enquanto folheava Machado de Assis em busca de inspiração, mesmo que fosse plágio. O editor aguardava o e-mail até as oito horas da manhã seguinte, ele não poderia falhar. Mais do que a graninha que deixaria de ganhar, feriria sua reputação ainda iniciante de bom contista, jamais seria convidado por aquele grupo editorial e isso não era pouco. Quando alguém a quem todos bajulam e com quem gostariam de trabalhar, não o aceita mais, a praga se espalha e todos os demais se recusam a arriscar com um rejeitado. Ele seria o rejeitado.

Se plagiasse Machado, poderia usar do argumento, quando descoberto e desmascarado, que havia sido inconsciente, provavelmente fora traído pela memória que lhe apresentou o velho conto revestido como algo novo. Não ficaria queimado no mercado, apenas chamuscado, mas com a vantagem de que ganharia tempo para compor algo realmente original.

A idéia demorou pouco. Não se sujeitaria a algo tão desonesto e tacanha, embora, por si, a idéia já era bem original. Isso poderia dar conto.

Tentou, mas as palavras fugiam quando se sentava em frente à tela brilhosa. A idéia estava viva, sentia-a pulsar nas circunvoluções cerebrais, mas se perdiam como em um labirinto. Não desenvolvia, andava em círculos. Pegava papel e lápis e ensaiava uma tempestade cerebral: o personagem tinha que escrever um conto; adiara até a última hora desprezando os quinze dias que lhe foram dados; na véspera de enviar os escritos para o editor, a inspiração não vinha e ele se exasperava; resolvia escrever um conto sobre isso, o que para ele era uma crônica-desabafo, para os leitores seria um conto. Até aí tudo bem, mas o que acontecia depois? Nada! Não conseguia desenvolver.

A taça de vinho virou uma garrafa, o cigarrinho do descanso virou uma carteira de inquietação, a tempestade cerebral não passou de chuvinha de verão, o início da noite virava silêncio nas avenidas. Melhor tentar outra coisa. Sabia que não era um tacanha qualquer com aspirações de escritor, sabia que tinha talento, tanto que o maior editor de literatura de que tinha conhecimento lhe encomendara um conto, não seria, portanto, tão difícil encontrar um tema.

Pegou o álbum de fotografias que levava a cada mudança, entre as muitas que tivera pela vida. Imaginava que revendo os amigos de infância, os passeios de escola, as namoradas já esquecidas e casadas e descasadas, os parentes chatos em dias de Natal, os colegas do tempo de bancário... Alguma história viria a ser contada. Talvez transformasse em ficção alguma realidade desaparecida e amarelada no tempo.

Mãe e pai, a irmã Zilinha, os primos dos quais mal lembrava um ou outro nome, Tramandaí, Neve em São Joaquim, Bonito e mergulho no rio, Brasília e o primeiro porre na rodoviária, Helena e o primeiro beijo, Sara e o último sexo, Belo Horizonte e o carro capotado, dez pontos da cabeça e costelas quebradas, Salvador e o primeiro abadá, o primeiro assalto com direito a ficar nu em Maceió, Paris e a primeira francesa... Via que não tivera uma vida dura, que conhecera mundos e gentes, que fizera o que a maioria dos mortais jamais conseguiria fazer, que tivera bons pais que lhe forneceram isso tudo e mais do que merecia. As maravilhas de uma vida bem vivida não lhe davam, porém, uma única historinha para contar.

Abriu a segunda garrafa e a última carteira de cigarro. Lembrou de João Ubaldo fazendo a auto-crítica dos tempo em que bebia: bêbado escrevia coisas maravilhosas que, sóbrio no dia seguinte, concluía serem lixo. Com o tempo se esvaindo como passageiros do metrô no rush, não se queixaria de escrevesse uma das maiores porcarias literárias da humanidade, mesmo que o álcool lhe dissesse ser uma obra-prima. Prometia-se não revisar, sequer reler, desde que nascesse uma história completa.

Bebia, escrevia, relia e apagava. Ainda não estava suficientemente bêbado para desprezar a autocrítica. Na maioria das tentativas, nem autocrítica era necessário, simplesmente não conseguia desenvolver a narrativa.

Fumava e esquecia do computador, apelava para papel e caneta. Eram tantos os rabiscos, tantas as idéias mal nascidas e abortadas depois das primeira linhas que já se amontoavam ao redor do cesto as bolinhas de papel. O lápis já fora apontado incontidas vezes, resumindo-se a um toco que nada gerava.

A última taça de vinho e o último cigarro. Recusava-se a tomar café, refrigerante, chá ou qualquer coisa minimante saudável, queria maltratar-se, autoflagelação por causa da esterilidade mental. Que viesse a má inspiração alcoólica de Ubaldo, pelo menos isso. Que viesse o espírito do pior contista morto reencarnar em si, desde que tivesse algo a psicografar.

Jogou a guimba do cigarro também no cesto entulhado de papel, recolheu o casaco mal jogado no encosto da poltrona e saiu em busca de álcool e cigarros. Nunca fizera isso, mas se desse de cara com um traficante, compraria uma droga qualquer se o vendedor prometesse que ela abriria o cérebro como dizem os junkies.

Cabisbaixo, mãos nos bolsos, anda sem rumo seguindo as calçadas esperando surgir uma porta de boteco aberta àquela hora. De repente, o estalo. Veio-lhe clara e aberta a história do escritor estéril. Via como se num filme o desenrolar da história, seu final surpreendente e engraçado. Apalpa os bolsos em busca de uma caneta, o toco do lápis – precisa anotar antes que perca -, nada! Volta-se correndo em direção a casa, correndo pelo meio da rua que tem menos obstáculos que as calçadas acidentadas. Atrás de si ouve o motor acelerado e as sirenes, salta de volta para a calçada evitando o atropelamento pelo carro dos bombeiros. Recobrado do susto, retoma a corrida, repetindo mentalmente o grande final do conto ainda em gestação.

Dobra a esquina e estanca lívido. Os bombeiros atiram água na casa em labaredas altas, vítima de um cigarro aceso na lixeira.

Bolero

As sextas-feiras eram cruéis, lentas para Divanilma, as horas não passavam. O expediente da enfermeira não se acabava. Quando, por fim, o relógio marcava seis horas, era a primeira a bater o ponto de saída e correr para o ponto em que a espera pelo ônibus era uma eternidade.

Descia a duas quadras de casa e percorria a distância sem sentir nenhum cansaço nas pernas que trabalharam de um lado para outro durante todo o dia. Ao abrir a porta, o casaco já estava na mão, o sapato desafivelado era jogado em qualquer canto, da bolsa só retirava a carteira que transferia para outra bolsa menor, de alça fina e longa. Despia-se apressada em direção ao banho. O melhor xampu, o sabonete especial que não usava em dias de trabalho, não ficava bem uma enfermeira rescindindo a sândalo e amêndoas enquanto limpava urinóis e fazia curativos.

O perfume caro, metade do salário, a saia rodada e colorida com a blusa de seda vermelha passadas de véspera e deixadas sobre a cama antes de sair para o batente, a meia-calça sóbria e os sapatos de salto agulha que a deixavam mais alta, elegante e com leveza no andar, andar de modelo, como ela gostava de dizer.

Um olhar demorado e analítico no grande espelho. Nada podia estar errado, nem mesmo um fio de cabelo. Uma olhada no relógio de parede, havia tirado o de pulso, não achava elegante uma dama usar relógio em tais circunstâncias, além de não querer dar bola para o tempo depois que saísse.

Caminhava pelas ruas de paralelepípedos uma nova Divanilma, despertando olhares enquanto se dirigia para o baile de Valvido, onde dezenas de cavalheiros, já impacientes, a esperavam e dançavam com qualquer uma para que a espera fosse menos dolorosa. Cada um alimentava a esperança de que essa noite teria sorte de tirá-la para dançar.

Para consolo das rivais, nenhum conseguiria. Sabiam que Divanilma esperava o par perfeito, o homem com e para quem dançaria para o resto da vida.

Sua mesa à margem da pista estava pronta como sempre. Valvido a recebia na porta, consorte com sorte e vítima das invejas masculinas. A conduzia até a mesa, lhe puxava a cadeira e, célere, fazia sua cuba libre com mais cola e gelo que rum.

O passo seguinte era o cortejo dos dançarinos solicitando seu par, educadamente dispensado.

Naquela sexta-feira, porém, um homem novato no baile, desavisado da história de Divanilma, não temeu a dispensa já esperada pelos demais.

Paletó e calça brancos, camisa vermelha contrastando com fina gravata azul, sapatos pretos primorosamente lustrados, Ferizódio, encostado com os cotovelos no balcão, encantou-se com a morena desde que a viu entrar, braços dados com Valvido. Observando suas ancas balançantes e as batatas das pernas fortes e grossas equilibrando-se graciosamente sobre os saltos finos, Ferizódio percebeu o potencial do par perfeito para o bolero.

Com a ginga segura de quem sabe usar muito bem as pernas na pista, Ferizódio aproximou-se. Com exceção do bolero, silêncio total, dezenas de pares de olhos observavam sua aproximação, inclusive os de Divanilma. Os homens torciam para ela livrar-se do invasor ousado; as mulheres, enciumadas, não queriam ver mais um homem fisgado pelo charme passivo de Divanilma.

- Bela senhorita, Ferizódio, seu criado. Muita satisfação.Enquanto apresentava-se, tomava a mão da moça e a beijava.

- Tão bela dama dar-me-ia o prazer de acompanhar-me numa dança?

Dançaram juntos pelo resto da noite e há vinte anos continuam dançando todas as sextas-feiras no baile de Valvido.

Perdão

Vanderlânia, minha flor, aceita eu de volta.

Tu sabe que tu é única no meu viver, as outras é apenas passatempo, quero dizer, eram, acabei com todas, só tu me interessa.

O pobrema é que a carne é fraca e o diabo atenta e eu, que também sou filho de Deus, sô mais tentado ainda pelo Cão que quer os homem bom como eu no exército dele. Mas eu me arrenego a ir pro lado dele e voltei pro bom caminho, minha santa.

Salve aleluia, salve!

Pra tu e por tu eu vou fazer tudo, pra tu eu vou viver cada segundo e fazer tudo que tu quiser pra te deixar feliz. Eu capino o quintal que deve de tá uma floresta, como já prometi antes e não fiz, dessa vez eu faço; eu vou almunçar com tu na casa da tua mãe nos domingo e fazer de conta que eu adoro ela, do jeito que tu sempre quis que eu fizesse e sempre me faltou corage; prometo consertar o telhado e arresolver aquelas pingueira na cunzinha, no banheiro e no nosso quarto, mesmo correndo o risco de me estabacar lá de riba e quebrar a cabeça; vou consertar as perna da cama das criança, mesmo sabendo que sou ruim de martelo e arriscar perder a cabeça do dedão numa martelada errada; garanto a você que acordo cedinho todos os dia, preparo o café e levo as menina pra escola; juro que vou te levar pra praia todo final de semana que não chuver e a gente nem vamos levar a farofa de carne de sol e a galinha assada. Tu vai comer é aqueles camarão grandão e o peixe frito dos bom que eles vende lá; vou trabaiá de sol a sol, final de semana e feriado pra nunca faltar nada pra tu e pras nossas filhas.

Se eu esqueci de prometer alguma coisa pra te fazer feliz, pode me alembrar que eu prometo tomém. Tudo o que tu quiser, minha nega.

Prometo até ir com tu pros culto da igreja e tratar o pastor com todo o respeito e cortesia. Vou pras festa da igreja, seguro o estandarte, aprendo os hinos e todas as oração, participo do coral... Faço todas as obrigação e ainda pago o dízimo, tudo por tu, muié que amo mais que tudo no mundo.

Mas eu vou poder tomar uma cervejinha com os amigo de vez inquando, vou não? Prometo que num vai ter niuma muié com nós, só os homem, nada de muié!

Sei não, alguma coisa me diz que tu num vai aceitar isso, num vai creditar nim eu...

Quer saber? Esquece tudo que prometi. Quero voltar mais não. Vou ficar sozinho mesmo, sem tuas aporrinhação no pé das minha zureia o dia todo, todo dia.

Fica com Deus e seja muito feliz. Dá um beijo nas criança e diz que eu amo elas.

Daquele que foi teu um dia, Brenolivaldo.