segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Bozó

Cinco filhos e uma mulher, um barraco precisando de reformas antes que caíssem os caibros nas cabeças da família, Jairino se virava para colocar pão na mesa e os apetrechos da escola da meninada, duas coisas para as quais não relaxava.

Fez da sala de estar um botequinho onde só cabia o balcão entre ele as prateleiras lotadas de garrafas de cachaça, umas puras, outras temperadas, e os clientes que se aboletavam nos quatro bancos de pernas altas.

Num bairro pobre de uma cidade pobre, o boteco é o parque de diversão dos adultos, barato e de onde todos saem com a sensação de que não existem problemas, rindo ou chorando à toa, amando ou odiando mais suas mulheres conformadas.

A féria era dividida em três partes. Uma para a alimentação, outra para as demais necessidades da molecada e a terceira, o capital de giro que aplicava aos pouquinhos na birosca.

Já conseguira comprar duas mesas que se espalhavam com banquinhos na calçada, por falta de espaço dentro, e já ensaiava a compra de uma geladeira. Se a cachaça dava um lucro considerável, a cerveja incrementaria os negócios. Abrira uma porta nos fundos que dava direto na cozinha e de onde vinha um tira-gosto de carne assada aumentada com muita farinha. Fazia volume e economizava dinheiro na enganação.

Volta e meia aparecia um espertinho com um baralho e montava-se um jogo para tirar os níqueis dos incautos bêbados ansiosos por um dinheirinho extra. Jairino observava as táticas e técnicas do espertalhão, como ele fazia para viciar o carteado, como alguns vinham com um parceiro que fingia ser desconhecido; não deixava de notar um “peru”, como chamavam os assistentes que davam pitaco no jogo de fora da mesa e o que menos falava usava óculos de lentes espelhadas e se punha atrás do adversário do dono do baralho.

Normalmente esses jogos terminavam em bate boca e confusão, hora em que Jairino desmanchava a mesa e fechava o bar antes que uma peixeira saísse da cintura de um mais afoito. O dono do baralho, sempre saía com a algibeira cheia e sorriso na cara.

Em outras oportunidades, surgia um dominó nas mãos de dois amigos que jogavam sozinhos e se divertiam, atraindo aos poucos a curiosidade dos demais. Não demorava, havia fila para jogar. Invariavelmente os dois primeiros jamais eram derrotados, causando inveja e desconfiança dos demais que montavam suas duplas, discutiam estratégias e, mesmo assim, perdiam seus trocados nas apostas.

Para não chamar atenção demasiada, os embusteiros se deixavam derrotar de vez em quando, tomavam um refresco e esperavam a oportunidade de voltarem à mesa para continuar a exploração dos adversários embriagados.

Jairino percebia os sinais, como sutis coçadas de nariz, pigarros, ajeitadas diferentes na aba do chapéu. Mas, como os barbeiros e médicos, guardava segredo, quem quisesse se deixar enganar, que arcasse com os prejuízos, a ele só cabia o lucro da venda das bebidas e tira-gostos de mais farinha e pouca carne.

Pela satisfação dos desonestos, o botequeiro passou a imaginar uma maneira de, ele também, se dar bem com tramóias inocentes. Ninguém chamava ninguém para jogar, a usura e a necessidade de dinheiro se encarregavam de levar os abestalhados a se arriscarem num jogo que não dominavam. Jairino passava horas por dia matutando o que poderia fazer de diferente para também montar sua banca de jogos. Nada de baralho, teria que contar com um cúmplice, ou dominó.

Na feira, onde ia aos sábados de manhã comprar carne barata e cachaça baldeada, viu um grupo de estivadores numa rodinha, gritando, sorrindo e apostando. Aproximou-se, curioso, sabendo, por instinto, que ali havia uma jogatina. Jogavam dados. Dados comuns, cada um apostando em um número. Ganhava toda a bolada quem acertava. Era um jogo rápido, portanto as apostas eram pequenas, coisas de centavos. Essa alta rotatividade lhe interessava. Talvez fosse o jogo que procurava. Não foi difícil encontrar uma biboca onde se vendessem dados e o bozó. Só faltava uma estratégia para nunca perder.

Naquela tarde o boteco lotou. Faltou mesa e alguém providenciou caixotes de madeira que foram usados como mesas e tamboretes. No meio de alguma discussão sobre mulher, futebol ou política, alguém mais nervozinho dava um tapa na madeira, esquecendo-se que não era uma mesa das mais sólidas e os copos de cana se espalhavam. Estava ali o que Jairino procurava!

No dia seguinte, sozinho, no meio da tarde, poucos clientes no bar, como quem não quer nada Jairino pegou os caixotes, montou sua banca e passou a jogar os dados. Com carvão desenhou doze quadrados e enumerou cada um, em ordem crescente, a partir do número 1. Punha uma pedrinha em determinado número, aleatoriamente, e despejava o bozó. Conferia os números sorteados com sua aposta, quase sempre errando. O filho, vendo aquilo, confirmou que o pai tinha apenas uma possibilidade, em doze, de acertar, menos de dez por cento. O que significava boa margem de lucro, se doze apostadores de espalhassem nas apostas.

Não demorou a se aproximar o primeiro curioso. Jairino explicou que estava se divertindo sozinho, por falta de companheiro para jogar. Que não fosse por isso, os clientes apostariam. Levava a bolada quem acertasse o número.

- Peraí! Assim, não! – Jairino ditou as regras – Se ninguém acertar, eu fico com tudo. Quem acertar leva o dobro do que apostou. Se ninguém acertar, eu fico com tudo!

Os outros fizeram as contas. Só valeria a pena se todos os quadradinhos estivessem cobertos por apostas. Juntaram-se doze homens rapidinho em volta dos caixotes. Todos fazendo suas apostas.

Sempre alguém ganhava e Jairino apenas jogava os dados, nenhum lucro. A turma bebia, ganhava e perdia, os vencedores gozando dos outros, os perdedores aguardando sua sorte. Jairino apenas jogava os dados.

A assistência já bêbada, o botequeiro balança o copinho de couro, chama pelas apostas, e coloca o bozó sobre o caixote.

- Casem o dinheiro! Casem o dinheiro!

Todos colocaram suas moedas nos devidos quadradinhos.

- Tá casado?

E o “sim” coletivo.

- Ninguém mexe nos dados. Vou mijar e já volto. Ainda tá em tempo de mudar, quem quiser.

Dito isso, saiu pelas portas dos fundos e ficou espiando pela fresta das madeiras da parede.

Urozimbo, não se contendo, levantou o bozó e olhou os dados: 8. Com o dedo indicador em riste diante dos lábios, pedia silêncio aos comparsas. Retirou a moeda que havia depositado no 10, juntou mais algumas a ela e colocou todas no quadradinho do 8. Os demais, para não saírem perdendo num jogo que já sabiam perdido, fizeram o mesmo. Todas as moedas e as primeiras cédulas, todas sobre o número 8. Gente que nem estava apostando se juntou ao grupo. Mais e mais dinheiro, uma pilha considerável. Só se preocupavam com uma coisa: Onde Jairino iria arrumar dinheiro para pagar o dobro de todas aquelas apostas.

Dinheiro casado, silêncio de sociedade entre os parceiros, aguardaram ansiosos a volta de Jairino. Este entra fechando o zíper da calça como se tivesse acabado de sair do banheiro.

- Tá casado?

O “sim” coletivo veio mais alto e mais animado.

- Ninguém quer mudar?

- Não!

Com um tapa no caixote, que fez os dados se revirarem sob o copo, Jairino gritou enquanto agia:

- Vou abrir!

Deu 3.

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